Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

domingo, março 21, 2004







frangipani

21 DE MARÇO DE 2004, DIA INTERNACIONAL DA POESIA
No dia 20 de Março, Mia Couto lançou o seu novo livro na ACERT.

A MENINA DO RETRATO

Recordo-te no velho retrato da infância,
o cabelinho curto,
o olhar triste,
o sorriso terno.
Recordo, mais tarde,
tuas mãos de inocência
adormecidas sobre os meus cabelos
e teus lábios de ingénua frescura,
pousando na minha fronte
o beijo apetecido.
Sei hoje que escondeste bem no fundo
dentro de ti
a menina do retrato
e os gestos que sabias.
Sei também que nossas vidas
agora correm
como duas rectas paralelas,
que nunca se encontram.
E que os geómetros digam
que no infinito elas se tocam,
não é para mim consolação:
Não chego ao infinito.
Fiquemos então assim:
Eu o cavalo melancólico
ruminando mágoas e silêncios
num gasto panorama bucólico
e tu sorrindo, sorrindo em sociedade,
mas, dentro de ti,
habitando inteira,
a menina do retrato.

Rui Knopfli
Álbum








O AMOR CONFUSO


Certo de que voltas, canção,
a incerta hora,
espero como quem mora
só, a visitação.

Sei, por sinais e anjos desviados,
que rebentas dos sonhos desolados
em flores no chão.

Apenas flores, sem nimbos na lapela.
Flores para a mesa,
com o odor da certeza
de água, vino e pão.

Apenas flores e tu,
ó meu amor sem nome,
e a nossa dupla fome
dum menino nu.

Sebastião Alba
Uma pedra ao lado da evidência



CANTIGA DO BATELÃO

Se me visses morrer
os milhões de vezes que nasci

Se me visses chorar
os milhões de vezes que te riste...

Se me visses gritar
os milhões de vezes que me calei...

Se me visses cantar
os milhões de vezes que morri
e sangrei...

Digo-te irmão europeu
havias de nascer
havias de chorar
havias de cantar
havias de gritar

E havias de sofrer
a sangrar vivo
milhões de mortes como Eu!!!


José Craveirinha
Xigubo




frangipani

O novo livro de Mia Couto tem por título O FIO DAS MISSANGAS e é constituído por vinte e nove contos sobre vidas de mulheres, unidas por um fio como as missangas. No lançamento foi lido o conto "O Cesto", do qual se transcreve o seguinte extracto:


Pela milésima vez me preparo para ir visitar meu marido ao hospital. Passo uma água pela cara, penteio-me com os dedos, endireito o eterno vestido. Há muito que não me detenho no espelho. Sei que, se me olhar, não reconhecerei os olhos que me olham. Tanta vez já fui em visita hospitalar, que eu mesma adoeci. Não foi doença cardíaca, que coração, esse já não o tenho. Nem mal de cabeça porque há muito que embaciei o juízo. Vivo num rio sem fundo, meus pés de noite se levantam da cama e vagueiam para fora do meu corpo. Como se, afinal, o meu marido continuasse dormindo a meu lado e eu, como sempre fiz, me retirasse para outro quarto no meio da noite. Tínhamos não camas separadas, mas sonos apartados.
Hoje será como todos os dias: lhe falarei, junto ao leito, mas ele não me escutará. Não será essa a diferença. Ele nunca me escutou. Diferença está na marmita que adormecerá, sem préstimo, na sua cabeceira. Antes, ele devorava os meus preparados. A comida era onde eu não me via recusada.

.......................
................................

Comments:
<$BlogCommentBody$>
<$BlogCommentDeleteIcon$>

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

on-line