Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

terça-feira, agosto 24, 2004

A todos que comigo fizeram caminho, os meus agradecimentos. Terminámos a caminhada. 


Outro ponto de encontro, para quem se interesse por pintura: DICIONÁRIO DA PINTURA UNIVERSAL


CAIR DO PANO


As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa

de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz

do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

Rui Knopfli





quinta-feira, agosto 19, 2004


 
LEITURA NATURAL
 
Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias da sala
e recrudesce nas montanhas.

Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.

Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.

Affonso Romano de Sant'Anna
 

terça-feira, agosto 17, 2004

MEIA-NOITE


O monte da lenha adernou mais depressa
este inverno
levámo-lo para dentro de casa e deixámos que aquecesse
alguma palavra mais fria
aquela
tristeza recente. Ateamos a lareira com
as notícias da véspera
devolvemos à verdade sua condição de cinza
(vendo as chamas dançar lestas
com a sombra da parede
uma
dança demasiada). Queria
apear pelo chão as peças
do coração para
o poder reparar mas

uma dor que sopra fina
como um longo manto escuro
que bate contra a vidraça
e abana a persiana irado
de
não entrar. O
monte de lenha apoucou e
o sino da torre da igreja soou doze badaladas
(não vás esquecer por descuido o
teu chinelo de quarto
no
degrau da lareira). O
monte de lenha acabou. E
se
Deus nos acaba?

José Luís Barreto Guimarães
Rés-doChão

domingo, agosto 15, 2004






O CÂNTICO DA MÃE

Homens,

esses meninos
foram colhidos fundo no meu ventre

gritaram para a luz
sujos de sangue e sebo

face e corpo moldei-os
ao longo dos meus dedos

pus sol em suas mãos
e flores em seu cabelo

articulei seu lábio
e sondei sua fronte

virei seu rosto ao espaço
seu olhar ao mais longe

(Por entre cada pétala era tempo
de tecer o aroma das màluas
de tocar uma a uma cada nuvem
e de entrançar a chuva
era tempo
de medir a raiz pela pergunta
de escutar a semente mais profunda
em luta com o muchem pela terra húmida
do chicuvi
do todo azul madinde todo azul
do chèrule
do fumo esbranquiçado dos brazidos
sobre a castanha verde curva escura...)

Homens,

esses meninos
são do silêncio puro do meu ventre

sou sua cicatriz
e primeira palavra

      (e se é tempo de ser gume e de ser espada,
estilhaço, ferro, lança, bronze e ouro)

amaldiçôo aquele que não mos traga

como lumes na sombra
sujos de sangue e belos
mãos rasgadas e firmes
e cinzas no cabelo
de pé, crucificados
de olhar seguro ao longe
e no lábio a palavra
que os fez de ouro e de bronze


Glória de Sant'Anna

sábado, agosto 14, 2004

SERAPIÃO


Noite imensa
Deus baixou na Serra de Serapião e disse:
Brasil é meu
Mas não quero saber de muita bruxaria!

O mato encolheu. Visagens se apagaram
O silêncio visitou a floresta
Maria-cata-piolho benzeu-se no escuro

Deus então sem dizer nada reuniu distâncias
E começou a ouvir histórias de ai-me-acuda
A mãe-febre e o ploc-ti-ploc de lobisomem juntando esqueletos
Queixas de mulher que não tinha útero

Deus ficou pensativo

Sapo acendeu os olhos no escuro
Escreveu silêncios

- Pois não faz mal. Então Brasil fica assim mesmo!
Podem fazer puçangas de mau-olhado
Usar figas contra quebrante
Mirongas e benzeduras
Pajé-bruxo pai-de-santo

Quero um Brasil com boi-catira
E festas de tirolé
São João com banhos de cheiro
E mandingas de chamar o mato

Brasil respondeu: louvado seja!

Então Deus com alma doce foi conversar com as árvores
O rio de águas insones se encostou num barranco
Piou no mato o murucututu

Sombras murcharam
No alto ainda ocupavam espaço algumas estrelas independentes
Deus mandou acender fogo. Vintém-queimado!
Céu incendiou-se
Madrugada


Raúl Bopp

quinta-feira, agosto 12, 2004



GINÁSTICA APLICADA

Meu verso cínico é minha terapêutica
e minha ginástica. Nele me penduro
e ergo, em sua precisão de barra fixa.
Nele me exercito em pino flexível,
sílaba a sílaba, movimento controlado
de pulso, e me volteio aparatoso
na pirueta lograda, no lance bem ritmado.

Há um sorriso discreto em minha segurança.

Porém, se às vezes me estatelo, folha seca
(o verso é difícil e escorregadio), meu verso,
como de vós, ri-se de mim em ar de troça.

Rui Knopfli

AO BATER DA CHUVA
 
 
A porta fechada é uma obsessão.
As vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia
nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem,
no coração da aldeia do Mazozo.
A chuva cai em bátegas doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
A humanidade é fria.
 
As mulheres já choraram tudo
- A Mãe Gonga comandou o coro.
Esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
Os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.
 
Chamava-se Infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.
 
A chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
Como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
Como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da Calomboloca
e bate naquela porta fechada,
obsecada de protecção!
 
A gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
Quando ela vem, silencia a aldeia,
então, em sobressalto, o povo diz:
- Foram fuzilados...
 
E ninguém sabe do Infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...

Henrique Abranches


ANGOLA PRESS

terça-feira, agosto 10, 2004






FICÇÃO CIENTÍFICA

No livro de Ray Bradbury
o leão pintado na parede do quarto de brinquedos
comeu o pai dos meninos.
Nós tomamos esse ópio
e os tranquilizantes à venda
no comércio farmacêutico,
e andamos com melhor disposição.
Em Los Alamos
o grande cogumelo tem uma cor esquisita
e mastiga pedaços do horizonte
com o fogo das suas mil bocas.
Nós vemos os desenhos animados
do gato e do rato
e rimos como quem não se recorda.
As pessoas que brincam
com o fogo,
à noite fazem chichi na cama.
Ou queimam-se.

Rui Knopfli

domingo, agosto 08, 2004



CAJUEIRO PLANTADO NO CÉREBRO

- Oh, velho, disforme, cambuta, retorcido, feio-
-maravilhoso cajueiro da minha infância!
Vem de longe estender tua sombra amiga
Sobre meu corpo longo de suor e desespero...
Traz-me a carícia de tuas folhas-
-paraus de piratas nas lagoas da chuva
(Estou longe, quero regressar à minha terra...)
O suave aroma de teus ramos de pele encarquilhada, resinando,
Os esconderijos de teus braços nos cigarros proibidos.

Vem de longe, desse fundo sem eco da distância,
E traz-me a doce fragrância de um só caju maduro
Marcado com meu nome e data
E que os outros não descobriram...

Oferece-me a última vez que seja na vida
Teus ramos tenros para marinhar
Acrobacias impossíveis:
- Énu mal'ê! Énu mal'ê

António Cardoso







Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Poesia I - 1944

sábado, agosto 07, 2004

A POESIA DE ANTÓNIO GEDEÃO 



Poema das Árvores

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.

António Gedeão

quinta-feira, agosto 05, 2004

Estou aqui

Estou aqui sentado - ali o mar,
as palmeiras
O leite fresco, o pão na mesa.
O gesto sempre igual
da luz, o mesmo olhar da ave.
Existe uma secreta harmonia
entre a luz e o mar,
a mesma provavelmente
entre a palmeira e a ave,
o leite e o pão.
E com a palavra, o seu
voo a prumo, com a palavra qual a relação?

Eugénio de Andrade

quarta-feira, agosto 04, 2004


Pedras de silêncio somos
se atalhos há
são filamentos ténues
quebradiços

Chamei-te
uma pedra de silêncio
somos todos
uma pedra hirta
ao sol


Maria Andresen de Sousa
Lugares





segunda-feira, agosto 02, 2004

CATAR FEIJÃO

1.
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão, entra um risco:
o de entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quanto ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.


João Cabral de Melo Neto

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