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quinta-feira, dezembro 11, 2003

OS POROS DA PESTE

/120/

Cheina:

Não te preocupes com a minha situação. Eu preparei-me para dormir ao relento. Só quando a chuva é tangida pelo vento, me atinge. Mas, na manhã seguinte, nem sequer acordo constipado. Tento libertar-me, a pouco e pouco (parece um soneto do Antero), da consciência pequeno-burguesa que me inculcaram. Não é fácil, irmão, nem pela força da cultura adquirida.
Diz ao Zé Craveirinha que resisto (embora isso não leve a nada) e afasto com a biqueira do sapato os sacos de plástico e outros resíduos desta sociedade de consumo de terceira ordem. Dá-lhe um abraço meu. Se calhar, nunca mais nos veremos. Não importa. Sacrificaram-no, mas valeu a pena.
Há um ensaio sobre ele, do Eugénio Lisboa, coligido em "Crónicas dos Anos da Peste". Tão inteligente, comovente, bom, que nenhum inspector da PIDE, teria capacidade para interrogá-lo, acerca dele.
Há guerrilheiros que pegam em armas e estão, como o "Che" Guevara, num outro escalão da humanidade.
Os demais também as disparam mas são, pura e simplesmente, assassinos.
Nós, o Rui KnOpfli, o Eugénio, o Grabato Dias éramos, parafraseando o Vinicius de Morais, os brancos mais pretos de Moçambique.
Pagámos isso caro. A PIDE não ia buscar-nos. Era um erro táctico. O Czar Nicolau não mandava deter Tolstoi (guardadas as devidas distâncias) quando o grande escritor o desafiou, perguntando-lhe por que enforcava pobres camponeses e não o ia buscar a ele.
Na RTP2, à meia noite, num programa sobre o Rui Knopfli, leram alguns poemas dele, está a morrer; arfa com as mãos enclavinhadas como garras.
Foi muito nosso amigo, nos piores tempos. Ele que chateou por escrito (e com estilo) muitos escritores, ao Toni e a mim nunca nos tocou. Pelo contrário, dedicou-nos poemas (lê Mangas Verdes com Sal) e o artigo à morte do Toni é comoventemente belo. Nasceu em 32.

Sebastião Alba
ALBAS




DISPARATES SEUS NO ÍNDICO



Depois de tão longo silêncio pedes-me notícias.
Que dizer, conjecturo, por notícias,
a quem os anos distanciaram irreparavelmente?
Que, adiposo e surdo, o verão é como
os da nossa infância, mas que o suportamos
pior, agora que se acentuam as rugas da testa,
embora o aligeirar das roupas nas raparigas
ainda acorde em nós o mesmo latejar de virilhas.
Que, pelos arrastados e emolientes fins de tarde,
sob o que sobra do hálito infernal,
ainda emparceiro com o Zé Craveirinha,
o branco e o mulato, verso e anverso
do mesmo quotidiano - diria o Carlos
- na ronda crepuscular do cio, falando eu,
irrequieto e gauche, pelos cotovelos, enquanto
ele, calado, roda na paisagem o olhar
sorna de crocodilo agachado no canavial.
Que, na argamassa complicada da cidade,
redobram os esculcas para as nossas cautelas
redobradas. Que o tempo se demora
em nossos gestos e nas palavras ciciadas.
E que o redimem as pernas altas e morenas
das adolescentes nos passeios e esplanadas.
Que, para além disso, se faz, intermetente
e sem convicção, a mesma política rarefeita de afogados,
se urdem programas e papeis esperançosos,
que os mais válidos têm sempre a coragem
de nunca assinar, pois nunca se lhes afiguram
bastante progressivos (e está salva a honra do convento!).
E que assim se desencadeia, de ordinário,
o ordeiro desagravo de muçulmanas comunidades,
asiáticas associações de benemerência
e de outras congéneres e afins. Que este
prolongamento doirado e nebuloso que excede
o extinto fulgor das caravelas é um muro
de silêncio e torna nossos gritos em grotescas
caricaturas do som. Que um cancro de areia
e letargo nos corrói, implacável, músculos e tendões
e uma paralisia sufocante se nos instila
pelo tenso cordame dos nervos em vibração.
Que se luta e morre à margem da nossa renúncia
e que a paixão é inescrutável na aparente serenidade dos rostos.
Que, todavia, há sempre bobos e piruetas à mesa do rei,
sobre que tombam o cristal das gargalhadas e mots d'esprit.
Que a minha solidão e a de meus amigos
(a parte negativa e incorrupta deste mundo),
incomóda como dor de dentes, é um bem inestimável.

Que, preservando a ardência árabe dos olhos,
já conservo a fralda da camisa dentro das calças
e tornei-me esquisito nas gravatas, nos sapatos,
nos botões de punho, nas marcas de uísque e de conhaque.
Que mantenho imperecível a fidelidade ao Amor
escamoteando-a, contudo, à cousa amada.
Que, a propósito, o racismo é agora encapotado
e confortável, residindo nos sorrisos múrmuros
e nos olhares cúmplices que se trocam em público.
Que, enfim, sob a máscara de sono e hipocrisia,
a natureza se refaz no ciclo indiferente das estações
e que, sobre nós, fina, grave e imperceptível,
cai uma poeira antiga de esquecimento.

Rui Knopfli
Mangas Verdes com Sal - 1969

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