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terça-feira, abril 06, 2004

A propósito de Cahora-Bassa


CAHORA BASSA - Moçambique

O ELEFANTE BRANCO


Em 1956, cerca de vinte anos antes da independência, a região de Cahora Bassa, em Moçambique, foi visitada, com objectivos bem determinados, por técnicos portugueses. Foi um dos primeiros passos, de um longo e complexo processo, conducente à construção da barragem de Cahora Bassa, que se concluiu no fim do ano de 1974. Em 25 de Junho de 1975, a colónia de Moçambique, declarou a sua independência, após negociações entre os dois países. Já em 1950 tinha surgido a ideia de aproveitar os 830 quilómetros que o rio Zambeze percorre naquele país, com o objectivo de impulsionar os recursos do vale do grande rio, com especial predominância para os recursos agrários e minerais, além das importantes implicações políticas daí inerentes.
Existiam naquela zona, rápidos, que não permitiram a navegação e consequente exploração do vale do rio Zambeze, o indomável, na época em que os exploradores portugueses se entranhavam por terras desconhecidas, sensivelmente em meados do século XVII. Esses mesmos rápidos, outrora obstáculos, vieram permitir a execução de uma magnífica obra, com múltiplos aproveitamentos e a quem o primeiro presidente de Moçambique chamou «o nosso elefante branco».
Em 23 de Junho de 1975, foi criada uma sociedade anónima, em que o Estado Português e várias instituições de crédito nacionais, participaram com 81,66% do capital social e a parte moçambicana com 18,34% do mesmo.
Seguiram-se tempos de guerra civil e regional e a destruição dos postes de alta tensão que conduziriam a energia para os países vizinhos. Foram anos de estagnação, em que a central se manteve a funcionar a um nível minímo de manutenção.
Muitos anos depois da primeiro pensamento sobre este enorme empreendimento, existe uma cidade estaleiro, onde vivem os que mantêm a obra, incluindo muitos portugueses e respectivas famílias. Uma agradável e pequena cidade situada num planalto a 1200 metros de altitude denominada Songo.
Páginas e páginas se escreveram e hão-de escrever sobre esta região e sobre o empreendimento, mas até as grandes obras de engenharia se deixam ver pelo lado humano e não recorrendo só a números, projectos e cálculos.
Logo na primeira visita a Cahora Bassa, a barragem deslumbrou-me, não pelas explicações técnicas, que eram normalmente fornecidas aos visitantes, mas pela atmosfera, quase de ficção científica em que se mergulhava, desde a entrada no elevador que baixava pela terra e nos deixava num tunel comprido e de grandes dimensões, em tons de amarelo, encurvado, completamente desnudado mas com luz suficiente, fazendo lembrar as mangas de acesso das naves espaciais. E de súbito, surgia um enorme vidro, um varandim, e lá em baixo, o deslumbramento de uma caverna escavada na rocha, como se fosse uma catedral, sem dimensão imediata possível, luz artificial, máquinas, homens e rocha bruta. Entre a beleza e a grandiosidade, os olhos tentavam abarcar tudo para não perder a imagem de qualquer coisa que se pensava não se voltaria a ver, nunca mais. Poucas coisas me deslumbraram asim, ao primeiro contacto, e de imediato.
Levaram-nos depois à caverna escavada na rocha que já vira de um plano superior, onde, tal como nos filmes de ficção científica, se fica à espera do que pode acontecer a seguir, com um certo temor, tal a sensação de enormidade, mistério e criatividade artistica e técnica.
Dominando o centro da gruta, de mais de duzentos metros de comprimento, viam-se grandes objectos circulares, cinco ao todo e que nos disseram ser, os grupos geradores. As paredes laterais, até certo ponto, eram forradas de aparelhos, mostradores, botões, instrumentos. Dali para cima, rocha bruta iluminada a luz artificial, e os olhos continuavam até à abóbada a cerca de sessenta metros de altura e ficavam demorados na grandiosidade do trabalho ali feito. Dos lados, bocarras enormes e escuras, de túneis, esperando não se sabe o quê. Do futuro, talvez. Dez quilómetros de túneis dizem.
Penso não errar, se disser que a albufeira, é um dos maiores lagos artificiais de África e do mundo, com os seus quase 280 quilómetros de comprimento e largura máxima de 30 quilómetros. É inevitável o recurso aos números. As palavras são algumas vezes insuficientes, para, só por si, mostrarem a grandiosidade do que se pretende explicar.
Anos depois, voltando a Cahora Bassa e novamente de visita à gruta gigantesca, lá encontrei os túneis de acesso monstruosos, onde carros e camiões circulam como se em estradas estivessem, a potente descarga de água ribombando como mil trovões, onde os arco-iris são lugar comum, onde mais uma vez pensei, que o que ali estava, não era só obra de engenharia, mas muito mais: uma das maravilhas do mundo. Sempre me pareceu uma obra de arte, grande demais, é verdade, mas mesmo assim, uma maravilha de grande beleza e imponência.
Há um ambiente em toda aquela região que não se encontra em qualquer sítio. Uma transparência colorida. É como se magias estranhas se escondessem em toda a parte e a todo o momento nos surpreendessem com pormenores de deslumbramento. As árvores, os enormes imbomdeiros, as pedras, as plantas, os pássaros, as pessoas, os montes, a água, a cor de tudo isto, só existe ali. Montes azulados, árvores verdes ao lado de árvores amarelas ou castanhas, pedras de todos os feitios, céu pincelado de vários tons, esquilos atravessando a estrada de acesso à albufeira e á central, cobras invisíveis, animais que nunca se veêm, mas que estão lá, em Cahora Bassa, no maior empreendimento português no exterior do país.
Uma pergunta: será certo que desde o ano de 1956 se tem falado muito pouco de Cahora Bassa, o maior empreendimento português no estrangeiro e agora vai passar a falar-se mais?
Outra pergunta: que sabemos nós, pessoas deste país, deste «maior empreendimento de Portugal no exterior»?
Já são muitas perguntas, para quem só tem Cahora Bassa como um magnífico e raro elefante branco, uma obra de arte, que não cabe num punhado de palavras alinhadas num texto.



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