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quarta-feira, junho 16, 2004

Evocação de Aristídes Sousa Mendes - Cônsul português em Bordéus 

Estava um dia frio, ventoso. Caía uma chuva inconstante, forte por vezes, leve ou quase nenhuma, noutras alturas. Granizo por segundos.
A caminho de Dresden, cidade património mundial, antes incluída na República Democrática Alemã hoje fazendo parte da abastada Alemanha, desde a queda do muro de Berlim, deixam-se os olhos vaguear por toda aquela paisagem de extensões cultivadas e coloridas de vários tons, onde sobressaiem os amarelos vivos e os verdes viçosos, em áreas do tamanho de campos de futebol.
Praga ficára para trás. Era agora a Boémia, célebre pelos seus cristais e paisagens. Alguém observou: aproxima-se Terezin. De facto, uma placa indicava a localidade.
Terezin é nome que soa bem em português. Em idioma checo, Terezin está ligado a pesadas lembranças.
Anteriormente, alguém referira que naquele sítio, e na segunda guerra mundial, havia sido construído um campo de concentração nazi, não dos mais conhecidos, não dos mais macabros, não dos mais exterminadores. Seria aparentemente local de trânsito, da leva de pessoas destinadas a serem distribuídas por outros sítios, outros campos, outros destinos. Suficientemente mórbido para reter durante anos, e destruir também, pessoas perseguidas. Esperava-se qualquer coisa, menos o que de repente apareceu, quando alguém disse: é aqui. Os olhos começaram por ver um campo fortificado, amuralhado, cercado de muros intransponíveis, culminando a altura dos mesmos com elevações de terra e vegetação baixa. Todos os amuralhados e construções, a que não se podem chamar casas, nem armazéns, mas antes, gigantescos blocos com aspecto de fábricas, feitos de tijolo, de costas viradas para a via principal, com pequenas aberturas, semelhantes a janelas, melhor dizendo, à distância mais parecem buracos abertos nas paredes, sem vidros, todos estes amuralhados, são da cor vermelha do tijolo sem pintura que indica a pressa da edificação gigantesca. Pressente-se, mesmo de longe, que o importante ali foi esconder o que não se devia nem podia mostrar.
O conjunto é pesado, por causa da sua enormidade, da sua cor, do seu silêncio, dos seus ciprestes esguios, que conduzem à entrada, das suas campas, centenas, milhares, que são as plantas daquele jardim de infelicidade, na parte da frente do complexo.
Uma enorme cruz com uma coroa de espinhos suspensa, eleva-se no meio das pedras tumulares. Mais atrás, uma estrela de David, em tamanho grande, significa, como se fossem precisas mais indicações: também estivemos aqui, também morremos aqui.
Alguém do grupo se recusou a entrar no interior por impossibilidade de enfrentar as lembranças que ficaram desses tempos de holocausto.
O que se viu do exterior e à distância, foi suficiente para adivinhar todo o drama, sofrimento e crueldade que por ali passaram.
Não sendo um dos campos de concentração mais dramaticamente falados, é suficiente para mostrar o que não se devia repetir na História da humanidade.
De longe, imaginam-se as filas de pessoas entrando nos enormes portões, engolidos pelo sistema devorador. Pessoas, que não tendo conhecido o Cônsul Aristides Sousa Mendes, não conseguiram escapar, fugir, não puderam obter um dos vistos que lhes concedia a liberdade e possivelmente a vida. Ali mesmo, naquele local, Aristides de Sousa Mendes, foi recordado.
Evoca-se o Cônsul com gratidão, porque desta vez, estamos do lado de cá, fora dos muros intransponíveis, na margem dos homens de bem, dos salvadores, e é muito gratificante que assim seja. É impossível não sentir um certo orgulho por ser um dos nossos, este homem generoso. Mas fica-se com a incómoda sensação que nem sempre nos recordamos dele como devíamos, nem sempre reconhecemos o valor do diplomata que só nos honrou e representou com tanta dignidade, nem sempre sabemos interpretar o significado da sua actuação, o sacrifício pessoal a que se submeteu, afinal um extermínio também, e que nos deu o privilégio de pertencer a terras nossas.
Do lado de fora, perante as impenetráveis paredes das casernas vermelhas e dos ameaçadores muros prisão, podemos dizer que nunca ali estivemos como dominadores, mas que pelo contrário, o Cônsul de Portugal em Bordéus, permitiu que muitos milhares de refugiados se afastassem daquele holocausto. Um só que tivesse sido, e já seria motivo de gratidão. Bem haja, por ser o exemplo de quem ficou longe de Terezin e outros campos de extermínio, ou simplesmente de detenção, e pelo contrário, ajudou seres humanos, de todas as idades, credos e condição, a não ultrapassar a soleira dos grandes portões para o lado de dentro. Do exterior, Terezin é medonho. Um sítio de pesadelo, onde hoje se pode optar por entrar ou ficar do lado de fora. Dramaticamente abandonada, sem ter sido ainda restaurada, a casa do Cônsul Aristides de Sousa Mendes, vários anos após a reabilitação e reintegração no serviço diplomático e após vários reconhecimentos internacionais, é também, a seu modo, o testemunho vivo de tempos de intolerância e guerra.




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