Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

quarta-feira, junho 30, 2004

210


Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam....

Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?



Álvaro de Campos

sábado, junho 26, 2004

A POESIA DE RUI KNOPFLI 

O POMBO VERDE


Sombra tutelar da infância, à noite,
no quarto da Pensão Avenida, Rufiano
vela pelo meu sono até que o sono,
a si, lhe baixe as pálpebras. No corredor,
ao fundo, a voz imperiosa de dona Cidália,

curando da disciplina, ralha aos criados.
Mais tarde, atravessaríamos o Incomáti,
caçadeira 410 ao ombro, cartucheira
pendendo do cinto. Objectivo: o pombo
verde, ave caprichosa que, sem êxito,

teimaria perseguir. Andamos de mafurreira
em mafurreira, à sombra das largas copas.
Súbito, olho atento, Rufiano cicia.
Lá está ele, num galho alto, a camuflar
seu verde no vário verde da folhagem.

Disparo seco. Cai, perdida, uma rola,
mas o pombo verde levara sumiço.
Voou para longe, para bem longe
do meu alcance, fugindo da minha
infância, como esta fugia de mim.


Rui Knopfli

sexta-feira, junho 25, 2004

25 de JUNHO DE 1975 

Na tribuna, sucederam-se os aplausos. Depois o Presidente avançou para o microfone, cabia-lhe agora proclamar a Independência mas, por causa da chuva, a electricidade falha e não há som. Quando reaparece, o Presidente pergunta ao povo, "Estão-me a ouvir?", é arranjo de poucos segundos. Nova tentativa e o Presidente incita o estádio a acompanhá-lo numa canção revolucionária. Desta vez, o povo responde. Samora Machel repete as palavras com que, a 25 de Setembro de 1964, Eduardo Mondlane declarara o início da guerra de libertação e, a seguir, ouviram-se as palavras mágicas: Moçambicanos, moçambicanas, em vosso nome, às zero horas de hoje, 25 de Junho de 1975, o Comité Central da FRELIMO proclama solenemente a Independência total e completa de Moçambique e a sua constituição em República Popular de Moçambique! – espanta-me descobrir como, ainda hoje, me comovo ao escrever estas palavras, em plena costa oeste da Irlanda e vinte e quatro longos anos depois!



Isabella Oliveira
in "M&U, companhia ilimitada"


quarta-feira, junho 23, 2004

MOTIVO


Tudo o que vês
não é nada:
ou uma nuvem
ou uma palavra.

Tudo o que ouves
nada mais é:
o vento é lesto
e corre breve.

O que não vês
nem sabes mesmo
é que importava
se houvesse tempo.


Glória de Sant'Anna - Amaranto

EM ZELAZOWA WOLA 

No jardim da casa
onde nasceu Chopin
através das cortinas que esvoaçam
pelas janelas térreas
escutamos:

É um recital
que um pianista invisível
toca para nós
como se fosse ele.

Realmente
a ilusão é perfeita
e enquanto fascinados
escutamos
essa música gentil
que a natureza à nossa volta
explica
escutamos também
num contraponto raro
o canto dos pássaros
que a sublinha.

Dentro
nos retratos de família
Chopin olha-nos de frente
mas timidamente
sem o perfil dramático
de Delacroix.

O quarto onde nasceu
está vazio:
à entrada
colocaram
uma enorme jarra com flores.

Saindo
procuramos fazer
o menos ruído possível.

Ana Hatherly - Itinerários





Frederic Chopin 1810 - 1849


terça-feira, junho 22, 2004

AFIRMAÇÃO


A essência das coisas é senti-las
tão densas e tão claras,
que não possam conter-se por completo
nas palavras.

A essência das coisas é nutri-las
tão de alegria e mágoa,
que o silêncio se ajuste à sua forma
sem mais nada.

Glória de Sant'Anna






Silêncio

para ver mais.....

segunda-feira, junho 21, 2004

O FIO DA VIDA


Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obsessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não crêem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.
Galeria de Arte


Rui Knopfli


sexta-feira, junho 18, 2004

ESTOU SÓ


Estou só
mas viajo no pensamento.

E à minha cabeceira
a voz que escuto
é Fernando Pessoa que responde.

José Craveirinha
Poemas da Prisão

quinta-feira, junho 17, 2004



Aristides de Sousa Mendes

O CÔNSUL INJUSTIÇADO - Instituto de Inovação Educacional



Resposta à Nota de Culpa

Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente cuja aflição era indescritível. [...] Não podia eu fazer diferença (...) visto obedecer a razões de humanidade que não distinguem raças, nem nacionalidades. [...]

Posso ter errado. Mas, se errei, não o fiz com intenção, tendo procedido sempre segundo os ditames da minha consciência que (...) nunca deixou de me guiar no cumprimento dos meus deveres, com pleno conhecimento das minhas responsabilidades.

Aristidesde Sousa Mendes

quarta-feira, junho 16, 2004

Evocação de Aristídes Sousa Mendes - Cônsul português em Bordéus 

Estava um dia frio, ventoso. Caía uma chuva inconstante, forte por vezes, leve ou quase nenhuma, noutras alturas. Granizo por segundos.
A caminho de Dresden, cidade património mundial, antes incluída na República Democrática Alemã hoje fazendo parte da abastada Alemanha, desde a queda do muro de Berlim, deixam-se os olhos vaguear por toda aquela paisagem de extensões cultivadas e coloridas de vários tons, onde sobressaiem os amarelos vivos e os verdes viçosos, em áreas do tamanho de campos de futebol.
Praga ficára para trás. Era agora a Boémia, célebre pelos seus cristais e paisagens. Alguém observou: aproxima-se Terezin. De facto, uma placa indicava a localidade.
Terezin é nome que soa bem em português. Em idioma checo, Terezin está ligado a pesadas lembranças.
Anteriormente, alguém referira que naquele sítio, e na segunda guerra mundial, havia sido construído um campo de concentração nazi, não dos mais conhecidos, não dos mais macabros, não dos mais exterminadores. Seria aparentemente local de trânsito, da leva de pessoas destinadas a serem distribuídas por outros sítios, outros campos, outros destinos. Suficientemente mórbido para reter durante anos, e destruir também, pessoas perseguidas. Esperava-se qualquer coisa, menos o que de repente apareceu, quando alguém disse: é aqui. Os olhos começaram por ver um campo fortificado, amuralhado, cercado de muros intransponíveis, culminando a altura dos mesmos com elevações de terra e vegetação baixa. Todos os amuralhados e construções, a que não se podem chamar casas, nem armazéns, mas antes, gigantescos blocos com aspecto de fábricas, feitos de tijolo, de costas viradas para a via principal, com pequenas aberturas, semelhantes a janelas, melhor dizendo, à distância mais parecem buracos abertos nas paredes, sem vidros, todos estes amuralhados, são da cor vermelha do tijolo sem pintura que indica a pressa da edificação gigantesca. Pressente-se, mesmo de longe, que o importante ali foi esconder o que não se devia nem podia mostrar.
O conjunto é pesado, por causa da sua enormidade, da sua cor, do seu silêncio, dos seus ciprestes esguios, que conduzem à entrada, das suas campas, centenas, milhares, que são as plantas daquele jardim de infelicidade, na parte da frente do complexo.
Uma enorme cruz com uma coroa de espinhos suspensa, eleva-se no meio das pedras tumulares. Mais atrás, uma estrela de David, em tamanho grande, significa, como se fossem precisas mais indicações: também estivemos aqui, também morremos aqui.
Alguém do grupo se recusou a entrar no interior por impossibilidade de enfrentar as lembranças que ficaram desses tempos de holocausto.
O que se viu do exterior e à distância, foi suficiente para adivinhar todo o drama, sofrimento e crueldade que por ali passaram.
Não sendo um dos campos de concentração mais dramaticamente falados, é suficiente para mostrar o que não se devia repetir na História da humanidade.
De longe, imaginam-se as filas de pessoas entrando nos enormes portões, engolidos pelo sistema devorador. Pessoas, que não tendo conhecido o Cônsul Aristides Sousa Mendes, não conseguiram escapar, fugir, não puderam obter um dos vistos que lhes concedia a liberdade e possivelmente a vida. Ali mesmo, naquele local, Aristides de Sousa Mendes, foi recordado.
Evoca-se o Cônsul com gratidão, porque desta vez, estamos do lado de cá, fora dos muros intransponíveis, na margem dos homens de bem, dos salvadores, e é muito gratificante que assim seja. É impossível não sentir um certo orgulho por ser um dos nossos, este homem generoso. Mas fica-se com a incómoda sensação que nem sempre nos recordamos dele como devíamos, nem sempre reconhecemos o valor do diplomata que só nos honrou e representou com tanta dignidade, nem sempre sabemos interpretar o significado da sua actuação, o sacrifício pessoal a que se submeteu, afinal um extermínio também, e que nos deu o privilégio de pertencer a terras nossas.
Do lado de fora, perante as impenetráveis paredes das casernas vermelhas e dos ameaçadores muros prisão, podemos dizer que nunca ali estivemos como dominadores, mas que pelo contrário, o Cônsul de Portugal em Bordéus, permitiu que muitos milhares de refugiados se afastassem daquele holocausto. Um só que tivesse sido, e já seria motivo de gratidão. Bem haja, por ser o exemplo de quem ficou longe de Terezin e outros campos de extermínio, ou simplesmente de detenção, e pelo contrário, ajudou seres humanos, de todas as idades, credos e condição, a não ultrapassar a soleira dos grandes portões para o lado de dentro. Do exterior, Terezin é medonho. Um sítio de pesadelo, onde hoje se pode optar por entrar ou ficar do lado de fora. Dramaticamente abandonada, sem ter sido ainda restaurada, a casa do Cônsul Aristides de Sousa Mendes, vários anos após a reabilitação e reintegração no serviço diplomático e após vários reconhecimentos internacionais, é também, a seu modo, o testemunho vivo de tempos de intolerância e guerra.




terça-feira, junho 15, 2004

NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA 


Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário...
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece -
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora...E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo -
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!.......


Álvaro de Campos
1/5/1928

domingo, junho 13, 2004

Evocando Fernando Pessoa, nascido a 13 de Junho de 1888




Há tantos deuses!
São como os livros - não se pode ler tudo, nunca se sabe nada.
Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo.
Tenho todos os dias crenças diferentes -
Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes -
E gostava de ser a criança que me atravessa agora
A visão da janela abaixo -
Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem final,
Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados
E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista...
Sim, há muitos deuses...
Mas eu dava tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui pra fora...


Álvaro de Campos
09/03/1930

sexta-feira, junho 11, 2004

À SOMBRA DOS JACARANDÁS

Porque estou assim
tão melancólica
quando as jacarandás
derramam seu lilás
pelas ruas onde eu caminho
tão de azul
tão cheias de olhos para tudo?

O chão é duro
ó corolas!

O basalto das funduras
atormenta-nos os passos.

Ana Harherly
Itinerários

quarta-feira, junho 09, 2004

SE TODO O SER

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus, em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma beberá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, junho 06, 2004

SOBREVIVÊNCIA

Na janela do consultório há um cisne
cor do sol-nascente.
Não é um cisne real,
é um cisne que eu imagino
num rio que corre junto à encosta de um vale.
O rio nasce na memória
e arrasta consigo doloridos musgos de lembrança.
O cisne bóia e permanece
cortado na vidraça, com ar solene
a ver passar pedaços de recordações,
a ver fluir um rio sem margens.
As recordações vão diluir-se no longe,
o próprio rio secará no tempo,
mortas serão as esbatidas palavras à estiagem dos anos.
Haverá terra nos meus olhos
e silêncio em meus lábios apodrecidos.
O cisne há-de ficar, todavia,
imóvel e rubro,
direito no seu perfil,
coração sangrando,
retrato dos meus dias.

Rui Knopfli



terça-feira, junho 01, 2004

POEMA

O lar
não se restringe ao sítio onde moramos.
Pode-se residir numa casa
e não ter amor ao lugar.

O lar
é mais do que as paredes
o lustre no tecto e um soalho.

O lar é o pai
a mãe e os filhos juntos
bebendo da mesma água
repartindo o mesmo pão.

Casa pode ser palácio
mas dez tábuas e seis zincos
é a arquitectura metamorfose
de barraca símbolo de lar.

O lar e a dor
são duas palavras que num sopro
qualquer pode pronunciar
mas na gramática da vida
as duas sílabas tão fáceis
são cosmos para soletrar.

José Craveirinha
Poemas da Prisão

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