Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

segunda-feira, maio 31, 2004


Cravos dos Poetas (Dianthus Barbatus)

TEORIA DO VERSO

De rojo não há poesia;
não há verso
por mais rasteiro
que não aspire ao alto: estrela
ou farol iluminando o ser
da palavra.
Assim o sapo:
no vagaroso e inocente
e desmedido olhar do sapo
as águas são de vidro.

Eugénio de Andrade
Ofício de Paciência

domingo, maio 30, 2004


Galeria de Quadros

Aquelas mulheres do Huambo
ensinaram-me os segredos
do licor de pitanga, dos bilros,
da poesia e do pão.
Elas continuaram ao meu lado
quando fui mãe
- folhos de ternura no teu berço
lâs macias, cantigas antigas.

No vosso regaço para sempre
a minha dor.
Mulheres do Huambo.


Maria Alexandre Dáskalos
Lágrimas e Laranjas

sexta-feira, maio 28, 2004

28 de Maio - DIA DE JOSÉ CRAVEIRINHA

Completaria hoje 82 anos o poeta José Craveirinha. Este é mês de poetas. Também Glória de Sant'Anna comemorou o seu aniversário a 26 de Maio.
Seguindo o fio de seda que nos legam e que conduz ao longínquo mundo das recordações, deixamos a nossa homenagem, com medo de quebrar o sortilégio com palavras pouco hábeis.

PERGUNTA A ERNEST HEMINGWAY


Por quem os sinos dobram
por quem dobram os sinos, Ernest?
Pelas asas de anjo coladas
a fita gomada nas costas dos meninos
alguns na comunhão
ou pela estátua da liberdade em Nova York?
Por quem os sinos dobram
por quem dobram os sinos, Ernest?
Pelos berros de mil quilos
enlouquecidos coitadinhos
das super-avezinhas de arribação B-52
ou pelos arrozais sazonados
a sol de obuses no delta do Mecong?
Por quem dobram os sinos
por quem os sinos dobram, Ernest?
Pelos "play-boys" helicopterizados
entre céu e terra de Saigão
pelos pântanos que se menstruam de
afogados
ou pelas crianças camufladas de mortos
napalmizados no chão do Vietname?
Por quem dobram os sinos
por quem os sinos dobram, Ernest?
Pela mãe americana que não viu o filho
crivado numa emboscada vietcongue
ou pelo filho vietnamita que viu a mãe
ir aos céus de Buda numa granada "yankee"?
Ernest Hemingway:
Por quem os sinos dobram
por quem dobram os sinos?
Dobram pelo pai e pela mãe
dobram pelos filhos e pelos irmãos
dobram pelos netos e pelos avós
dobram pelas algemas nos pulsos
dobram pelas úlceras de medo
e na incógnita das megatoneladas
libertas a protão
dobram
ou não dobram a finados pela humanidade?

José Craveirinha
Poemas da Prisão


quarta-feira, maio 26, 2004

A HOMENAGEM AOS POETAS NUM DIA ESPECIAL

PARA RIR COM OLHOS TRISTES


Estão sentados
com olhos claros
e frente a frente
mostrando através dos lábios
e de súbito
agudas pontas de alfinetes

Tombam as palavras
em branda frase
fluentes
e entre cada
tão súbtil ao pensamento
gumes de espada

E mãos paradas
ou antes
pegando gráceis
no cristal frágil tonalizado
pelo vinho puro
ainda marcado do sol nas
folhas da ingénua vide

E olhando em volta
(perfis e faces e frontes altas
sorrisos ágeis, pupilas frias)
não volto as costas
à hora exígua

só me pergunto que faço aqui
Galeria de Arte
Glória de Sant'Anna
Desde que o Mundo e 32 Poemas de Intervalo (1972)


ALAMEDA VIGIADA


Quem me dera ser plâncton.
Ou ser como certas plantas,
permanecer indiferente
aos ventos
e aos sóis,
fazendo, sem os perigos do raciocínio,
a minha diária fotossíntese,
de que ignoraria o sabor.
Ou ser como as amibas
que se adaptam
e se desdobram, em sucessivas
mitoses,
em centenas de outas amibas
onde eu estaria autêntico,
ou não estaria autêntico.
Quem me dera passar desentendido
e não ser entendido,
átomo minusculo na poeira eléctrica
da manhã,
ausente, bem ausente
deste coração
e desta carne
na sombra vigiada da alameda.

Rui Knopfli
Motivações


FÁBULA

Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.

José Craveirinha
Karingana Ua Karingana



SÁBADOS ADIADOS

Orações de rosa
rezas de cravos
e também salmos de gladíolos.
Somos o que somos e não insinceros
mesmo envoltos no aroma
de antúrios murchos.

Minhas
sabatinas dádivas de flores
exortam a insolidão das jarras
mas se está a chover
cauteloso velho cão de papel
adio para bom tempo
nosso encontro de saudades
e deixo-te à chuva.
e minha sincera saudade
levanta a gola do blusão
e como um cão sarnento
abandono-te à chuva.

José Craveirinha
Maria

terça-feira, maio 25, 2004

POESIA DE EUGÉNIO DE ANDRADE

XXXI - ESPERA

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


XXXIV


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos como animais envelhecidos;
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos:
como frutos de sombra sem sabor
vamos caindo ao chão aprodecidos.



As Mãos e os Frutos

segunda-feira, maio 24, 2004

POESIA DE GLÓRIA DE SANT'ANNA

NOCTURNO

Dentro dos finos dedos das árvores quietas
a noite dorme um longo sono transparente

junto das tépidas aves de olhos ausentes
da clara madrugada que ainda não surgiu.

O esparso e denso azul silêncio ressente-se
e simula agitar-se a uma brisa ténue que não existe,

(e contornaria os muros pálidos e inertes
sem tocar o secreto e desconhecido íntimo das pedras).

Tudo se contém no contorno fixo do seu limite.

Só o mar se desdobra e reflecte inquietamente
a vigília inútil e cansada das estrelas.


Um Denso Azul Silêncio (1965)



sexta-feira, maio 21, 2004

O BULE E O BLUE


Seu
bule na mão
encho a chávena de chá.

Provo um gole.
Ergo-me quase ao tecto
um doirado anjo em ritmo blue
a teclar piano num arco-íris do Céu.

Oh! Bessie smith, oh! Bessie Smith!

Era aquele o bule
do chá que a Maria tomava.

Oh! Ponho-me blue na voz
de Bessie Smith, oh! ponho-me blue
na voz de Bessie Smith!

Fulgentes asas de andorinhas batem palmas
oh! Batem palmas os blues das andorinhas...

Oh! Bessie Smith, oh! Bessie Smith!

Sou um anjo doirado bamboleando blue
blue
blue
Oh! Bessie Smith, oh! Bessie Smith!

Era aquele o bule
do chá que a Maria tomava
como quem escuta um blue.
Bessie Smith

Mais um gole ó Zé mais um gole de chá
mais um gole para seres um anjo blue bamboleando
nas teclas do piano de arco-íris no palco do Céu
lá onde Maria vive o Éden merecido.

Oh! Bessie Smith!
Oh! Bessie Smith!

O mundo está blue
blue
blue!

José Craveirinha
Maria


PASSOS PERDIDOS
(carta para quaisquer snrs. deputados)



Em Díli, num café, tantos de tal...

Venho aqui dizer
antes que seja tarde.
Disto sabem tudo
os metropolitas.
Ocultam-no - também cá se sabe.

Timor pertence aos Timorenses,
tão portugueses
por causa dos padres
não necessariamente,
mas padres-pais, ou lá o que são ou não.

Paternidade
não é devoção.
Eu trato os Timorenses como amigo
...irmãos
que me necessitam.

Cantigas!...
Não vale a pena sermos portugueses
filhos de padrasto
que justifica actos compulsivos
com pena jurídica,
et-caetera e pau.

Ora digam, digam...
de quem o interesse?
Da Terra, da Gente,
ou de quem resolve?

O resto está dito.
Os Timorenses valem por Timor
que nos diviniza!
Que desmerecemos - sim-não! -
e Deus me salve!

a bem da Nação.

Àquele passeio, algures, na cidade de S. Bento.

Ruy Cinatti
Paisagens Timorenses
com vultos

quinta-feira, maio 20, 2004

QUANDO O N'PURE CHEGA
É madrugada e o n'pure voltou e canta
para o vermelho-laranja do horizonte
e o silêncio em volta dos telhados
é longo e doce

Uma linha de fumo branco sobe
da fogueira do guarda envolto na capulana escura
e a folhagem parada freme de súbito
ao grito do n'pure

Em redor dos troncos tombaram
as primeiras-tímidas flores da acácia rubra
durante a noite (penso)
ou soltas pelas asas leves do n'pure

Glória de Sant'Anna

quarta-feira, maio 19, 2004

EU E O CAFÉ FRIO

Com mais ninguém repartimos sentimentos.
Só juntos nas cacimbentas manhãs de Julho
solidários vamo-nos ingerindo
eu e um melancólico
café frio.

José Craveirinha
Maria

segunda-feira, maio 17, 2004

Pensando no Poeta EUGÉNIO DE ANDRADE.....


NÃO SEI

Não sei porque diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fia.
É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão do esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal.

Eugénio de Andrade



domingo, maio 16, 2004

Do Diário de Miguel Torga

Coimbra, 24 de Outubro de 1960 - Quando o homem sublima as coisas, nascem os deuses pagãos; quando sublima o semelhante, nasce Cristo; quando se sublima a si próprio, nasce o tirano. Mas este pode também ser gerado por auto-aniquilamento colectivo. Nesse caso, não é o super-homem que se afirma: são os infra-homens que o afirmam.

Foz Côa, 1 de Novembro de 1960 - O homem tem a largueza dos horizontes que lhe cabem nos olhos. Nos verdadeiros e nos da imaginação.

sexta-feira, maio 14, 2004

A MORINGA

Gorda, bojuda, de alongado pescoço
liso, macio veludo, recordo-a
cor de cobre emaciado, no extremo
mais recuado da vasta varanda colonial,
emblema da meninice emblemática.


Água puríssima, lavada no sábio
filtro poroso que preserva o sabor a barro,
matando a primeira de todas as sedes,
a que prenuncia, talvez, as outras
para que nunca haverá remédio.

Rui Knopfli


Galeria de Arte


O MORINGUE


O sol que queima as folhas das palmeiras
E os pés caminhantes sobre a areia
O sol que traz o vento e afasta o peixe
Ele não esquentará a água do moringue.
Não há sol no canto desta casa
Há sombras dos luandos que fazem as paredes
A areia do chão traz a frescura da terra
Os caniços do luando têm a frescura
Que trouxeram das terras de Cabíri
Quando, de andar nas canoas, voltamos do mar
E a garganta vem a arder como se era sal
A água do moringue sabe-nos como nada mais.
E, a quem nos pede, com o coração alegre,
Nós a oferecemos, nas canecas de esmalte.

Herrique Guerra


quarta-feira, maio 12, 2004

O SORRISO

Creio que foi o sorriso
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

HOROSCÓPIO


Conjugaram-se mal os astros da fortuna,
O nome rico da fatalidade.
E com eles desavindos
Na consciência,
Quem pode ser feliz?
Quem vai alegre e chega ao fim sereno?
Tolhido de antemão,
O coração
Em todos os tamanhos é pequeno.

Ditosos
Os que não sabem
De harmonias celestes
Reflectidas na terra.
Que nascem como os dias,
E, como eles, decorrem
Naturalmente.
E que à tardinha morrem
Sem negruras de angústia no poente,

Miguel Torga
Gismonda/Alphonse Maria Mucha

Art Gallery & Critic's Corner

domingo, maio 09, 2004


ARS POÉTICA 63



Como fazer versos?
Sentar
numa cadeira à secretária,
papel à frente, caneta em punho.
Esperar. Esperar em vão. Esperar.
Esperar mais ainda. Esperar sempre.
Se é fumador, fumar então
antes, depois ou no decurso.
Se não, continuar a esperar.
Se ao fim de um certo tempo
o dito tempo exceder o tempo
que se achou ser justo esperar,
desistir. Para voltar em novas
arremetidas desesperadas e inúteis,
em dias alternados ou consecutivos.
Em dada altura, vai-se de avião,
e ela chega como no expresso
do Poeta de S. Martinho da Anta,
mais pobre, menos ritmada talvez
(não admira, vai-se de avião!),
mas vem, contudo, e é o que importa.
Pode começar por uma palavra bonita,
coisa rara e difícil. E arriscada:
nunca se sabe o que virá depois
que pode ser bem pior e fracassar.
Há quem comece com irmãos,
o que tem vantagens inúmeras,
desde as garantias de escolas às conveniências
e conivências do correligionarismo fiel
que assegura um público bastante certo,
embora pouco amante da poesia
e, de ordinário, pouco esperto.
Desvantagens:
traz grandes dores de cabeça e pesadas
responsabilidades para com a humanidade
inteira e o Homem com H maiúsculo,
tarefa sempre ingente para quem começa.
O melhor ainda, o mais velhinho
e garantido é começar pela palavra
eu. Será umbilicalista, egoísta,
eu sei cá, mas é pequenina e humilde
e não diz mais do que diz, não tem
mais responsabilidades do que as que convém
seu minúsculo e modesto universo. Será
pouco, mas é um mundo. Para quê
querer incendiar os astros se, dentro de nós,
ainda não acendemos todas as luzes?

Rui Knopfli

sexta-feira, maio 07, 2004

SÃO COISAS ASSIM



São coisas assim que tornam o coração
vulnerável: o regresso
das cegonhas brancas,
o comboiinho do ramal de Ceira
que parece de corda, as oito linhas
da Canção Nocturna do Viandante
que Schubert musicou.
Quem dividiu comigo a alegria
merecia ao menos
que o trouxesse à orvalhada
e limpa terra do poema. Mas também
o poeta escreve direito por linhas
tortas: a poesia é a ficção
da verdade. Não será
a curva apetecida do teu peito
mas os lémures de Madagáscar,
que só vi num filme francês,
o que verdadeiramente queria
hoje trazer ao poema.

Eugénio de Andrade



NÃO TE ESQUEÇAS NUNCA


Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina
O pinhal a coluna a veemência divina
O templo e teatro o rolar de uma pinha
O ar cheirava a mel a pedra a resina
Na estátua morava tua nudez marinha
Sob o sol azul e a veemência divina

Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima
O horror o terror a suprema ignomínia

Sophia de Mello Breyner Andresen

KLIMT

para ver o WEBMUSEAUM-Paris

quinta-feira, maio 06, 2004



AUTOBIOGRAFIA



Não existe mais
a casa onde nasci
nem meu Pai
nem a mulembeira
da primeira sombra.

Não existe o pátio
o forno a lenha
nem os vasos e a casota do leão.

Nada existe
nem sequer ruínas
entulho de adobes e telhas
calcinadas.

Alguém varreu o fogo
a minha infância
e na fogueira arderam todos os ancestres.


Costa Andrade

quarta-feira, maio 05, 2004

OS POEMAS


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mário Quintana


para saber mais....

segunda-feira, maio 03, 2004


Michelangelo Buonarroti (1475-1564) - PIETA


CORREIO

Carta de minha Mãe.
Quando já nenhum Proust sabe mais enredos,
A sua letra vem
A tremer-lhe nos dedos.

- «Filho»...
E o que a seguir se lê
É de uma tal pureza e de um tal brilho,
Que até da minha escuridão se vê.

Miguel Torga

domingo, maio 02, 2004



mãe e filho



Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti - não me reespondes.
Beijo-te as mãos e o rosto - sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga

sábado, maio 01, 2004



MAIO MADURO MAIO


Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Mimosas

Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu


Zeca Afonso






O OPERÁRIO EM CONSTRUCÇÃO   


E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário

Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


Vinicius de Moraes



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