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segunda-feira, março 29, 2004



Johannesburg

À PARIS


O meu Paris é Johannesburg,
um Paris certamente menos luz,
mais barato e provinciano.
Mas Johannesburg lembra-me o Paris
que não conheço: o mesmo movimento
endemoninhado, as luvas brancas
do policia sinaleiro, o brilho das montras,
a cor da moda, os mesmos amorosos
que se beijam sem pudor nos bancos
das áleas ensolaradas, o Sena
que não há e a Torre Eiffel
que também não. Aqui compro
o meu livrinho proibido e vejo
o último Antonioni, aqui sou
bem o estrangeiro cobiçoso de espanto.
À noite janto no Monparnasse
de Hilbrow, que é o Quartier Latin
do sítio e olho essas mulheres
excêntricas e belíssimas
de pullover e slacks helanca
e esses beatniks barbudos
excêntricos e feiíssimos,
tudo com o ar sincero
mas pouco convincente do made in USA.
Olho também esses efebos de pálpebras
cendradas, com os ademanes e o ar triste
de quem vive na perplexidade dos sexos.
Depois do turkish coffee meto-me
até ao Cul de Sac e fico-me
a ouvir o sax maravilhado
de Kippie Moeketsi. O jazz, sim,
é genuíno e tem um bite
todo local. O néon e a madrugada
silenciosa, o asfalto molhado,
a luz da aurora e a luz dos reclamos
misturando-se, a minha solidão,
aconteceriam assim em Paris.
Aqui ninguém sabe quem sou,
aqui a minha importância é zero.
Em Paris também.


Rui Knopfli
Máquina de Areia

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