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segunda-feira, julho 26, 2004

UM HOMEM PARA RECORDAR VIVO 


Queríamos tanto que arriscámos. Um Mestre, recém-chegado de uma apoteose em Frankfurt, quanto pediria? E que tínhamos nós, tecnicamente falando, para lhe oferecer? Condições acústicas, só as que traíam quando os professores nos apanhavam, em flagrante, a sussurrar para o vizinho do lado “Qual é a fórmula que equilibra oferta e procura no mercado monetário?”.

Foi nessa mesma semana. Ainda a noite não tinha caído quando lhe abrimos o barracão esburacado, a que pomposamente chamávamos a “Sala Ribeiro dos Santos” – homenagem ao antigo aluno que a PIDE assassinara na escola. – Pousou a guitarra sobre uma das carteiras e aproximou-se da figura reproduzida na parede, em tons de vermelho e amarelo. Depois, virou-se para nós e assentiu com um gesto de cabeça – como se a força do seu virtuosismo precisasse de condições acústicas para nos entrar nos poros! – Sorrimos, aliviados, e convidámo-lo para jantar, ali mesmo no bar da cantina, no meio da habitual balbúrdia das fotocópias da secção desportiva e dos cartazes da última trica eleitoral. Bitoque com ovo a cavalo, prato único no inexistente menu, e uma imperial chegaram-lhe para nos ouvir, a nós que tantas palavras gastávamos para conseguir comunicar, quando a ele bastava ter nos dedos a alma!.
Fitei-o, para guardar aquele momento único de estarmos sentados à mesma mesa.

Após o café, já com a presença da mulher, então sim, pediu aos meninos que o deixassem sozinho e fechou-se com a Luísa na sala, para afinarem as duas horas do nosso deslumbramento.

Estávamos a meio da década de oitenta, a da minha descoberta deste continente outro. Por isso, ao espanto de o ver de novo pousar a guitarra, sem que as luzes se abrissem para intervalo, seguiu-se a maravilha de ouvir falar Carlos Paredes. Sem ninguém lhe ter perguntado fosse o que fosse, o Mestre vagueou por entre as carteiras apinhadas e apresentou-nos Barcelona, onde se cruzara com alguns dos melhores músicos de rua, no bairro antigo que tanto amava – escusado seria contá-lo, mas, claro que, nas férias seguintes, fui estoirar o smac* da víndima para as ramblas catalãs.

Estou a ouvi-lo, enquanto escrevo. Recomendo vivamente “Marionetas”, em dueto com Charlie Haden.


Isabella Oliveira

Lx, 04.07.23


* Salário mínimo da agricultura, em França.



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