Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

sexta-feira, abril 30, 2004



para o zé craveirinha


Gosto dos amigos
que modelam a vida
sem interferir muito;
os que apenas circulam
no hálito da fala
e apõem, de leve,
um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
entre quem são
e quem eles me parecem,
o meu agrado inclina-se
para o mais reconciliado,
ao acordar,
com a sua última fraqueza;
o que menos se preside à vida
e, à nossa, preside
deixando que o consuma
o núcleo incandescente
dum silêncio votivo
de que um fumo de incenso
nos liberta

Sebastião Alba
A Noite Dividida

quinta-feira, abril 29, 2004



POEMA DE AMOR

Ai, eu te digo que a noite é inútil
para o instante que me contém
- só vejo as estrelas que se desfazem
pelo céu adeante.

E ai, eu te digo que as longas palavras
me são todas distantes
- só escuto o silêncio que por elas fica
pela vida adeante.

Estrelas e silêncios é o que me detém
ainda um momento
por isso te pareço já tão ausente
em qualquer tempo.
Solidão

Dá-me a tua mão - e saberás
qual é a harmonia
que me destrói e me refaz
na exacta medida.

Glória de Sant'Anna

quarta-feira, abril 28, 2004


Velazquez - As Meninas

RETORNO

Nous reviendrons dans nos enfants

Subo um passeio branco alastrado de sombra,
luz e folhas caídas.
Pela mão vai minha filha,
juntos subimos rente ao fim
da tarde.
Apertando-me os dedos, olhos nos olhos,
minha filha faz-me as perguntas de todas
as crianças.
Seus olhos espelham os meus
e na boquita fresca vagueia o sorriso
que outrora perdi.
Absorto, caminho rumo ao fim do tempo,
ela, rumo ao princípio.
O meu poente roxo é a sua alvorada
estridente.
Termino um pouco onde ela começa,
mas minhas mãos continuam nas suas.
Penso agora na morte sem angústia
e na vida com outro empenho.
Minha filha vai comigo, seus olhos,
seus gestos, seu sorriso,
lembrança de mim.
Vou partindo. Ela apenas chega.
A tarde cai e não é triste morrendo.

Rui Knopfli

sábado, abril 24, 2004

TANTO MAR¹


Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo pra mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque
1975



¹ (primeira versão)
Letra original, vetada pela Censura;
gravação editada apenas em Portugal, em 1975


TANTO MAR¹


Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque
1978


¹ Segunda versão

sexta-feira, abril 23, 2004

ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns milreis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam o "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"– Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
– Um colar... – Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"
......................
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giôlhos
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fú! Fora o bom burguês!...


Mário de Andrade
Poesias Completas



DIA MUNDIAL DO LIVRO



Catedrais do Livro

quinta-feira, abril 22, 2004

POEMA DAS COISAS BELAS


As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivo serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o Sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do Sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando coisas percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?

António Gedeão


quarta-feira, abril 21, 2004



Alentejo

TAMBÉM SOU ALENTEJANO


A José Manuel Mendes


Fernando Pessoa não gostava de sobreiros.
Não sei se saberia do milhafre e do arrepio
circular do seu grito.
Mas percebia com certeza do interdito
da passagem
do rio.
Talvez soubesse do raiano
do mágico logaritmo de outra margem
e de um azul secreto dentro do azul.

Mas ele era só Baixa só urbano.
Sentia na cabeça e na palavra.

Eu gosto dos caminhos para o sul
onde passa o cigano e a rola brava.

E também sou alentejano.

Manuel Alegre
Alentejo e Ninguém

terça-feira, abril 20, 2004


TEMPO DE RUSGAS

I

Era tempo de rusgas.
Havia ordens terminantes
mas era preciso não andar desarmado.

A revista nas estradas era intensa.

Bem armado
passei sem licença de porte de arma
minha mão comprimindo no bolso
as coronhas de 3 poemas.

II

Os que não são poetas
ignoram o que é estarmos em reclusão
armados de conluios até aos dentes.

E na sua imprevidência
não sabem que um poema detido
mesmo de cor na cabeça
também é uma forma
dialéctica
de lhes armar o cerco.

III
SBA


Sou daquela raça
dos revolucionários mais perfeitos.
A raça dos homens ao natural
que amam o amor sem as mil
fictícias boas maneiras
burguesas.

Raça
dos revolucionários mais puros
no amor à beleza feminina
na adoração pelas crianças
no respeito pela velhice
no ódio à mendicidade.

Raça de revolucionários cheios de defeitos
e apenas uma pequeníssima qualidade:
Mesmo inseridos em molduras de alvenaria
com uma força de segurança no exterior
não compramos o Amor
e não nos vendemos!

José Craveirinha - Cela 1



PARA UM IDÍLIO CLANDESTINO

SBA


Deixa-me que te beije
ao de leve o rosto na manhã nova
e meus dedos acariciem
nervosos a curva meiga do teu seio.

Meu amor:
o senso fragmenta-me a sensibilidade
e o que sei sinto-o
larva plena do que há-de vir.

Tu e eu
envolvidos nesta aventura
esperamos o comprometido instante
nalguma parte a sós.

Vai. Não te esqueças.
Nesta manhã do Infulene
ao quilómetro dez da liberdade
o sobrenatural acontece:
É assim.
Eu preso.
E tu minha mulher
depois da visita partes à vontade
mas não livre.

José Craveirinha - Cela 1



WINDS OF CHANCE
St. António da Polana - MAPUTO



Ninguém se apercebe de nada.
Brilha um sol violento como a loucura
e estalam gargalhadas na brancura
violeta do passeio.
É África garrida dos postais,
o fato de linho, o calor obsidiante
e a cerveja bem gelada.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Estridem mais gargalhadas,
abrindo umas sobre as outras
como círculos concêntricos.
Os moleques algaraviam, folclóricos,
pelas sombras nas esquinas
e no escuro dos portais
adolescentes namoram de mãos dadas.
De facto como é mansa e boa
a Polana
nas suas ruas, túneis de frescura
atapetados de veludo vermelho.
Tudo joga tão certo, tudo está
tão bem
como num filme tecnicolorido.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Ninguém se apercebe de nada.

Rui Knopfli

domingo, abril 18, 2004

EPITÁFIO

Eu um dia serei uma poalha de vento
pousando inadvertidamente em tua face

e me sacudirás

Eu um dia serei uma réstea de chuva
caída por acaso em tua fronte

e me sacudirás

e eu um dia serei a última lembrança
imponderável já na tua mente

e então me esquecerás

Glória de Sant'Anna


Lugar del placer - V Bienal Naif Internacional 2002



SEGUNDO DOS POEMAS DE INFÂNCIA


Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
...Como nasci poeta
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.

E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira
que levou o chapéu do Senhor Administrador!
Em toda a vila
se falou logo num caso de política;
o Senhor Administrador
mandou vir da cidade uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu....

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

Manuel da Fonseca

sexta-feira, abril 16, 2004






GUARDAR



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.


António Cícero - mais

quinta-feira, abril 15, 2004



Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Almada Negreiros
Figura feminina sentada - Almada Negreiros



terça-feira, abril 13, 2004

(Sem Título)



Não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.
Liberdade



Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pareça

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui,

não hei-de morrer sem saber.


Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,

não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.



Jorge de Sena
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domingo, abril 11, 2004


Emotions

POETA ATIRADO AOS BICHOS


Meu amor:
Nem tu percebes ainda o bater
ansioso dos tendões nos afinados
motores bem mainatos passando a ferro
o capim debaixo das obscenas chapas
na maquilhagem embelezando
a escarlate as picadas.

E
tua ostra de chamas
cerra-me no seu íman de con-
cha palpitando a mornas pétalas do teu gerânio
um belo coiso de gemidos no tálamo
de capim onde alongamos os nossos
pesadelos em fragmentos
dispersos na mata à ferroada
dos insectos de obuses.

Porque
confesso-te, meu amor
não são bem propriamente o que eu desejo
estes pervertidos versos sem rima e sem nada
mas unicamente nacos fixes de um poeta
de carne em sangue no meio deste zoo
atirado aos bichos!

José Craveirinha
Cela 1





A HISTÓRIA DA MORAL

Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá--lo.

Alexandre O'Neill



Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Álvaro de Campos



Poesia em As Tormentas

sexta-feira, abril 09, 2004

TEMPO



Tempo
Tempo sem amor e sem demora
Que de mim me despe pelos caminhos fora



Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, abril 08, 2004



VIA-LÁCTEA - SONETO XIII


"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: " Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: Amei para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Olavo Bilac

terça-feira, abril 06, 2004

A propósito de Cahora-Bassa


CAHORA BASSA - Moçambique

O ELEFANTE BRANCO


Em 1956, cerca de vinte anos antes da independência, a região de Cahora Bassa, em Moçambique, foi visitada, com objectivos bem determinados, por técnicos portugueses. Foi um dos primeiros passos, de um longo e complexo processo, conducente à construção da barragem de Cahora Bassa, que se concluiu no fim do ano de 1974. Em 25 de Junho de 1975, a colónia de Moçambique, declarou a sua independência, após negociações entre os dois países. Já em 1950 tinha surgido a ideia de aproveitar os 830 quilómetros que o rio Zambeze percorre naquele país, com o objectivo de impulsionar os recursos do vale do grande rio, com especial predominância para os recursos agrários e minerais, além das importantes implicações políticas daí inerentes.
Existiam naquela zona, rápidos, que não permitiram a navegação e consequente exploração do vale do rio Zambeze, o indomável, na época em que os exploradores portugueses se entranhavam por terras desconhecidas, sensivelmente em meados do século XVII. Esses mesmos rápidos, outrora obstáculos, vieram permitir a execução de uma magnífica obra, com múltiplos aproveitamentos e a quem o primeiro presidente de Moçambique chamou «o nosso elefante branco».
Em 23 de Junho de 1975, foi criada uma sociedade anónima, em que o Estado Português e várias instituições de crédito nacionais, participaram com 81,66% do capital social e a parte moçambicana com 18,34% do mesmo.
Seguiram-se tempos de guerra civil e regional e a destruição dos postes de alta tensão que conduziriam a energia para os países vizinhos. Foram anos de estagnação, em que a central se manteve a funcionar a um nível minímo de manutenção.
Muitos anos depois da primeiro pensamento sobre este enorme empreendimento, existe uma cidade estaleiro, onde vivem os que mantêm a obra, incluindo muitos portugueses e respectivas famílias. Uma agradável e pequena cidade situada num planalto a 1200 metros de altitude denominada Songo.
Páginas e páginas se escreveram e hão-de escrever sobre esta região e sobre o empreendimento, mas até as grandes obras de engenharia se deixam ver pelo lado humano e não recorrendo só a números, projectos e cálculos.
Logo na primeira visita a Cahora Bassa, a barragem deslumbrou-me, não pelas explicações técnicas, que eram normalmente fornecidas aos visitantes, mas pela atmosfera, quase de ficção científica em que se mergulhava, desde a entrada no elevador que baixava pela terra e nos deixava num tunel comprido e de grandes dimensões, em tons de amarelo, encurvado, completamente desnudado mas com luz suficiente, fazendo lembrar as mangas de acesso das naves espaciais. E de súbito, surgia um enorme vidro, um varandim, e lá em baixo, o deslumbramento de uma caverna escavada na rocha, como se fosse uma catedral, sem dimensão imediata possível, luz artificial, máquinas, homens e rocha bruta. Entre a beleza e a grandiosidade, os olhos tentavam abarcar tudo para não perder a imagem de qualquer coisa que se pensava não se voltaria a ver, nunca mais. Poucas coisas me deslumbraram asim, ao primeiro contacto, e de imediato.
Levaram-nos depois à caverna escavada na rocha que já vira de um plano superior, onde, tal como nos filmes de ficção científica, se fica à espera do que pode acontecer a seguir, com um certo temor, tal a sensação de enormidade, mistério e criatividade artistica e técnica.
Dominando o centro da gruta, de mais de duzentos metros de comprimento, viam-se grandes objectos circulares, cinco ao todo e que nos disseram ser, os grupos geradores. As paredes laterais, até certo ponto, eram forradas de aparelhos, mostradores, botões, instrumentos. Dali para cima, rocha bruta iluminada a luz artificial, e os olhos continuavam até à abóbada a cerca de sessenta metros de altura e ficavam demorados na grandiosidade do trabalho ali feito. Dos lados, bocarras enormes e escuras, de túneis, esperando não se sabe o quê. Do futuro, talvez. Dez quilómetros de túneis dizem.
Penso não errar, se disser que a albufeira, é um dos maiores lagos artificiais de África e do mundo, com os seus quase 280 quilómetros de comprimento e largura máxima de 30 quilómetros. É inevitável o recurso aos números. As palavras são algumas vezes insuficientes, para, só por si, mostrarem a grandiosidade do que se pretende explicar.
Anos depois, voltando a Cahora Bassa e novamente de visita à gruta gigantesca, lá encontrei os túneis de acesso monstruosos, onde carros e camiões circulam como se em estradas estivessem, a potente descarga de água ribombando como mil trovões, onde os arco-iris são lugar comum, onde mais uma vez pensei, que o que ali estava, não era só obra de engenharia, mas muito mais: uma das maravilhas do mundo. Sempre me pareceu uma obra de arte, grande demais, é verdade, mas mesmo assim, uma maravilha de grande beleza e imponência.
Há um ambiente em toda aquela região que não se encontra em qualquer sítio. Uma transparência colorida. É como se magias estranhas se escondessem em toda a parte e a todo o momento nos surpreendessem com pormenores de deslumbramento. As árvores, os enormes imbomdeiros, as pedras, as plantas, os pássaros, as pessoas, os montes, a água, a cor de tudo isto, só existe ali. Montes azulados, árvores verdes ao lado de árvores amarelas ou castanhas, pedras de todos os feitios, céu pincelado de vários tons, esquilos atravessando a estrada de acesso à albufeira e á central, cobras invisíveis, animais que nunca se veêm, mas que estão lá, em Cahora Bassa, no maior empreendimento português no exterior do país.
Uma pergunta: será certo que desde o ano de 1956 se tem falado muito pouco de Cahora Bassa, o maior empreendimento português no estrangeiro e agora vai passar a falar-se mais?
Outra pergunta: que sabemos nós, pessoas deste país, deste «maior empreendimento de Portugal no exterior»?
Já são muitas perguntas, para quem só tem Cahora Bassa como um magnífico e raro elefante branco, uma obra de arte, que não cabe num punhado de palavras alinhadas num texto.



segunda-feira, abril 05, 2004


Boas vindas ao vizinho Ma-Schamba



MANGAS VERDES COM SAL


Sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.

Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido, na maré baixa,
no minuto da suprema humilhação.

Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato, à boca ardida,
à crista do tempo, ao meio da vida.


Rui Knopfli


sábado, abril 03, 2004



Flores para o OCEANUS OCCIDENTALIS, o SULANORTE e o SUL PARA TI

Gallery Jane Haslem



DÁDIVA

Sou mais forte que o silêncio dos muxitos
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.

Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.

...e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.


COSTA ANDRADE

Em 1954, no dia 03 de Abril, morre ARISTIDES DE SOUSA MENDES



THE INTERNATIONAL COMMITTEE FOR THE COMMEMORATION OF
ARISTIDES DE SOUSA MENDES






quinta-feira, abril 01, 2004

QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.



Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999


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