Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

sábado, janeiro 31, 2004

CAIR DO PANO

As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa

da areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz

do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

Rui Knopfli
O Monhé das Cobras - 1997



MAR ME QUER

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.
- Levanta, ó dono das preguiças.
É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo:
- Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.
- Conversa de malando...
- Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver...
Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
- Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher...
- Mulher, eu?
- Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
- Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.
Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não-Deus...
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.
- Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro?
Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiento do actual presente. E basta.
- Só eu quero é ser um homem bom, Dona.
- Você é mas é um aldrabom.

Mia Couto
Mar me quer

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sexta-feira, janeiro 30, 2004

GAIVOTA




Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.



Alexandre O'Neill

INSCRIÇÕES SOBRE AS ONDAS


Mal fora iniciada a secreta viagem

um deus me segredou que eu não iria só.


Por isso a cada vulto os sentidos reagem,

supondo ser a luz que deus me segredou.


David Mourão-Ferreira

quinta-feira, janeiro 29, 2004

PENA

Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.

Mas não me chames negro.

Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.

José Craveirinha


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quarta-feira, janeiro 28, 2004


Salvador Dalí, A persistência da memória,1931. Óleo sobre tela.






O VELHO


Não envelheço. Torno-me antigo.
O velho sempre viveu em mim,
sempre o pressenti no olhar
magoado demorando-se nas coisas,
em certa lentidão não premeditada
dos gestos e nas lembranças confusas
de uma outra recuada idade.
Sempre aflorou na mão e na estima
triste que se estende aos amigos,
na aresta de desconsolo que espreita
as minhas horas de amor.
O velho sempre viveu em mim.
Eis que, enfim, o reboco
se lhe começa a assemelhar.


Rui Knopfli

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terça-feira, janeiro 27, 2004

O historiador Vitorino Magalhães Godinho, em entrevista ao Jornal de Letras nº 868:


JL - Também estão desvalorizadas (Geografia e História) no Ensino?


VGM - Está a Geografia, está a História, está mesmo a Matemática. Quando eu era aluno do liceu não havia qualquer fobia à Matemática. Isso veio depois, até porque se quis ensinar na instrucão primária aquilo que até então era a Matemática superior, com a teoria dos conjuntos, etc., etc. Considero que um governo que elimina o estudo da Literatura é um governo que se deve demitir imediatamente. As pessoas têm de conhecer o seu próprio património (não para o usar para turismo, que é o contrário de intercâmbio cultural) para poderem avançar para uma actividade profissional com uma consciência cívica. Se não dominar a Língua Portuguesa nos primeiros anos de escolaridade, o caminho será inevitavelmente perdido. Considero o que se está a fazer, com a educação dos portugueses, extremamente grave.


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domingo, janeiro 25, 2004


Depois da Escola - Laura Susana Rivadeneira
V BIENAL NAIF INTERNACIONAL 2002

268

O olfacto é uma vista estranha. Evoca paisagens sentimentais por um desenhar súbito do subconsciente. Tenho sentido isto muitas vezes. Passo numa rua. Não vejo nada, ou antes, olhando tudo, vejo como toda a gente vê. Sei que vou por uma rua e não sei que ela existe com lados feitos de casas diferentes e construídas por gente humana. Passo numa rua. De uma padaria sai um cheiro a pão que nauseia por doce no cheiro dele: e a minha infância ergue-se de determinado bairro distante, e outra padaria me surge daquele reino das fadas que é tudo que se nos morreu. Passo numa rua. Cheira de repente às frutas do tabuleiro inclinado da loja estreita; e a minha breve vida de campo, não sei já quando nem onde, tem árvores ao fim e sossego no meu coração, indiscutívelmente menino. Passo uma rua. Transtorna-me, sem que eu espere, um cheiro aos caixotes do caixoteiro: ó meu Cesário, apareces-me e eu sou enfim feliz porque regressei, pela recordação, à única verdade, que é a literatura.

Fernando Pessoa
O Livro do Desassossego

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sábado, janeiro 24, 2004


De luto - Norma Alicia Catoira
V BIENAL NAIF INTERNACIONAL 2002



......Tivemos um passado extraordinariamente eletista, conservador, que não fez cruzamentos, nem deu possibilidades de educação, melhoria sanitária, não criou civilização. Aliás reproduzimos nos países africanos o que se fazia cá.
Há uma elite bem preparada e possidente, que é absolutamente indiferente à sorte dos outros, que são a maioria. E a grande maioria é obediente, ignorante e sem capacidade de reivindicação. Isto gerou um país com uma estrutura arcaica, que continua a estar estratificado dessa maneira. O que mais me impressiona é que essa tendência continua e acentuou-se nos últimos anos. Voltaram a dominar os nomes de família. E ser humilde, andar de mão estendida continua a ser qualquer coisa de positivo em Portugal. Isso transpõe-se para a relação com as pessoas que vêm de outros sítios, que têm outra aparência. Só que o mundo não é mais o mesmo e a castanha vai estalar. Quero falar dessa ferida do meu tempo. E sabemos como o repelente é atraente para a ficção.

Lídia Jorge
Jornal de Letras nº 836 de 16/10/2002


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sexta-feira, janeiro 23, 2004


BLOGO SOCIAL PORTUGUÊS - notícias do FÓRUM MUNDIAL SOCIAL


UM ÍNDIO



Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul na América
Num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros
Das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas
Das tecnologias

Virá
Impávido que nem Mohammed Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranquilo e infalível como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz,
em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Avó Apache

Do objecto sim resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará
Não sei dizer assim de um modo explicíto

Virá
Impávido que nem Mohammed Ali
Virá que eu vi
Tranquilo e infalivel como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo facto de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio
Virá

Caetano Veloso
Maria Bethânia canta

quinta-feira, janeiro 22, 2004

BLOGO SOCIAL PORTUGUÊS - notícias do FÓRUM MUNDIAL SOCIAL






CARTA PARA UM AMOR


Cidade!,
nunca fui mais longe do que
à raia de Espanha.
Creio amar Paris,
conheço Paris dos filmes, a Concórdia
dos postais, a Torre Eiffel divulgada,
Hitler passando sob o Arco de Triunfo.
Amo Paris em Aragon e Eluard,
Paris dos pintores, Paris de Erenburgo.
Amo outras cidades, todas as grandes
cidades.
Madrid dos espanhóis e do coração despedaçado,
Stalinegrado das batalhas, Berlim do triunfo.
Nunca fui às grandes cidades,
amo-as porque os homens mas ensinaram
a amar.
Conheço Lisboa grande e colorida,
longe dos meus sentidos
e Johannesburg do ouro e do pó.
Nunca fui a New York ou São Paulo
do Brasil.
Chicago, Los Angeles, Londres,
Moscou, Rio, não conheço,
nem conheço as grandes cidades,
que as há,
do estado de Massachusetts
ou da beira do Nilo.

Cidade!
amo em retórica discursiva
as outras cidades.
Das viagens que tenho feito,
por rotas tão diferentes,
és sempre a meta, cidade que amo
desde sempre,
_ para lá dos poetas dos pintores,
dos filmes e da retórica discursiva.
Os nossos companheiros tiveram
a coragem de partir,
vivem nas grandes cidades, com história,
do mundo,
eu fui covarde e fiquei.
Experimentei, e não soube, viver longe de ti
noutras cidades.
Sei que este meu amor é a minha mediocridade
também,
a mediocridade de quem não teve asas
para subir mais alto
e orgulho, o orgulho que nada venceu,
nem o ser estranho na própria terra.
É uma ternura que escorre
das tuas tranquilas avenidas de acácias
e jacarandás,
dos claros prédios,
da população colorida,
de mansitude de baía,
do teu ar de provinciana janota.
Cidade, menina fútil
de pouca história,
carros pequenos nas ruas,
velas na baía, patinadores nos ringues,
terra de sete estuários,
de cinemas e cafés buliçosos,
de alegrias e pequenas traições,
leviana, ingénua, snob, bonita,
mulata, branca,
hindu, negra
de cabelos louros e olhos amendoados,
morena sensual,
terra índica, minha terra,
minha amada inocente, prostituída.

Amo-te cidade da infância,
com girassóis e casas de madeira e zinco
a dormir na neblina da memória.
As quadrilhas de arco, flecha e pistola
de fulminantes,
os esconderijos da barreira,
o sexo e as coxas morenas de Xila,
o Sete de Março da política e dos antigos cafés,
a tristeza verde-negra do Enes,
o paço do senhor bispo
e S. Navio todos os meses.

Quebrou-se esse velho espanto
e nossos companheiros tiveram a coragem
de partir para outras cidades,
com história, do mundo
(Para eles tua lembrança é
fugitiva mágoa).
Só,
eu fiquei abraçado a este amor anónimo.


Rui Knopfli
O País dos Outros - 1959

segunda-feira, janeiro 19, 2004



CADA COISA


Cada coisa tem o seu fulgor,
a sua música.
Na laranja madura canta o sol,
na neve o melro azul.
Não só as coisas,
os próprios animais
brilham de uma luz acariciada;
quando o inverno
se aproxima dos seus olhos
a transparência das estrelas
torna-se fonte da sua respiração.
Só isso faz
com que durem ainda.
Assim o coração.


Eugénio de Andrade
Trinta Poemas




POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE

No dia do seu 81º aniversário - no ABSORTO

e também no PORTUGAL DOS PEQUENINOS

igualmente no O HOMEM UMA PAIXÃO INÚTIL
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Leonardo Da Vinci
Retrato de Cecilia Gallarani

A EMOÇÃO É COMO UM PÁSSARO



A emoção é como um pássaro:
Quando se prende já não canta.
Mas se a gente a liberta,
Qualquer janela aberta
Lhe serve para fugir.
O poeta é aquele que numa praça
S. Marcos de Veneza transcendente,
E de todas as praças, praça ainda,
Aguarda na manhã que se insinua
Ou na tarde que finda
O voo que há-de vir.
Ele estende a mão,
Abre-a espalmada
Ao céu,
Que à anunciação de tudo ou nada
A emoção virá ou não
- Sem emoção, toda a poesia é nada -

Fiel à Anunciação que está marcada
Na sua condição.

Reinaldo Ferreira

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"O ponto"
Versão autografada de "O ponto" (In: Poemas, Imprensa Nacional de Moçambique, Lourenço Marques, 1960)




Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.


Reinaldo Ferreira
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domingo, janeiro 18, 2004

NOITE




Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!...

Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...

Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...

E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...

Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes... como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...

É que os meninos brancos...,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...

Os meninos-brancos... esqueceram!...


Alda Lara


sábado, janeiro 17, 2004


SOBRE UM SIMPLES SIGNIFICANTE


Meados de janeiro. No aeroporto duma capital
- Leitores eventuais se quereis saber qual
terei de ser sincero como sempre o sou e não apenas em geral:
o caso que vos conto aconteceu no europeu nepal -
um grupo de pessoas num encontro casual
desses que nem viriam no melhor jornal
de qualquer dos países donde alguém de nós seria natural
decerto por alguma circunstância puramente acidental
emprega no decurso da conversa a palavra "natal"
embora a pensem todos na respectiva língua original
E sem saber porquê eu sinto-me subitamente mal
Ainda que me considerem um filólogo profissional
e tenha escrito páginas e páginas sobre qualquer fenómeno fonético banal
não conheço a palavra. Porventura terá equivalente em portugal?
Deve dizer-me alguma coisa pois me sinto mal
mas embora disposto a consultar o português fundamental
ia jurar que nem sequer a usa o leitor habitual
de dicionários e glossários e vocabulários do idioma nacional
e o mesmo acontece em qualquer língua ocidental
das quais pelo menos possuo uma noção geral
conseguida aliás por meio de um esforço efectivo e real
E ali naquela sala principal
daquele aeroporto do nepal
enquanto esperam pelo seu transporte habitual
embora o tempo passe o assunto central
da conversa daquele grupo de gente ocasional
continua na mesma a ser o do "natal"
Tratar-se-á de um facto universal?
Alguma festa? Uma tragédia mundial?
Consulto as caras sem obter satisfação cabal
Li por exemplo a bíblia li pessoa e pertenci à igreja ocidental
e tenho de reconhecer que não sei nada do natal
Mas se assim é porque diabo sofro como sofro eu afinal'
Porque me atinge assim palavra tão fatal?
Que passado distante permanece actual?
Como é que uma mera palavra se me torna visceral?
Ninguém daquela gente reunida no nepal
um professor um engenheiro ou um industrial
um técnico uma actriz um intelectual
um revolucionário ou um príncipe real
que ali nas suas línguas falam do natal
aí por quinze de janeiro e num dia invernal
pressentem como sofre este filólogo profissional
Eu tenho atrás de mim uma vida que por sinal
começada no campo e num quintal
junto da pedra da árvore e do animal
debaixo das estrelas e num meio natural
vida continuada na escola entre o tratado e o manual
me assegurou prestígio internacional
Mas para que me serve tudo isso se naquela capital
entre pessoas que inocentemente falam do natal
eu que conheço as coisas e as palavras de maneira oficial
que como linguista as trato de igual para igual
travo afinal inexorável batalha campal
com tão simples significante como o de "natal"?
E entre línguas diversas num aeroporto do nepal
alguém bem insensível sofre mais do que um sentimental
pois pressente em janeiro que se o foi foi há muito o natal



Ruy Belo
Transporte no Tempo


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sexta-feira, janeiro 16, 2004

CARCARÁ


Gloria a Deus, Senhor nas alturas
e viva eu de amargura
nas terras do meu senhor ...
Carcará pega, mata e come
carcará não vai morrer de fome.
Carcará, mais coragem do que homem.
Carcará pega, mata e come !
Carcará, lá no sertão
é um bicho que avoa que nem avião.
É um pássaro malvado,
tem o bico volteado que nem gavião
Carcará quando vê roça queimada
sai voando e cantando :
carcará vai fazer sua caçada,
carcará come inté cobra queimada !
Quando chega o tempo da invernada
No sertão não tem mais roça queimada.
Carcará mesmo assim não passa fome.
Os borregos que nasce na baixada...
Carcará pega, mata e come ...
Carcará é malvado, é valentão,
é a águia de lá do meu sertão.
Os borrego novinho não pode andá :
Ele puxa no imbigo até matá.
Carcará pega, mata e come ...

João do Vale


Notícias do Fórum Social Mundial

AREIA,XVII


Eh! velhos pinheiros!
Cá estou outra vez
a falar com vocês
numa lígua estranha
que não é português
nem espanhol!...

Mas esta alegria do princípio do mundo
de andar com mãos roubadas a um vagabundo
a atirar pedras aos pássaros e ao sol.



José Gomes Ferreira
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quinta-feira, janeiro 15, 2004


Matias Grünewald

DIES IRAE


Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!


Miguel Torga

terça-feira, janeiro 13, 2004



NOCTURNO




Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...


David Mourão-Ferreira

segunda-feira, janeiro 12, 2004

MARINHA



O peixe desliza na água tranquila
dentro da clara e translúcida água.
Seu instinto o guia,
sua fome o mata.

O peixe escorrega na leve armadilha.
(De prata seu dorso, de coral a mandíbula).

Escorrega na densa claridade mortal
por cima de si entre as algas nítidas.
Já preso, já morto.
Mas de prata ainda.

O peixe se agita na suave armadilha.
(De vidro confuso suas pupilas frias).

Que o pescador vem
e as suas pegadas
são de força e de sol
e de esperança e da água.

E sob a tranquila
claridade mortal,
o peixe é de prata,
de sangue e de sal.


Glória de Sant'Anna
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sábado, janeiro 10, 2004



Oferendas a Iemanjá - Tela de Nide

SENHORA DAS TEMPESTADES



Senhora das tempestades e dos mistérios originais

quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo

trazes o terramoto a assombração as conjunções fatais

e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo.



Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento

há uma lua do avesso quando chegas

crepúsculos carregados de presságios e o lamento

dos que morrem nos naufrágios Senhora das vozes negras.



Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma

nasce uma estrela cadente de chegares

e há um poema escrito em página nenhuma

quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.



Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse

trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte

teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse

quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte.



Escreverei para ti o poema mais triste

Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades

quando me tocas há um país que não existe

e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades.



Senhora do sol do sul com que me cegas

a terra toda treme nos meus músculos

consonância dissonância Senhoras das vozes negras

coroada de todos os crepúsculos.



Senhora da vida que passa e do sentido trágico

do rio das vogais Senhora da litúrgia

sibilação das consoantes com seu absurdo mágico

de que não fica senão a breve música.



Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita

alquimia de sons Senhora do vento norte

que trazes a palavra nunca dita

Senhora da minha vida Senhora da minha morte.



Senhora dos pés de cabra e dos parágrafos proibidos

que te disfarças de metáfora e de soprar marítimo

Senhora que me dóis em todos os sentidos

como um ritmo só ritmo como um ritmo.



Batem as sílabas da noite na oclusão das coronárias

Senhora da circulação que mata e ressuscita

trazes o mar a chuva as procelárias

batem as sílabas da noite e és tu a voz que dita.



Batem os sons os signos os sinais

trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes

fica o sentido trágico do rio das vogais

o mágico passar das consoantes.



Senhora nua deitada sobre o branco

com tua rosa-dos-ventos e teu cruzeiro do sul

nascem faunos com tridentes no teu flanco

Senhora de branco deitada no azul.



Senhora das águas transbordantes no cais de súbito vazio

Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância

teu rosto de sereia à proa de um navio

tudo em ti é partida tudo em ti é distância.



Senhora da hora solitária do entardecer

ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma

onde tu moras começa o acontecer

tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma.



Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes

Setembro te levou para as metrópoles excessivas

batem as sílabas do tempo no rolar dos meses

tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas.



Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso

tua ternura e teu chicote sobre a tristeza e a agonia

galopas no meu sangue com teu cateter chamado Pégaso

e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.



Tudo em ti é magia e tensão extrema

Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos

batem as sílabas da noite no coração do poema

Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.



Tudo em ti é milagre Senhora da energia

quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades

batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia

ao som do nome que só Deus sabe Senhoras das tempestades.


Manuel Alegre




Vou atirar uma bomba ao destino.


Álvaro de Campos
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A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano


Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos -
Que trapo tudo que é este mundo!



Álvaro de Campos

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ÉVORA


Irei a Évora descobrir o branco
a ogiva o arco a rosácea a nave
a praça como pátio
o pátio como praça.
Nada destrói a intimidade
de sua humana geometria.
Irei a Évora para reencontrar
a perdida harmonia.



Manuel Alegre
Alentejo e Ninguém











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sexta-feira, janeiro 09, 2004




O SEMEADOR DE PÁSSAROS


Ninguém se lembraria de povoar lugares sem pássaros, com pássaros vindos de muito longe, melhor dizendo, de levá-los, um a um, do continente para a ilha. Ninguém. Só mesmo ele o poderia ter feito. E levou-os, pouco a pouco, sem dizer nada a ninguém, sem pedir licença fosse a quem fosse, só porque queria, só porque, aquela ilha não tinha chilreios que chegassem, não madrugava fresca, ao som das cantorias. E se era linda a ilha! Mas talvez por ficar longe, longe do continente, e talvez, porque a distância fosse imensa para as pequenas aves cantoras, ela esteve deserta de passarada e chilreios alegres, durante muito tempo.
Até que ele começou a semear pássaros, aos pares e os pares dobraram, triplicaram, aumentaram em multiplicações, que só a natureza sabe fazer.
Chamava-se a ilha, "Do Paraíso". Chama-se ainda assim. Tem outros nomes, conforme quem a nomeia.
Duas horas de barco a motor, era o tempo necessário para lá chegar. Que asinhas suportariam tal travessia? É sabido, que as aves cantoras, que cantam encantando, que acordam com o raiar do sol, precisam de pouso, de quando em quando, para os seus pequenos pés. E o mar é um vazio de descanso, um imenso rasar de água sem pouso.
Levadas cuidadosamente, soltas das prisões temporárias, escaparam-se para o imenso arvoredo que havia em toda a ilha e aí ficaram, quem sabe, tentando perceber o que acontecera e olhando o mar imenso, para tentar ver ao longe, a terra de onde tinham vindo e onde deixaram outros pássaros. Que sabemos nós das saudades das aves quando se separam? E se essas saudades forem como as nossas? Ou ainda mais fortes? Ou muito diferentes?
O novo território era tão fértil e as condições tão benéficas, que em pouco tempo as árvores guardavam ninhos, como se de outras flores se enfeitassem, novas e estranhas flores, que juntavam às suas.
As grandes palmeiras, de cabeças erguidas, acima de tudo, também disputavam aninhar pequenas casas de pássaros, e lá do alto, além de maior segurança, vislumbrava-se o mar sem fim e a brisa era fresca e perfumada. Cheirava a maresia, a flores de acácia e buganvília, a jacarandás, a mar, a água salgada.
Ao redor da ilha, em quilómetros de comprimento, em cantos e recantos, a areia branca, semeada de conchas únicas, de búzios que guardavam a música do mar e seixos rolados, embebia-se e desfazia-se nas ondas, que nela vinham morrer, devagar.
A água era tão transparente, que era possível, sem esforço, ver pequenos e coloridos peixes, deslizando por entre pedras brancas e corais.
Não havia um carro, um veículo motorizado. Os pássaros tinham a "Ilha do Paraíso" só para si, já que os homens que lá viviam, respeitavam, como se de um ser diferente se tratasse, o homem semeador de pássaros e todos os pássaros que ele trazia. Quem, senão um espírito poderoso, podia trazer pássaros e semeá-los?
No mar, ao largo, golfinhos ondulavam de vez em quando, mostrando os dorsos brilhantes. Tubarões, apareciam aos mergulhadores, sem os ameaçarem.
Debaixo do mar, havia outro mundo, tão rico como em terra. Mas os pássaros não tinham acesso a ele. Por isso, ocuparam intensamente a parte firme da ilha, deixando o oceano para todas as outras maravilhas, para quem pudesse e tivesse olhos para as ver.
Um dia, passado que foi o tempo, o homem que semeava pássaros, ficou satisfeito com a sua obra. E decidiu descansar.
Falava menos do que o costume, para poder pensar e ouvir os chilreios. À noite, sentava-se na praia, e ficava a olhar o luar, os pontos brilhantes no céu limpo, a escuridão do mar, a música e as conversas, que chegavam de longe até ele, abafadas pelo marulhar das ondas, a desfazerem-se rumorosamente. E pensava, pensava muito, em tudo o que não tinha pensado, enquanto se ocupara a transportar e semear pássaros.
"Se vierem corvos e águias, os meus pássaros estarão em perigo! É preciso que não cheguem aqui essas criaturas".
Os seus pensamentos concentraram-se nesta questão, para ele primordial. Todos diziam na ilha, "o nosso semeador deixou de ser gente, finalmente vai mostrar-se como é, vai transformar-se em pássaro, ou qualquer outra coisa. Não fala, pensa e vagueia de dia e de noite".
E começaram a estranhá-lo, porque deixara de ser igual aos outros e a ele próprio.
Num dia azul, apareceu, pela primeira vez, uma águia voando no alto dos céus, perto das nuvens, em círculos. Era a primeira águia que se via na ilha, mas quem já estivera no continente, sabia explicar, que tal pássaro, voando e planando como um deus, era poderoso. E contavam histórias, de pequenos animais velozes, apanhados nas garras afiadas, como se voassem pelos ares, para depois serem desfeitos em cima de qualquer rocha.
Nesse mesmo dia azul, o semeador de pássaros deixou de ser visto. E o tempo passou, deslizando pelos dias e pelas noites.
Os pequenos pássaros continuaram a povoar a "Ilha do Paraíso" e a águia não deixou de voar em círculos sobre as árvores, sobre a praia, sobre o mar, mas nunca desceu mais do que a palmeira mais alta, onde se instalou para sempre, como se fosse a eterna sentinela dos pássaros semeados por um homem que desapareceu sem deixar vestígios.
Dizem os pescadores, que aquele homem, foi para outro lugar, mas deixou parte do coração, dentro daquela águia, parte dos olhos, nos olhos daquela águia e todos os poderes misteriosos, os deixou, com aquela águia, para que nada de mal acontecesse aos pássaros que semeara.

(dedicado ao semeador)

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quarta-feira, janeiro 07, 2004

CERTIDÃO DE NASCIMENTO


Tão regaço estas arcadas
Tão de brinquedo os eléctricos
Vejo a cidade parada
no ano de vinte e sete
Dela por vezes me evado
mas sempre a ela regresso
Bem sei eu que não desato
o cordão com que me aperta
Vejo seus jestos de grávida
medidos cautos imersos
nessa jovem gravidade
que só grávidas conhecem
Que frescor de madrugada
no terror com que me espera
Mães têm sempre a idade
que em sonho os filhos decretam
Recordo melhor a data
Até mesmo a atmosfera
É o dia vinte e quatro
de um mês a tremer de febre
com armas grades e o rasto
de um sangue que nunca seca
Só seis decénios passaram
rápidos como seis séculos
Tão pouco Mas neles cabem
cidade arcadas eléctricos
nesta imensa claridade
irmã gémea do mistério

David Mourão-Ferreira
TORRE DE BELÉM
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POSTERIDADE


Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu.
E não
voltarei de facto. serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começara aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.

Rui Knopfli

segunda-feira, janeiro 05, 2004


ROMARIA

É de sonho e de pó
O destino de um só
feito eu perdido em pensamento
sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira ou jiló
Dessa vida cumprida a sol

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Que ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Que ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida

O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
meus irmãos perderam-se na vida
a custa de aventuras
Descasei, joguei
investi, desisti
Se há sorte eu não sei nunca vi.

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Que ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Que ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida

Me disseram porém
que eu viesse aqui
pra pedir em romaria e prece
Paz nos desaventos
Como não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Que ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Que ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida



Renato Teixeira

MINHA ESCOLA


A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!
a proteção dos deuses do Olimpo

À sua porta eu estava sempre hesitante...
De um lado a vida... — A minha adorável vida de criança:
Pinhões... Papagaios... Carreiras ao sol...
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio...
Jogos de castanhas...
— O meu engenho de barro de fazer mel!

Do outro lado, aquela tortura:
"As armas e os barões assinalados!"
— Quantas orações?
— Qual é o maior rio da China?
— A 2 + 2 A B = quanto?
— Que é curvilíneo, convexo?
— Menino, venha dar sua lição de retórica!
— "Eu começo, atenienses, invocando
para os destinos da Grécia!"
— Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
— Agora, a de francês:
— "Quand le christianisme avait apparu sur la terre..."
— Basta
— Hoje temos sabatina...
— O argumento é a bolo!
— Qual é a distância da Terra ao Sol?
— ?!!
— Não sabe? Passe a mão à palmatória!
— Bem, amanhã quero isso de cor...

Felizmente, à boca da noite,
eu tinha uma velha que me contava histórias...
Lindas histórias do reino da Mãe-d'Água...
E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.


Ascenso Ferreira





Protea neriifolia

Para o PANO DO PÓ e RC, que vai seguindo também este caminho.



POEMAZINHO REACCIONÁRIO PARA USO PARTICULAR



Tenho uma flor. Pálida.
Não uma flor difícil,
não uma rosa multicor,
complicada, de um jardim secreto.
Não uma flor agreste, uma flor
de micaia, flor da minha terra,
que sou desenraizado.
Uma flor qualquer que me inspire
e me qualifique. E adoce
este tempo que habito.
Simples, pálida, de haste longa
e pétalas simétricas.
Talvez um malmequer,
talvez algo bem mais simples.
Sem cheiro, sem cor,
sem importância alguma. Uma flor.
Uma flor de plástico.

Rui Knopfli_________________________________________________

domingo, janeiro 04, 2004

«Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.»


Alberto Caeiro

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THOMAS GAINSBOROUGH - 1727/1788

Blue Boy







Coimbra, 8 de Agosto de 1941 - Morreu ontem Rabindranath-Tagore. Nos jornais, entre peças de artilharia e aviões, a sua máscara cheia de humanidade e santidade veio acicatar em mim este danado problema da salvação. Não da salvação em Deus ou em qualquer paraíso. Da salvação neste mundo, de terra, com homens e com paixões. Veio agudamente dizer-me que ou uma, ou outra. Ou se escolhe como ideal um S. Francisco de Assis a rasgar-se nas silvas e a tratar de tordos, ou não há outro remédio senão a gente integrar-se no movimento universal desta gigantesca máquina moderna, e fazer nela de parafuso, como mostrou Chaplin. Assim, divididos, com luz e sombra na alma, vestidos e despidos, ao mesmo tempo como frutos mal descascados, é que não. Assim é morrer todos os dias.

Miguel Torga
Diário


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sábado, janeiro 03, 2004


Caravaggio
Concert

A MÃO NO ARADO


Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela
morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com
que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
é muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

Ruy Belo
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Peter Paul Rubens
1577 - 1640
Tiberius and Agrippina,




Estou cansado de inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára, meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!

Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!

Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam na taça
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.


Álvaro de Campos
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QUARESMA
Giuseppe Arcimboldo
1530/1593


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sexta-feira, janeiro 02, 2004

[ao pai]


Que andas a fazer pela vertente
deste escalvado ano? A assinar,
ao fundo, os dias em branco?
Deixa que o fumo espirale
a um canto de ti, que envelheces,
quando o regresso das pombas
é já cinéreo, e senta-te na pedra.
Pousa, no joelho, a mão:
o destino permanece
na obscuridade assim acautelada
da palma.
A estirpe debela-se. Esta não a salvam
amores ancilares e pão caseiro.
E homens há de quem o sol não repele
a noite invasora, como um deus instantâneo.


Sebastião Alba
Uma Pedra ao Lado da Evidência


[subúrbio africano]



Onde há casas menores com portas abertas
por sobre os espaços que a luz orna
entre as palmeiras
e vultos que amanhecem envoltos
em lençois de que a noite suja escorreu
a manhã pousa
nos pulsos das mulheres que se elevam com ela
e meninos negros alteiam-se
no flanco das mães
de olhos que a esperança já estria
Os comerciantes assoam-se
de varanda para varanda
retribuem devagar a amizada
Que os meninos trazem para fora
das tarefas diárias
as luas carcomidas no sítio das fogueiras
enfiadas murmuramente em seus colares.


Sebastião Alba
Uma Pedra ao Lado da Evidência


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