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sexta-feira, janeiro 09, 2004



O SEMEADOR DE PÁSSAROS


Ninguém se lembraria de povoar lugares sem pássaros, com pássaros vindos de muito longe, melhor dizendo, de levá-los, um a um, do continente para a ilha. Ninguém. Só mesmo ele o poderia ter feito. E levou-os, pouco a pouco, sem dizer nada a ninguém, sem pedir licença fosse a quem fosse, só porque queria, só porque, aquela ilha não tinha chilreios que chegassem, não madrugava fresca, ao som das cantorias. E se era linda a ilha! Mas talvez por ficar longe, longe do continente, e talvez, porque a distância fosse imensa para as pequenas aves cantoras, ela esteve deserta de passarada e chilreios alegres, durante muito tempo.
Até que ele começou a semear pássaros, aos pares e os pares dobraram, triplicaram, aumentaram em multiplicações, que só a natureza sabe fazer.
Chamava-se a ilha, "Do Paraíso". Chama-se ainda assim. Tem outros nomes, conforme quem a nomeia.
Duas horas de barco a motor, era o tempo necessário para lá chegar. Que asinhas suportariam tal travessia? É sabido, que as aves cantoras, que cantam encantando, que acordam com o raiar do sol, precisam de pouso, de quando em quando, para os seus pequenos pés. E o mar é um vazio de descanso, um imenso rasar de água sem pouso.
Levadas cuidadosamente, soltas das prisões temporárias, escaparam-se para o imenso arvoredo que havia em toda a ilha e aí ficaram, quem sabe, tentando perceber o que acontecera e olhando o mar imenso, para tentar ver ao longe, a terra de onde tinham vindo e onde deixaram outros pássaros. Que sabemos nós das saudades das aves quando se separam? E se essas saudades forem como as nossas? Ou ainda mais fortes? Ou muito diferentes?
O novo território era tão fértil e as condições tão benéficas, que em pouco tempo as árvores guardavam ninhos, como se de outras flores se enfeitassem, novas e estranhas flores, que juntavam às suas.
As grandes palmeiras, de cabeças erguidas, acima de tudo, também disputavam aninhar pequenas casas de pássaros, e lá do alto, além de maior segurança, vislumbrava-se o mar sem fim e a brisa era fresca e perfumada. Cheirava a maresia, a flores de acácia e buganvília, a jacarandás, a mar, a água salgada.
Ao redor da ilha, em quilómetros de comprimento, em cantos e recantos, a areia branca, semeada de conchas únicas, de búzios que guardavam a música do mar e seixos rolados, embebia-se e desfazia-se nas ondas, que nela vinham morrer, devagar.
A água era tão transparente, que era possível, sem esforço, ver pequenos e coloridos peixes, deslizando por entre pedras brancas e corais.
Não havia um carro, um veículo motorizado. Os pássaros tinham a "Ilha do Paraíso" só para si, já que os homens que lá viviam, respeitavam, como se de um ser diferente se tratasse, o homem semeador de pássaros e todos os pássaros que ele trazia. Quem, senão um espírito poderoso, podia trazer pássaros e semeá-los?
No mar, ao largo, golfinhos ondulavam de vez em quando, mostrando os dorsos brilhantes. Tubarões, apareciam aos mergulhadores, sem os ameaçarem.
Debaixo do mar, havia outro mundo, tão rico como em terra. Mas os pássaros não tinham acesso a ele. Por isso, ocuparam intensamente a parte firme da ilha, deixando o oceano para todas as outras maravilhas, para quem pudesse e tivesse olhos para as ver.
Um dia, passado que foi o tempo, o homem que semeava pássaros, ficou satisfeito com a sua obra. E decidiu descansar.
Falava menos do que o costume, para poder pensar e ouvir os chilreios. À noite, sentava-se na praia, e ficava a olhar o luar, os pontos brilhantes no céu limpo, a escuridão do mar, a música e as conversas, que chegavam de longe até ele, abafadas pelo marulhar das ondas, a desfazerem-se rumorosamente. E pensava, pensava muito, em tudo o que não tinha pensado, enquanto se ocupara a transportar e semear pássaros.
"Se vierem corvos e águias, os meus pássaros estarão em perigo! É preciso que não cheguem aqui essas criaturas".
Os seus pensamentos concentraram-se nesta questão, para ele primordial. Todos diziam na ilha, "o nosso semeador deixou de ser gente, finalmente vai mostrar-se como é, vai transformar-se em pássaro, ou qualquer outra coisa. Não fala, pensa e vagueia de dia e de noite".
E começaram a estranhá-lo, porque deixara de ser igual aos outros e a ele próprio.
Num dia azul, apareceu, pela primeira vez, uma águia voando no alto dos céus, perto das nuvens, em círculos. Era a primeira águia que se via na ilha, mas quem já estivera no continente, sabia explicar, que tal pássaro, voando e planando como um deus, era poderoso. E contavam histórias, de pequenos animais velozes, apanhados nas garras afiadas, como se voassem pelos ares, para depois serem desfeitos em cima de qualquer rocha.
Nesse mesmo dia azul, o semeador de pássaros deixou de ser visto. E o tempo passou, deslizando pelos dias e pelas noites.
Os pequenos pássaros continuaram a povoar a "Ilha do Paraíso" e a águia não deixou de voar em círculos sobre as árvores, sobre a praia, sobre o mar, mas nunca desceu mais do que a palmeira mais alta, onde se instalou para sempre, como se fosse a eterna sentinela dos pássaros semeados por um homem que desapareceu sem deixar vestígios.
Dizem os pescadores, que aquele homem, foi para outro lugar, mas deixou parte do coração, dentro daquela águia, parte dos olhos, nos olhos daquela águia e todos os poderes misteriosos, os deixou, com aquela águia, para que nada de mal acontecesse aos pássaros que semeara.

(dedicado ao semeador)

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