Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

quarta-feira, dezembro 31, 2003


Jan Vermeer

The Musician
London, Kenwood House, Iveagh Bequest

1672


Para os que nos visitam, e para os Favoritos ao lado, votos de um 2004 pleno de solidariedade

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terça-feira, dezembro 30, 2003

NÃO MAIS SOB A ÁRVORE DE BÔ

Não mais a pureza de Ramahyana
o incenso e o sândalo

os pés nus nas pedras do templo

enquanto eles comerem na minha mesa
na velha casa de Dili
não mais me sentarei sob a árvore de Bô

Jorge Lauten



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GOVERNADO PELOS MORTOS



(fala com um descamponês)

Os mortos perderam acesso a Deus. Porque eles mesmo se tornaram deuses. E têm medo de admitir isso. Querem voltar a ser vivos. Só para poderem pedir a alguém.
- E estes campos, tradicionalmente vossos, foram-vos retirados?
- Foram. Nós só ficamos com o descampado.
E agora ?
Agora somos descamponeses.
- E bichos, ainda há aqui bichos ?
- Agora, aqui, só há inorganismos. Só mais lá, no mato, é que ainda abundam.
- Nós ainda ontem vimos flamingos...
- Esses se inflamam no crepúsculo: são os inflamingos.
- E outras aves da região. Pode falar delas ?
- Antes de haver deserto, a avestruz pousava em árvore, voava de galho em flor. Se chamava de arvorestruz. Agora, há nomes que eu acho que estão desencostados...
- Caso do beija-flor. É um nome que deveria ser consertado. A flor é que levaria o titulo de beija - pássaros. ..."

Mia Couto



O ESSENCIAL É TER O VENTO


O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.


Reinaldo Ferreira


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segunda-feira, dezembro 29, 2003

PRESENÇA AFRICANA



E apesar de tudo,
Ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
Nascendo dos braços das palmeiras...
A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
Salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!... Rua 11!...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu
e corpo musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
Longa história inconsequente...


Minha terra...
Minha, eternamente...
Terra das acácias, dos dongos,
dos cólios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.
Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!

Alda Lara
Benguela,1953(Poemas,1966)


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sábado, dezembro 27, 2003


Jasmin


CANTIGA DE AMIGO

ao Sebastião Alba

bateu ao portão um dia
bateu ao portão
abri-lho

vinha da estrela do norte
bebendo copos de vinho

dançou batuque na sala
(vestia como um mendigo)

disse versos disse prosas
do mais longe tempo antigo

chorou de mágoas passadas
cantou versos repartidos

dançou batuque na sala
vestido como um mendigo
e chorando sobre sonhos
e ao mesmo tempo sorrindo

disse adeus
adeus
adeus
e caiu adormecido


Glória de Sant'Anna



Poema inédito ( incluído num livro pronto) e resultante da amizade e empatia que nos reuniu em Moçambique.
Da troca de emoções literárias, de uma certa loucura do Sebastião, que quando aqui chegou, pousando sobre a relva o seu saco de mendigo me beijou a mão.
Comoveu-me revê-lo.
Ele era o mesmo por sob as rugas, o rosto devastado o cabelo cinzento e revolto.
Diniz Carneiro Gonçalves, sim.
Mas acima de tudo Sebastião Alba.
O controverso.
A grande presença revoltada.
O perturbador inesperado.
O Poeta.

Glória de Sant' Anna
Dezembro de 2003


sexta-feira, dezembro 26, 2003

/308/


CÂNTICO VERMELHO




Amo-te Felisbela
com a voz silenciada do meu sangue irmão
Da mais funda gruta de África
nosso hino rebenta florindo
os velhos jacarandás do teu país
Ordeiro, calo-me
Mas é nos teus olhos que enraízo
os meus versos salgados
neles afogo para sempre!
o orgulho que me ensinam
e de que só me defende
tua ingénua mão espancada de séculos
Amo-te Felis
com o ímpeto desses rios
que meus avós sujaram
Amo-te Felis
na cândida melodia
das marimbas do teu povo
Amo-te Felis
no ritmo da mensagem cega, pura
das canções de tuas avós violadas
Amo-te Felis
com um amor marejado de lágrimas
as mesmas, querida,
que humedeciam nos mares antigos
o brumoso convés dos seus barcos negreiros

Mas só to direi simplesmente
quando à quieta luz dos dias que hão-de vir
o meu grito de guerra e de poeta
se quebrar em tua boca enfim livre
nos beijos despidos
da vergonha que me cobre.


Sebastião Alba
ALBAS


RAFAEL - A Virgem e o Menino

quinta-feira, dezembro 25, 2003


O Guardador de Rebanhos
(1911-1912)

Alberto Caeiro



VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

quarta-feira, dezembro 24, 2003



Agapanthus White Christmas

terça-feira, dezembro 23, 2003

Natal de 71



Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena
Exorcismos

segunda-feira, dezembro 22, 2003

ANTÓNIO GEDEÃO

Dia de Natal


Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

é dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efêmera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bençãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é o da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção, é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia da Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas,
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.



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OZORNIK


ao Eugénio Lisboa



Tenho o poder em torno azul das estrelas vivas

e sei já desatar as estrelas
copiá-las das árvores

é tanta a confiança nas minhas pranchas de ar de salto
que se me sento na aragem com a perna
para fora (um arrepio rabeia nas bancadas
rima os dentes das crianças aloja o medo)
os amigos me olham distraídos
com seus pássaros ao alcance da mão

deles só o coração expiável
os consterna pulsa baixinho
desiste.


Sebastião Alba
O Ritmo do Presságio

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BLASFÉMIA


No estreito relicário que te acolhe
é-me angustioso supor
o labor das areias
na madeira.

E meu pesadelo dos pesadelos
é a iconoclasta muchém
no afã da sua lavra
orgiando-se voraz.

Blasfémia suprema
o festim.

José Craveirinha
Maria


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domingo, dezembro 21, 2003


REMBRANDT-pintura

DIÁRIO DE MIGUEL TORGA


Leiria, 13 de Outubro de 1940 - Morreu ontem Tom Mix. Dou a notícia aqui para que os vindoiros saibam ao menos o nome do maior Quixote do Far-West.

Coimbra, 23 de Outubro de 1940 - Leitura de um livro de Troyat sobre Dostoievsky.
Quanto mais sei deste génio russo, mais me sinto ligado e agradecido à benção literária que me deu quando pela primeira vez o li. Foi, cá na minha pobreza de artista, o que foi na riqueza religiosa de S. Paulo o clarão da estrada de Damasco.

Coimbra, 12 de Novembro de 1940 - Discussão a respeito de Rembrandt. Declarei que a pintura, quando mero jogo de cores, me dizia pouco. Mas gostei de ouvir as razões em contrário. Que ninguém como o holandês conseguiu valorizar pela escuridão a pureza dum brilho, dum tom, duma nuance

Coimbra, 13 de Novembro de 1940 - Tenho a impressão de que certas pessoas, se soubessem exactamente o que são e o que valem na verdade, endoideciam.
De que, se no intervalo da embófia e da importância, pudessem descer ao fundo do poço e ver a pobreza franciscana que lá vai, pediam a Deus que as metesse pela terra dentro.

Coimbra, 20 de Novembro de 1940 - Não há maneira. Por mais boa vontade que tenham todos, uma discussão nesta santa terra portuguesa acaba sempre aos berros e aos insultos. Ninguém é capaz de expor as suas razões sem a convicção de que diz a última palavra. E a desgraça é que a esta presunção do espírito se junta ainda a nossa velha tendência apostólica, que onde sente um náufrago tem de o salvar.
O resultado é tornar-se impossível qualquer colaboração nas ideias, o alargamento da cultura e de gosto, e dar-se uma trágica concentração de tudo na mesquinhez do individual.

sábado, dezembro 20, 2003

NO PRINCÍPIO


A montante Jangamo, fímbria luminosa,
ora mortiça luz bruxuleante morrendo
no longe. Mais perto, Vilanculos,
o lugar onde teria nascido. Logo
o mar, o Bazaruto, areias cintilantes,

senhoras, como estatuetas de arte déco,
roupas de musselina leve, botinas de clara
pelica (entre elas minha mãe, jovem
recém-chegada), colhendo da areia fina
pérolas imperfeitas com que enchem

os tubos vazios do «Optalidon» consumido
nas insónias da véspera. No court de ténis
o majengo agarra-se, apavorado,
à rede protectora, temendo a queda
e o futuro. Contas passadas.


Rui Knopfli
O Monhé das Cobras

CASA NA CHUVA


A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei porque voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.


Eugénio de Andrade
Trinta Poemas





XIV


Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.


Eugénio de Andrade
As Mãos e Os Frutos


quinta-feira, dezembro 18, 2003

PARA A TANIA


Nesta noite morna de luar africano
Salpicando de sombras as estradas
Eu estendo os meus braços sedentos
Para a nossa mãe África, gigante
E ergo para ti meu canto sem palavras
Suplicando bênção da terra
Para as vias dos teus caminhos
Para a rota do destino imenso
Traçado na inteireza de todo o teu ser
Para ti, a projecção das nossas estradas
Varridas da impureza dos dejectos inúteis
Para ti, o canto de glória da nossa
Mãe África dignificada.


Alda do Espírito Santo

FELICIDADE



Tristeza não tem fim
Felicidade sim...
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.
Tristeza não tem fim
Felicidade sim...
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila

Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor.
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos de minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo por favor...
Pra que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor.
Tristeza não tem fim
Felicidade sim...


Vinicius de Moraes/Tom Jobim

terça-feira, dezembro 16, 2003

Beethoven nasceu, provavelmente a 16 de dezembro de 1770.

SEBASTIÃO ALBA


/275/

A morte daquele gajo ainda me não passou. Este circuito de idiotas em Lisboa. A minha vida confundida com a deles; tudo isso e os patrões continuando, cá, e nós a servi-los. Que tal o abandono sub-reptício, só para ver como se portam destribados, sem os cavalos que somos?
-(Uma boa sonata de Beethoven ajuda a cruzar a noite...
200 anos depois, comovido.
"Sonata Primavera"; estou a ouvir o 2º movimento - dum rigor estonteante. Filho da mãe.)

Sebastião Alba
Albas



/131/


Tina:

Amanhã faço 56 anos. Dizem-me que a minha colectânea de poesias já está composta na "Assírio & Alvim". Devo isso (e o subsídio) a grandes poetas portugueses, vivos, como Herberto Helder, que só vi uma vez. Estão a preparar entrevistas. Não comparecerei. O meu despojamento é um processo de deseducação: tento identificar-me com seres como o vosso Miguel. E não consigo! Mas já só me comovo quando vejo um pobre animal atropelado, na estrada, ou oiço um dos últimos quartetos de Beethoven.

...................
.........................

Sebastião Alba
Albas


/178/
"Agarro-me a Deus como se fosse uma rocha"
(Beethoven)


Tina:

Quando a morte dos nossos pais te perturbar muito, passa por uma casa de discos, pede a "Sonata ao Luar" (não foi ele que lhe deu o título), de Beethoven. Ouve bem os acordes iniciais do 1º movimento, atenção à mão esquerda, de Beethoven...
Ele está a infundir-nos uma calma que nenhum de nós (porque não temos o seu génio) entende bem.
Mas penso que o que nos diz é: havemos de lembrar-nos tanto de ter morrido como de nascer.
Não te importes com críticas.
Lembras-te do que dizia Einstein? Com uma inteligência conceptual que excedia a de Galileu e de Newton (Einstein talvez seja o maior físico de sempre) respondeu, certa vez, à pergunta de um repórter: "desde que os matemáticos começaram a pegar na minha Teoria da Relatividade, já nem eu a entendo".

Sebastião Alba
Albas



segunda-feira, dezembro 15, 2003


Outro lobo....








LOBOS NO POVOADO

Três de frente
por muitos de fundo.
Dois de farda
por um de luto,
merramaques tristes
da tribuna crepuscular.
Tu dizes que vistes
lobos no povoado.
Na teia estão cães
de olhar bíblico
e feridas supuradas.
Rafeiros da fome,
podengos da esperança.
Tu invertes o polegar,
césar de opereta
e dizes que viste
lobos no povoado.
Os lobos são outros,
os lobos são outros,
estes, não.


Rui Knopfli

domingo, dezembro 14, 2003



"SE DA CULTURA ALEMÃ SURGIU UMA BESTA DO MAL, QUEM ESTARÁ A SALVO"

Carlos Fuentes





Saintpaulia ionantha (Violetas Africanas, Violetas do Cabo), num domingo de sol, para o Poetry Cafe, também para o R.R.R Weblog e por fim para o Silêncio.





Goya


ARRHAS POR FORO D'HESPANHA
(1371-2)

O sino das ave-marias ou da oração tinha dado na torre da sé a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de casas que, apinhadas à roda do castello e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar, aqui e acolá, as luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trévas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naqueles bons tempos, a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa e arriscada do que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da capital. O que, porém, havia ahi desacostumado e estranho eram o completo silencio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o paço d'apar S. Martinho, onde então residia elrei D. Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus e que ainda esse mar revolto não tinha inteiramente caído na calmaria e somnolencia que vem após a procella.

...............
....................
Alexandre Herculano
Lendas e Narrativas

sábado, dezembro 13, 2003


M. HOBEMMA - A Álea de Midelharnis
1689


Leiria, 17 de Março de 1940-Um domingo calmo, melancólico, a ouvir tangos tocados na vizinhança e a ler um Panorama da Música Moderna.
Ao meio-dia, numa página interior do Notícias, morreu a Selma Lagerlöf. Mas que interessa a um mundo destes a morte de uma Selma Lagerlöf?!

Miguel Torga - Diário

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Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.


Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!


Álvaro de Campos


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O VÍCIO DO TABACO



Era não!
Mas o tabaco
é um vício.

E o vício
fumado nas omoplatas
põe-nos sobre a língua a nicotina
e descerra os lábios
para o sim.


José Craveirinha
Cela 1


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sexta-feira, dezembro 12, 2003



M. DUCHAMP-Nu Descendo a Escada
1912
NO TEMPO DIVIDIDO

E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
como um monstro a si próprio se devora.


Sophia de Mello Breyner Andresen





quinta-feira, dezembro 11, 2003

OS POROS DA PESTE

/120/

Cheina:

Não te preocupes com a minha situação. Eu preparei-me para dormir ao relento. Só quando a chuva é tangida pelo vento, me atinge. Mas, na manhã seguinte, nem sequer acordo constipado. Tento libertar-me, a pouco e pouco (parece um soneto do Antero), da consciência pequeno-burguesa que me inculcaram. Não é fácil, irmão, nem pela força da cultura adquirida.
Diz ao Zé Craveirinha que resisto (embora isso não leve a nada) e afasto com a biqueira do sapato os sacos de plástico e outros resíduos desta sociedade de consumo de terceira ordem. Dá-lhe um abraço meu. Se calhar, nunca mais nos veremos. Não importa. Sacrificaram-no, mas valeu a pena.
Há um ensaio sobre ele, do Eugénio Lisboa, coligido em "Crónicas dos Anos da Peste". Tão inteligente, comovente, bom, que nenhum inspector da PIDE, teria capacidade para interrogá-lo, acerca dele.
Há guerrilheiros que pegam em armas e estão, como o "Che" Guevara, num outro escalão da humanidade.
Os demais também as disparam mas são, pura e simplesmente, assassinos.
Nós, o Rui KnOpfli, o Eugénio, o Grabato Dias éramos, parafraseando o Vinicius de Morais, os brancos mais pretos de Moçambique.
Pagámos isso caro. A PIDE não ia buscar-nos. Era um erro táctico. O Czar Nicolau não mandava deter Tolstoi (guardadas as devidas distâncias) quando o grande escritor o desafiou, perguntando-lhe por que enforcava pobres camponeses e não o ia buscar a ele.
Na RTP2, à meia noite, num programa sobre o Rui Knopfli, leram alguns poemas dele, está a morrer; arfa com as mãos enclavinhadas como garras.
Foi muito nosso amigo, nos piores tempos. Ele que chateou por escrito (e com estilo) muitos escritores, ao Toni e a mim nunca nos tocou. Pelo contrário, dedicou-nos poemas (lê Mangas Verdes com Sal) e o artigo à morte do Toni é comoventemente belo. Nasceu em 32.

Sebastião Alba
ALBAS




DISPARATES SEUS NO ÍNDICO



Depois de tão longo silêncio pedes-me notícias.
Que dizer, conjecturo, por notícias,
a quem os anos distanciaram irreparavelmente?
Que, adiposo e surdo, o verão é como
os da nossa infância, mas que o suportamos
pior, agora que se acentuam as rugas da testa,
embora o aligeirar das roupas nas raparigas
ainda acorde em nós o mesmo latejar de virilhas.
Que, pelos arrastados e emolientes fins de tarde,
sob o que sobra do hálito infernal,
ainda emparceiro com o Zé Craveirinha,
o branco e o mulato, verso e anverso
do mesmo quotidiano - diria o Carlos
- na ronda crepuscular do cio, falando eu,
irrequieto e gauche, pelos cotovelos, enquanto
ele, calado, roda na paisagem o olhar
sorna de crocodilo agachado no canavial.
Que, na argamassa complicada da cidade,
redobram os esculcas para as nossas cautelas
redobradas. Que o tempo se demora
em nossos gestos e nas palavras ciciadas.
E que o redimem as pernas altas e morenas
das adolescentes nos passeios e esplanadas.
Que, para além disso, se faz, intermetente
e sem convicção, a mesma política rarefeita de afogados,
se urdem programas e papeis esperançosos,
que os mais válidos têm sempre a coragem
de nunca assinar, pois nunca se lhes afiguram
bastante progressivos (e está salva a honra do convento!).
E que assim se desencadeia, de ordinário,
o ordeiro desagravo de muçulmanas comunidades,
asiáticas associações de benemerência
e de outras congéneres e afins. Que este
prolongamento doirado e nebuloso que excede
o extinto fulgor das caravelas é um muro
de silêncio e torna nossos gritos em grotescas
caricaturas do som. Que um cancro de areia
e letargo nos corrói, implacável, músculos e tendões
e uma paralisia sufocante se nos instila
pelo tenso cordame dos nervos em vibração.
Que se luta e morre à margem da nossa renúncia
e que a paixão é inescrutável na aparente serenidade dos rostos.
Que, todavia, há sempre bobos e piruetas à mesa do rei,
sobre que tombam o cristal das gargalhadas e mots d'esprit.
Que a minha solidão e a de meus amigos
(a parte negativa e incorrupta deste mundo),
incomóda como dor de dentes, é um bem inestimável.

Que, preservando a ardência árabe dos olhos,
já conservo a fralda da camisa dentro das calças
e tornei-me esquisito nas gravatas, nos sapatos,
nos botões de punho, nas marcas de uísque e de conhaque.
Que mantenho imperecível a fidelidade ao Amor
escamoteando-a, contudo, à cousa amada.
Que, a propósito, o racismo é agora encapotado
e confortável, residindo nos sorrisos múrmuros
e nos olhares cúmplices que se trocam em público.
Que, enfim, sob a máscara de sono e hipocrisia,
a natureza se refaz no ciclo indiferente das estações
e que, sobre nós, fina, grave e imperceptível,
cai uma poeira antiga de esquecimento.

Rui Knopfli
Mangas Verdes com Sal - 1969

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Guilhermina Suggia

quarta-feira, dezembro 10, 2003



Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
- Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha
Clepsidra


terça-feira, dezembro 09, 2003


marion kaplan



Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Dua cousa confio e desconfio.
Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.
Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e ser cativo;
Queria que visto fosse e invisível;
Queria desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!


Luís de Camões
Sonetos


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O POVO DA CHINA VISTO DO ALTO-MAÉ


Eh pá, a gente pensa na China,
nos compridos campos de arroz
e nos milhões de pessoas
vivendo lá na China.
É engraçado a gente aqui no Alto-maé
que conhece o Kong, magrinho, da hortaliça
com aquela voz engraçada (Stá plonto patlão),
é engraçado como a gente se engana
com a China, aquele povo imenso
de Kongs amarelinhos e fala doce
que construiu a Grande Muralha
e que constrói a vida
e que, se tem tempo, se ri de nós,
da nossa pele descolorida,
dos nossos olhos redondos
e dos erres engraçados com que falamos.

Rui Knopfli
Motivações


segunda-feira, dezembro 08, 2003



Era em Dezembro que Lídia sentia mais a falta de Luanda. Em Dezembro faz frio nas ruas de Lisboa. Uma chuva de teias de aranha prende-se à roupa e ao cabelo. As pessoas ficam mais amargas. Em Luanda, pelo contrário, o vigor da natureza contagia tudo. O sol arde. Os pássaros cantam de euforia. Dezembro é um mês de risos e calor - o bom calor do chão. Os homens sentam-se à sombra a beber cerveja. Conversam longamente. As comadres perdoam-se ofensas antigas. Há um esplendor de acácias rubras pelas ruas. As estrelas, como diamantes, enfeitam as noites de um brilho novo.

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José Eduardo Agualusa
Estação das Chuvas


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«Em Espanha, como em Portugal, assistimos a um desmantelamento cultural em que o mais importante é a tecnologia, esquecendo que, sem memória e cultura, não sabemos sequer quem somos. Há muitos jovens espanhóis que ignoram o facto de Portugal e Espanha terem sido um só país durante 60 anos. No entanto, se Filipe II tivesse mudado a capital para Lisboa, a História da Humanidade seria outra - juntos, teriamos derrotado os ingleses.
Por outro lado, o século XVII não só explica a Espanha e Portugal de hoje, como explica a Europa. A península Ibérica tinha então o dinheiro, a cultura, os escritores, os pintores. O Papa receava-nos e a França de Luís XIV afligia-se».

Arturo Pérez-Reverte em entrevista ao JL de 29.10.03

(Arturo Pérez-Reverte é natural de Cartagena. É aos 52 anos um dos escritores espanhóis mais lidos em todo o mundo - JL)
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domingo, dezembro 07, 2003



FLORES DE FRANGIPANI PARA A MONTANHA MÁGICA


A CONFISSÃO DO VELHO PORTUGUÊS

- Como o mar se dá bem neste lugar!
Falei assim, naquela tarde. Falava com ninguém? Não, conversava com as ondas lá em baixo. Sou português, Domingos Mourão, nome de nascença. Aqui me chamam Xidimimgo. Ganhei afecto desse rebaptismo: um nome assim evita canseira de me lembrar de mim. O senhor inspector me pede agora lembranças de curto alcance. Se quer saber, lhe conto. Tudo sempre se passou aqui, nesta varanda, por baixo desta árvore, a árvore do frangipani.
Minha vida se embebeu do perfume de suas flores brancas, de coração amarelo. Agora não cheira a nada, agora não é tempo das flores. O senhor é negro, inspector. Não pode entender como sempre amei essas árvores. É que aqui, na vossa terra, não há outras árvores que fiquem sem folhas. Só esta fica despida, faz conta está para chegar um Inverno. Quando vim para África, deixei de sentir o Outono. Era como se o tempo não andasse, como se fosse sempre a mesma estação. Só o frangipani me devolvia esse sentimento do passar do tempo.
Não que eu hoje precise de sentir nenhuma passagem dos dias. Mas o perfume desta varanda me cura nostalgias dos tempos que vivi em Moçambique. E que tempos foram esses!

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A Varanda do Frangipani
Mia Couto

sábado, dezembro 06, 2003

POR UM TRIZ


Todas as noites me despeço
de mim. O dorso afunda-se.
O bulício, os relógios
prosseguem por fora.
Nenhum antegosto
ou prelúdio do fim.
Minha energia
aflui, reúne-me? Na órbita
do sono, some-se e resplandece
intermitentemente, a
máscara mortuária.


Sebastião Alba
A Noite Dividida

310 . Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.
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Todo o esforço é um crime porque todo o gesto é um sonho morto.
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Fernando Pessoa
Livro do Desassossego


121 . Como todo o indíviduo de grande mobilidade mental, tenho um amor orgânico e fatal à fixação. Abomino a vida nova e o lugar desconhecido.

Fernando Pessoa
Livro do Desassossego


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sexta-feira, dezembro 05, 2003

A POMBA




Pontos de vista
entrecruzam as balas
e nós ensaiamos a pomba
desenhando-a encurvando-lhe
o dorso antes do voo
largando-a no prisma puro
dos olhares da multidão
Logo uma estrela fugaz
se lhe cola ao bico
Rodopiará no céu entre colunas
colossais de cogumelos
e sóis que a inflectem
mas bem aninhada no oco
habitáculo de penas
com a chave em nossa mão.


Sebastião Alba


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NÃO TE ESQUEÇAS NUNCA


Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina
O pinhal a coluna a veemência divina
O templo e teatro o rolar de uma pinha
O ar cheirava a mel a pedra a resina
Na estátua morava tua nudez marinha
Sob o sol azul e a veemência divina

Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima
O horror o terror a suprema ignomínia

Sophia de Mello breyner Andresen

quinta-feira, dezembro 04, 2003

O SAL DA LÍNGUA




Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.


Eugénio de Andrade


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Esperar pelo melhor e preparar-se para o pior: eis a regra
.
Fernando Pessoa


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quarta-feira, dezembro 03, 2003



Trem de Ferro


Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...


Manuel Bandeira

GLOSA



«Dá a surpresa de ser
É alta de um loiro escuro» - F.PESSOA



Dá a surpresa de ser
É alto de um loiro escuro
Faz bem só pensar em ver
Seu gesto firme e seguro

Tem qualquer coisa de mastro
Tem qualquer coisa de sol
Saber que existe sossega
Como no mar o farol

Há qualquer coisa de rude
Em sua beleza extrema
Como o sabor a crueza
Que há no dentro do poema

Tem qualquer coisa de limpo
Apetece como o sal
Espanta que seja real
Sua perfeição de Olimpo

Há qualquer coisa de toiro
Na largura dos seus ombros
Navegam brilhos e assombros
No obscuro do seu loiro.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Ilhas


CAMINHAR

Cheguei para sempre a este jardim. Era este o jardim dos meus sonhos. Estou como se olhasse à minha volta. Vejo estas árvores como se recordasse o jardim de outrora. Eu sonhava. Este era o lugar onde havia uma luz que se estendia entre as plantas e que era o último início da luz.

.........
............
José Luís Peixoto
Antídoto

reencontros


não sei se te encontrarás algum dia e se me vires não digas palavra. saberei dizer-te no olhar o que me escondeste dos olhos e da voz calada sentirás o poema da partida. se disseres chegada guardarei nas mãos todo o tempo de dar. esperei todos os dias pela claridade, mas amanhã de manhã não voltou. e a noite se fez dia e madrugada outra melodia e eu sem nada.


Sidónio Bettencourt
Deserto de Todas as Chuvas

terça-feira, dezembro 02, 2003



ÁRVORES


Árvores negras que falais ao meu ouvido,
Folhas que não dormis, cheias de febre,
Que adeus é este adeus que me despede
E este pedido sem fim que o vento perde
E esta voz que implora, implora sempre
Sem que ninguém lhe tenha respondido?...


Sophia de Mello Breyner Andresen
Coral

INVENTEI


Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Coral

segunda-feira, dezembro 01, 2003






Aquela mulher que rasga a noite
com seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta

Paula Tavares
O Lago da Lua


Violetas Africanas Para Um Dia de Sol

Violetas Africanas Para Um Dia de Sol

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