Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

quinta-feira, julho 29, 2004

DARFUR 

SALE A CUMPLIR EL DESTIERRO

/124/
Estou a escrever-te com as mãos enregeladas e no escuro. Na meninice, eu gostava de trepar às árvores e ver os pássaros que nasciam. O último que saía do ninho era o que (sei-o hoje) tinha razão. Isto, cá fora, é uma merda.

Sebastião Alba
Albas




NUNCA MAIS - publicado em Rua da Judiaria


.....Sobre Darfur, Samantha Power escreveu no início de Junho: “Cerca de 30 mil pessoas foram já assassinadas, e perto de milhão e meio foram vítimas de limpeza étnica, afastados das suas aldeias e terras de cultivo. Centenas de milhar foram encurraladas em campos de concentração, patrulhados por milícias janjaweed, apoiadas pelo governo, que violam mulheres e matam os homens que tentam sair em busca de comida para as suas famílias. Outros vagueiam pela região sem alimentos nem água. Entretanto, Khartoum tem bloqueado e manipulado a ajuda alimentar internacional.”


Sudão - Darfur Humanitarian Emergency

A poesia de Fernanda Barreto 





não é o mesmo mar.

ainda que sejam os mesmos
o azul, o verde
a espuma a borbulhar
eu sei que não podia caminhar
sobre ele
como quem acredita no destino.

não é o mesmo mar, nem é a mesma
aquela que caminha, devagar
ao encontro das ondas...

por muito azul que seja
ainda
este querer voltar.

Fernanda Barreto (inédito)






anhara no sul de Angola


o comboio crescia lentamente
pouca-terra, pouca-terra
cuspindo fogo na paisagem.

e a anhara acordava de mansinho:
mulher-menina na manhã tranquila
rasgava o ventre para acolher
a máquina de ferro


Fernanda Barreto (inédito)





segunda-feira, julho 26, 2004

UM HOMEM PARA RECORDAR VIVO 


Queríamos tanto que arriscámos. Um Mestre, recém-chegado de uma apoteose em Frankfurt, quanto pediria? E que tínhamos nós, tecnicamente falando, para lhe oferecer? Condições acústicas, só as que traíam quando os professores nos apanhavam, em flagrante, a sussurrar para o vizinho do lado “Qual é a fórmula que equilibra oferta e procura no mercado monetário?”.

Foi nessa mesma semana. Ainda a noite não tinha caído quando lhe abrimos o barracão esburacado, a que pomposamente chamávamos a “Sala Ribeiro dos Santos” – homenagem ao antigo aluno que a PIDE assassinara na escola. – Pousou a guitarra sobre uma das carteiras e aproximou-se da figura reproduzida na parede, em tons de vermelho e amarelo. Depois, virou-se para nós e assentiu com um gesto de cabeça – como se a força do seu virtuosismo precisasse de condições acústicas para nos entrar nos poros! – Sorrimos, aliviados, e convidámo-lo para jantar, ali mesmo no bar da cantina, no meio da habitual balbúrdia das fotocópias da secção desportiva e dos cartazes da última trica eleitoral. Bitoque com ovo a cavalo, prato único no inexistente menu, e uma imperial chegaram-lhe para nos ouvir, a nós que tantas palavras gastávamos para conseguir comunicar, quando a ele bastava ter nos dedos a alma!.
Fitei-o, para guardar aquele momento único de estarmos sentados à mesma mesa.

Após o café, já com a presença da mulher, então sim, pediu aos meninos que o deixassem sozinho e fechou-se com a Luísa na sala, para afinarem as duas horas do nosso deslumbramento.

Estávamos a meio da década de oitenta, a da minha descoberta deste continente outro. Por isso, ao espanto de o ver de novo pousar a guitarra, sem que as luzes se abrissem para intervalo, seguiu-se a maravilha de ouvir falar Carlos Paredes. Sem ninguém lhe ter perguntado fosse o que fosse, o Mestre vagueou por entre as carteiras apinhadas e apresentou-nos Barcelona, onde se cruzara com alguns dos melhores músicos de rua, no bairro antigo que tanto amava – escusado seria contá-lo, mas, claro que, nas férias seguintes, fui estoirar o smac* da víndima para as ramblas catalãs.

Estou a ouvi-lo, enquanto escrevo. Recomendo vivamente “Marionetas”, em dueto com Charlie Haden.


Isabella Oliveira

Lx, 04.07.23


* Salário mínimo da agricultura, em França.



sexta-feira, julho 23, 2004

Adeus Carlos Paredes 







quinta-feira, julho 22, 2004




no interior do círculo que em silêncio traçámos
entre nós e o mundo
mil pequenos espaços nos separam

que restará das palavras
quando o outono varrer em remoinho
as vestes que habitamos?


Fernanda Barreto (inédito)



quarta-feira, julho 21, 2004

CURVA

Antes não nos pesava
o passado, colhíamos os dias
ainda verdes, a frescura da sua polpa
na vontade dos nossos
dedos.

Depois vieram os sinais
dos primeiros cansaços sem remédio,
a noite fincou-se nas pedras,
fez-se de estorvos.

Aquilo que sobrou de ti
cabe-me nos bolsos
e é pouco para as minhas mãos.

Rui Pires Cabral
Geografia das Estações

terça-feira, julho 20, 2004

PEQUENA ELEGIA DE SETEMBRO

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade
Antologia Breve

sexta-feira, julho 16, 2004


estendo a mão branca sobre a água
antecipando
invisíveis sulcos na superfície lisa.

a tarde corre mansamente
como se todas as palavras tivessem sido ditas
e a eternidade envolve devagar
a nostalgia dos traços que componho.

falta sombra.
falta sombra no país onde tu moras.


Fernanda Barreto (inédito)

quinta-feira, julho 15, 2004

/149/

A poesia não é só o domínio da língua, até porque ela é indomável. Mas a ternura pelos fracos: as crianças, as mulheres (tão vulneráveis), os velhos já senis. E os pobres animais bravios. Às vezes acordo, às quatro da manhã, a pensar em pardais nos ramos, com o bico sob a asa, fustigados pela chuva, à espera de que o sol raie.
Quando o vento sopra em rajadas, como baterá o coraçãozinho deles? Já os tenho visto caídos, mortos.
Que estranho é o nosso coração: substituímos nele os animais e as pessoas que nos foram queridas como se todos tivessem tido a mesma importância, nenhuma.



Súbdito só de quem não reina,
aqui louvo os animais.
Há, entre mim e eles, uma funda
relação de videntes:
.......


Sebastião Alba
Albas





QUASE UM QUADRO






A negra que passa pela beira do mar
não olha a luz fria que tomba na água:
vai direita e grave.

Parece saída dum friso qualquer
de antigas ruínas duma antiguidade:
tão perfeita e calma.

O que vai sentindo, o que está a pensar
é a marca dum tempo que o seu rosto guarda:
sereno e suave.

Caminha indiferente sob a claridade
e o rasto que deixa
a espuma o apaga.


Glória de Sant'Anna


Ver obras de José Pádua,
autor do desenho,
no Círculo Artur Bual





terça-feira, julho 13, 2004




POEMA A UMA PETÚNIA LILÁS


Na tarde que persiste,
não és de todo morta ainda:
(na tua haste esguia
há uma lembrança ou sugestão de vida.)

Mas sei que estás dormida.
Que o vento corre agreste,
e sobre o chão te inclina
talvez não com rudeza verdadeira.

A terra é que te espera
(a terra densa e boa)
que espera a tua hora definida.

Quando a noite chegar
(e a lua, se houver lua)
talvez tua atitude permaneça
entre a verdade e a dúvida.

Mas sei que estás dormida.
Que o dizem tua cor e teu perfume.


Glória de Sant'Anna

segunda-feira, julho 12, 2004


equilíbrio em manhã azul




somos dois debruçados sobre a mesa.

dois nos sonhos transportados na bagagem
no equilíbrio inconstante do presente
na arquitectura instável dos silêncios:

manhãs azuis espreguiçando-se como gatos à janela
ou asas esquecidas......


Fernanda Barreto (inédito)


domingo, julho 11, 2004

......
«O futuro é o reino das bruxas - a elas deixo de boa vontade que divaguem sobre o que virá a ser a poesia portuguesa. A mim não me interessa. A poesia, como disse António Machado, é palavra no tempo. Cada poeta dá testemunho na terra, de coração aflito, do milagre de um único encontro: o encontro com o seu rosto. Um rosto feito de mil rostos, onde cada ser poderá reconhecer-se. Temporal por excelência, a palavra do poeta é uma palavra preocupada. Ele sabe que o seu trabalho é preservar, sem os corromper, uns sinais que, apesar de frágeis, têm a força prodigiosa de revelar o homem ao homem. Como continuar tão delicada e preciosa tarefa? Como erguer a voz sem que se torne eco de qualquer superstição? Cada poeta acabará por descobri-lo sozinho, com alegria e angústia, pois ninguém aqui o pode ajudar. Entre obediência e rebeldia, entre norma e transgressão, caminhará inseguro, sabendo que tudo lhe é permitido para aumentar a herança e tudo lhe é interdito para a dissipar.»
.......
..........


Eugénio de Andrade
in Rosto Precário

sexta-feira, julho 09, 2004


Solidão




PRINCÍPIO DO DIA

Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom dia
e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom dia.
Dizem-me bom dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar.)


Rui Knopfli

quarta-feira, julho 07, 2004

EVOCAÇÃO DO BRASIL (ANOS 70-90), Ana Hatherly 


VII


Mulheres:
Lúcia Helena é de canela e amena
Ivany fala de cinema
Aparecida é viva
(Si-nhô-ra-di-Apa-ri-ci-da, diz a cantiga!)

A empregada do hotel
é de Natal.
Diz assim:
No quarto dá Sinhôra
não tem bagunça não...

Outros nomes de mulheres:
Telénia
Nélida
Cleonice
Liba
Nadiá

Aqui as mulheres
são fruta
são sorvete
roupa fresca
mãe redonda

Oh mães
velai por mim:
sou orfâ de carinhos
Nossa Senhora da Conceição Aparecida


Ana Hatherly
Itinerários

ODE MARÍTIMA

.......

Ah! quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apoplética,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?

...........

Álvaro de Campos


segunda-feira, julho 05, 2004

OS TRABALHOS DA MÃO


Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Sempre trabalhou mais que sua irmã,
um pouco mimada, um pouco
preguiçosa, mais bonita.
A si coube sempre
a tarefa mais dura: semear, colher,
coser, esfregar. Mas também
acariciar, é certo. A exigência,
o rigor, acabaram por fatigá-la.
O fim não pode tardar: oxalá
tenha em conta a sua nobreza.

Eugénio de Andrade
Ofício de Paciência



«O poeta Eugénio de Andrade vai ser distinguido, em Agosto, com o prémio de poesia da revista literária de Cantão, "Poesia e Homem", que dedica o próximo número, integralmente, ao autor de "Afluentes do Silêncio". Esta é a primeira vez que na China continental uma revista publica uma antologia de um poeta português.» continuar a ler sobre Eugénio de Andrade.

229 

Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.


Fernando Pessoa
Livro do Desassossego



A propósito de Fernando Pessoa, há sítios que vale a pena visitar...

sábado, julho 03, 2004

Flor de Lótus 




Ouvindo Sophia

sexta-feira, julho 02, 2004

SOPHIA, UMA LUZ QUE HOJE SE EXTINGUE 

A muito amada por todos nós, morreu hoje.


As ondas quebraram uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen




Vem do "Oceanus Occidentalis" a imagem e do "À Sombra dos Palmares" o poema. Pelo meio, os parabéns ao "Ma-Schamba."Fazemos o mesmo caminho e unimos dois países num abraço.


Baldio




"O menino que eu fui debruça-se furtivo
de meus olhos sobre o recanto da paisagem.
Entre a dureza austera dos prédios
e o largo sorriso colorido das vidraças
aquele recanto que sobrou da paisagem
pertence intacto ao menino que eu fui outrora
e o menino que eu fui outrora desce
alvoraçado de meus olhos, desliza
entre o capim, atira pedras aos galagalas
e salta sobre as velhas folhas de zinco
apodrecido, num cenário querido de girassóis
antigos. Então parto dali
e o menino que fui regressa extenuado
e adormece na sombra de meus olhos."

Rui Knopfli, in À Sombra dos Palmares


quinta-feira, julho 01, 2004

A POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE 

ELOGIO DA NEVE


As primeiras palavras trazem ao espaço
da página a neve e o melro:
o melro azul
canta nos ramos da neve.
Talvez o tenha ouvido cantar
em sonhos, ou num poema qualquer,
mas ia jurar
que foi no castanheiro do quintal.
Não faz nenhum sentido,
mas às vezes o absurdo entra-nos
pela porta. O melro
cantava na neve - era verão.


Ofício de Paciência
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Ajudar a deter o descontrole das armas

Amnistia Internacional - vídeo

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