Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

domingo, dezembro 14, 2003


ARRHAS POR FORO D'HESPANHA
(1371-2)

O sino das ave-marias ou da oração tinha dado na torre da sé a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de casas que, apinhadas à roda do castello e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar, aqui e acolá, as luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trévas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naqueles bons tempos, a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa e arriscada do que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da capital. O que, porém, havia ahi desacostumado e estranho eram o completo silencio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o paço d'apar S. Martinho, onde então residia elrei D. Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus e que ainda esse mar revolto não tinha inteiramente caído na calmaria e somnolencia que vem após a procella.

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Alexandre Herculano
Lendas e Narrativas

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