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domingo, dezembro 21, 2003

DIÁRIO DE MIGUEL TORGA


Leiria, 13 de Outubro de 1940 - Morreu ontem Tom Mix. Dou a notícia aqui para que os vindoiros saibam ao menos o nome do maior Quixote do Far-West.

Coimbra, 23 de Outubro de 1940 - Leitura de um livro de Troyat sobre Dostoievsky.
Quanto mais sei deste génio russo, mais me sinto ligado e agradecido à benção literária que me deu quando pela primeira vez o li. Foi, cá na minha pobreza de artista, o que foi na riqueza religiosa de S. Paulo o clarão da estrada de Damasco.

Coimbra, 12 de Novembro de 1940 - Discussão a respeito de Rembrandt. Declarei que a pintura, quando mero jogo de cores, me dizia pouco. Mas gostei de ouvir as razões em contrário. Que ninguém como o holandês conseguiu valorizar pela escuridão a pureza dum brilho, dum tom, duma nuance

Coimbra, 13 de Novembro de 1940 - Tenho a impressão de que certas pessoas, se soubessem exactamente o que são e o que valem na verdade, endoideciam.
De que, se no intervalo da embófia e da importância, pudessem descer ao fundo do poço e ver a pobreza franciscana que lá vai, pediam a Deus que as metesse pela terra dentro.

Coimbra, 20 de Novembro de 1940 - Não há maneira. Por mais boa vontade que tenham todos, uma discussão nesta santa terra portuguesa acaba sempre aos berros e aos insultos. Ninguém é capaz de expor as suas razões sem a convicção de que diz a última palavra. E a desgraça é que a esta presunção do espírito se junta ainda a nossa velha tendência apostólica, que onde sente um náufrago tem de o salvar.
O resultado é tornar-se impossível qualquer colaboração nas ideias, o alargamento da cultura e de gosto, e dar-se uma trágica concentração de tudo na mesquinhez do individual.

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