Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

sexta-feira, fevereiro 27, 2004




.....DE ESPERA

quinta-feira, fevereiro 26, 2004

CANIL



Mil velhos
cachorros pusilânimes
uivam-me obstinadamente.

E quando acaricio este pele de metal
por mais que eu não queira
absolutamente não há
nenhuma dúvida.

Uns chamam-lhe uma obra de serralharia.
Eu chamo-lhe simplesmente
uma porta de ferro
trancada.

José Craveirinha
Cela 1
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terça-feira, fevereiro 24, 2004

Uma boneca para a LARA, uma menina de 22 meses que devido a um AVC necessita de fazer fisioterapia, o que acarreta despesas que o pai Jorge e a mãe Susana não podem suportar. Uma visita ao site permite apoiar e saber os progressos do tratamento.


segunda-feira, fevereiro 23, 2004

HOMENAGEM A JOSÉ AFONSO

OS MENINOS NAZIS


O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcóes das avenidas
São os meninos nazis

Blusão de cabedal preto
Sapato de bico ou bota
Barulho de escape aberto
Lá vai o menino-mota

Gosta de passeio em grupo
No mercedes que o papá
Trouxe da Europa connosco
Até à Europa de cá

Despreza a ralé inteira
Como qualquer plutocrata
Às vezes sai para a rua
De corrente e de matraca

Se o Adolfo pudesse
Ressuscitar em Abril
Dançava a dança macabra
Com os meninos nazis

Depois mandava-os a todos
Com treze anos ou menos
Entrar na ordem teutónica
Combater os sarracenos

Os pretos, os comunistas
Os Índios, os turcomanos
Morram todos os hirsutos!
Fiquem só os arianos !

Chame-se o Bufallo Bill
Chegue aqui o Jaime Neves
Para recordar Wiriamu,
Mocumbura e Marracuene

Que a cruz gamada reclama
e novo o Grão-Capitão
Só os meninos nazis
Podem levar o pendão

Mas não se esquecam do tacho
Que o papá vos garantiu
Ao fazer voto perpétuo
De ir prà puta que o pariu
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domingo, fevereiro 22, 2004

FANTASIA PARA DOIS CORONEIS E UMA PISCINA
Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilheu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.

.......
..........
............

Mário de Carvalho

domingo, fevereiro 15, 2004


Mistress and Maid
Jan Vermeer



A noite vive lá no norte.
Seis meses sem uma noite,
e não houve um só raio de sol
que tocasse a sua alma.

Vem, deita-te neste país
só ele te aquece.

Sempre, sempre noiva
a aurora.


Maria Alexandre Dáskalos
Jardim das Delícias


A Boy as Pierrot
Jean-Honoré Fragonard
1777-80




Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.


Fernando Pessoa

sábado, fevereiro 14, 2004

POESIA XXII


Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho


Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.

Hilda Hilst

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sexta-feira, fevereiro 13, 2004


o bom cheiro do eucalipto

O garoto corria corria
não podia saber
da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.

Ninguém lhe pegou ao colo
ninguém lhe parou a morte.


Maria Alexandre Dáskalos
Jardim das Delícias

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quarta-feira, fevereiro 11, 2004

Tu estavas lá.

Cheirava a cedro na casa,
as hortenses cresciam junto ao muro,
as rosas eram tantas.

E um dia cheguei tarde -
as árvores agora abatidas e o muro despido
Perdão, eu pensava que sempre estarias.


Maria Alexandre Dáskalos - Huambo
Jardim das Delícias

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terça-feira, fevereiro 10, 2004


Chaïm Soutine (1894-1913) - L'Enfant au jouet - 1919 - (0,82 m x 0,66 m)


RECONHECIMENTO À LOUCURA


Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar



José de Almada Negreiros
Poemas


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domingo, fevereiro 08, 2004

POEMA DA SOLIDÃO DO VENTO

É o vento.

O vento vivo e claro
que percorre e não prende
o corpo nu das árvores.

É o vento.

O vento que se inclina
junto às portas fechadas
e tateia as vidraças
com longos dedos de ágata.

É o vento.

O vento que se humilha
- e partirá tão só
como à chegada.


Glória de Sant'Anna
Um Denso Azul Silêncio

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações nasci. (...)

Jorge de Sena

JOSÉ CRAVEIRINHA nasceu a 28 de Maio de 1922 na ex-cidade de Lourenço Marques. Faleceu a 06 de Fevereiro de 2003. Faz hoje 1 ano.


KARINGANA UA KARINGANA


Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
- Karingana ua Karingana! -
é que faz o poeta sentir-se
gente

E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se trasforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser.

- Karingana!


GUERRA


Aos que ficam
resta o recurso
de se vestirem de luto
.......................................
Ah, cidades!
Favos de pedra
macias amortecedores de bombas.



3 DIMENSÕES


(para a Carol e o Nuno)

Na cabina
o deus da máquina
de boné e ganga
tem na mão o segredo das bielas.

Na carruagem
o deus da primeira classe
arquitecta projectos no ar condicionado.

E no ramal
- pés espalmados no aço dos carris -
rebenta pulmões o deus
negro da zorra.

José Craveirinha
Karingana Ua Karingana

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quarta-feira, fevereiro 04, 2004

TIMBILEIROS


A maviosa
velha canganhiça dos timbileiros
acaba os ócios.


E toda a Zavala
bate e torna a bater agora
a cadência dos corações da turba
dançando as amotinações voluptuosas
das timbilas de ossos.


José Craveirinha
Karingana Ua Karingana





NÓ GÓRDIO


No
minuto do adeus
impávido foi meu semblante.

Enquanto meus exuberantes soluços
apertam mais
bem no íntimo
todo eu desvivia
na superangústia
do mais férreo
nó górdio.



José Craveirinha
Maria


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terça-feira, fevereiro 03, 2004



Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões
Lírica

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

O MENINO E O ARCO


O menino tem um arco.

É de plástico.

(Mas é de ouro
ou de ferro
ou de prata
- quem o sabe?)

E com ele
o menino colhe flores
e estrelas e algas
da funda claridade.
Nunca pássaros.


Esses, pousam no arco
enquanto o menino dorme
sob as árvores,
como um guerreiro cansado.

Glória de Sant'Anna
Um Denso Azul Silêncio

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