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quarta-feira, março 31, 2004

¿Qué cantan los que cantan en portugués?



VALSINHA

VALSA
GALERIA
Vinicius de Moraes - Chico Buarque
1970

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois o dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

segunda-feira, março 29, 2004



Johannesburg

À PARIS


O meu Paris é Johannesburg,
um Paris certamente menos luz,
mais barato e provinciano.
Mas Johannesburg lembra-me o Paris
que não conheço: o mesmo movimento
endemoninhado, as luvas brancas
do policia sinaleiro, o brilho das montras,
a cor da moda, os mesmos amorosos
que se beijam sem pudor nos bancos
das áleas ensolaradas, o Sena
que não há e a Torre Eiffel
que também não. Aqui compro
o meu livrinho proibido e vejo
o último Antonioni, aqui sou
bem o estrangeiro cobiçoso de espanto.
À noite janto no Monparnasse
de Hilbrow, que é o Quartier Latin
do sítio e olho essas mulheres
excêntricas e belíssimas
de pullover e slacks helanca
e esses beatniks barbudos
excêntricos e feiíssimos,
tudo com o ar sincero
mas pouco convincente do made in USA.
Olho também esses efebos de pálpebras
cendradas, com os ademanes e o ar triste
de quem vive na perplexidade dos sexos.
Depois do turkish coffee meto-me
até ao Cul de Sac e fico-me
a ouvir o sax maravilhado
de Kippie Moeketsi. O jazz, sim,
é genuíno e tem um bite
todo local. O néon e a madrugada
silenciosa, o asfalto molhado,
a luz da aurora e a luz dos reclamos
misturando-se, a minha solidão,
aconteceriam assim em Paris.
Aqui ninguém sabe quem sou,
aqui a minha importância é zero.
Em Paris também.


Rui Knopfli
Máquina de Areia

sábado, março 27, 2004


Não poderás saber
que foste a breve primavera
depois de um longo inverno.
Não poderás saber
que os deuses repararam em nós
e como pagãos dançámos.
Não poderás saber
que os sonhos se espelharam em mil sóis.
E, assim não viste as pétalas da flor da bandeja do chá.


Maria Alexandre Dáskalos
Jardim das Delícias


sexta-feira, março 26, 2004

E TUDO ERA POSSÍVEL


Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


Ruy Belo
Homem de Palavra[s]


segunda-feira, março 22, 2004

Começou a Primavera nesta parte do mundo



narcisos

domingo, março 21, 2004







frangipani

21 DE MARÇO DE 2004, DIA INTERNACIONAL DA POESIA
No dia 20 de Março, Mia Couto lançou o seu novo livro na ACERT.

A MENINA DO RETRATO

Recordo-te no velho retrato da infância,
o cabelinho curto,
o olhar triste,
o sorriso terno.
Recordo, mais tarde,
tuas mãos de inocência
adormecidas sobre os meus cabelos
e teus lábios de ingénua frescura,
pousando na minha fronte
o beijo apetecido.
Sei hoje que escondeste bem no fundo
dentro de ti
a menina do retrato
e os gestos que sabias.
Sei também que nossas vidas
agora correm
como duas rectas paralelas,
que nunca se encontram.
E que os geómetros digam
que no infinito elas se tocam,
não é para mim consolação:
Não chego ao infinito.
Fiquemos então assim:
Eu o cavalo melancólico
ruminando mágoas e silêncios
num gasto panorama bucólico
e tu sorrindo, sorrindo em sociedade,
mas, dentro de ti,
habitando inteira,
a menina do retrato.

Rui Knopfli
Álbum








O AMOR CONFUSO


Certo de que voltas, canção,
a incerta hora,
espero como quem mora
só, a visitação.

Sei, por sinais e anjos desviados,
que rebentas dos sonhos desolados
em flores no chão.

Apenas flores, sem nimbos na lapela.
Flores para a mesa,
com o odor da certeza
de água, vino e pão.

Apenas flores e tu,
ó meu amor sem nome,
e a nossa dupla fome
dum menino nu.

Sebastião Alba
Uma pedra ao lado da evidência



CANTIGA DO BATELÃO

Se me visses morrer
os milhões de vezes que nasci

Se me visses chorar
os milhões de vezes que te riste...

Se me visses gritar
os milhões de vezes que me calei...

Se me visses cantar
os milhões de vezes que morri
e sangrei...

Digo-te irmão europeu
havias de nascer
havias de chorar
havias de cantar
havias de gritar

E havias de sofrer
a sangrar vivo
milhões de mortes como Eu!!!


José Craveirinha
Xigubo




frangipani

O novo livro de Mia Couto tem por título O FIO DAS MISSANGAS e é constituído por vinte e nove contos sobre vidas de mulheres, unidas por um fio como as missangas. No lançamento foi lido o conto "O Cesto", do qual se transcreve o seguinte extracto:


Pela milésima vez me preparo para ir visitar meu marido ao hospital. Passo uma água pela cara, penteio-me com os dedos, endireito o eterno vestido. Há muito que não me detenho no espelho. Sei que, se me olhar, não reconhecerei os olhos que me olham. Tanta vez já fui em visita hospitalar, que eu mesma adoeci. Não foi doença cardíaca, que coração, esse já não o tenho. Nem mal de cabeça porque há muito que embaciei o juízo. Vivo num rio sem fundo, meus pés de noite se levantam da cama e vagueiam para fora do meu corpo. Como se, afinal, o meu marido continuasse dormindo a meu lado e eu, como sempre fiz, me retirasse para outro quarto no meio da noite. Tínhamos não camas separadas, mas sonos apartados.
Hoje será como todos os dias: lhe falarei, junto ao leito, mas ele não me escutará. Não será essa a diferença. Ele nunca me escutou. Diferença está na marmita que adormecerá, sem préstimo, na sua cabeceira. Antes, ele devorava os meus preparados. A comida era onde eu não me via recusada.

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sábado, março 20, 2004

283

A
liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas de espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.

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Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

quinta-feira, março 18, 2004

A VAGA




Como toiro arremete
Mas sacode a crina
Como cavalgada

Seu próprio cavalo
Como cavaleiro
Força e chicoteia
Porém é mulher
Deitada na areia
Ou é bailarina
Que sem pés passeia

Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética II

Little Blue Horses

Franz Marc

terça-feira, março 16, 2004

REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA - Rio de Janeiro - Brasil


sábado, março 13, 2004



Sim, é claro,
O Universo é negro, sobretudo de noite.
Mas eu sou como toda a gente,
Não tenha eu dores de dentes nem calos e as outras dores passam.
Com as outras dores fazem-se versos.
Com as que doem, grita-se.

A constituição íntima da poesia
Ajuda muito...
(Como analgésico serve para as dores da alma, que são fracas...)
Deixem-me dormir.


3/7/1930
Álvaro de Campos

sexta-feira, março 12, 2004

Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas


Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga


Sophia de Mello Breyner Andresen
Ilhas

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quarta-feira, março 10, 2004

MEDITANDO...


do que eu gosto mesmo é de correr na areia
sentindo-a roçar sob os meus pés
em tardes quentes loucas escaldantes
depois entrar pelo mar dentro qual sereia
que sabe dos segredos dos mortais
entrar...mas já não sair mais...

do que eu gosto mesmo é de sentir na pele
os salpicos provocantes das marés
e ter a sensação que o horizonte
é um todo homogéneo e uniforme
aonde o meu ser se delicia em tempestuosas
carícias de paixões incestuosas

do que eu gosto mesmo é de sentir no rosto
o vento quente do Sarah distante
que faz gemer as doces palmeiras
na rota insegura do meu peito ardente
e ficar assim feliz estendida
nas longínquas praias à espera da vida

do que eu gosto mesmo é de estar aqui
com chuva e calor com cheiro a cacau
escutando sempre o apito no cais
das vozes que amam o mar e a terra
breves mensagens de sonhos remotos
de barcos distantes perdidos ignotos

do que eu gosto mesmo é de saber que um dia
regresarei ao meu mar ausente
e irei saltar correr aqui e além
nas rochas quentes puras semi-nuas
saboreando o teu corpo amigo
de África-Mãe meu porto de abrigo

Maria Olinda Beja
Bô Tendê?

segunda-feira, março 08, 2004



Que é voar?

É só subir no ar,

levantar da terra o corpo,os pés?

Isso é que é voar?

Não.


Voar é libertar-me,

é parar no espaço inconsistente

é ser livre, leve, independente

é ter a alma separada de toda a existência

é não viver senão em não -vivência


E isso é voar?

Não.


Voar é humano

é transitório, momentâneo...


Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:

isso é partir

e não voltar.


Ana Hatherly


domingo, março 07, 2004

Aqueço-me a um fogo
que só a minha
respiração ateia
Ao sabor dela
se expande e contrai
o círculo de luz
em que armo a tenda
Acaba aqui o rasto
Meu clã deixou-me
este lote de bruma
Com a manhã sobrevém
uma pausa
encho-a até acima
de víveres, lenha
Na terra saciada
de sua forma
a cada giro
volve o instante
de reacender o lume
que detém por agora
os lobos.

Sebastião Alba
Uma Pedra Ao Lado da Evidência

sexta-feira, março 05, 2004

O AVIADOR


O ruído dos motores é uma forma
de silêncio compacto. Em sua crista
se isola o piloto pairando suspenso

no murmúrio dos céus. Seu ponto de vista
é o das grandes aves e seu olhar
abarca os imensos espaços silentes,
Cessna Skylane
os tons verdes da paisagem, o bordo
das montanhas e o lado de lá
do horizonte. No coração tubular

da máquina, o piloto é,
a seu modo, um poeta.

Rui Knopfli


SONHO

Pudesse eu um dia voltar à minha terra
ver os coqueiros e os cafezais em flor
ver as sanzalas transformadas em casas dignas
de homens que trabalham noite e dia


pudesse eu tornar a ver-te mãe
e abraçar-te e beijar-te até não mais
e ver finalmente os meus irmãos de cor
respeitados como eu sempre sonhei

pudesse eu ver as palmeiras da avenida
gingando ao vento e ao grande calor
e pisar essa terra agora nossa

pudesse eu daqui dizer-vos tudo
que sinto e que quero transmitir
pois mesmo longe estarei sempre ao vosso lado


Maria Olinda Beja
Bô Tendê?

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