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sábado, novembro 29, 2003

Ontem fui à Feira do Livro de Coimbra que decorre na Casa da Cultura e no espaço de meia hora consegui escolher quatro livros. Gostaria de lá ter ficado muito mais tempo, mas não foi possível. Milhares de livros exigem umas horas de busca. Valeu a pena a ida só pelo "O ritmo do Presságio" de Sebastião Alba. Encontrei-o junto de outros autores de literatura africana. Havia dois exemplares. Trouxe um deles. Deixo hoje mais poemas desse livro. E quadros de Van-Gogh.

Ciprestes - Van gogh

UM LEÃO LADEIA


Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro
Séculos e séculos esbatem
o relevo das garras
nas esferas de pedra
Quem o olha imoboliza-se
vendo-o com uma esfíngica
expressão de antiguidade
Nos globos oculares que a areia corroeu
há mesmo um gladiador espelhado
E nem a juba se acama, dócil
à ideia de que a tua mão a acaricia
Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro.


Auto-retrato    Van Gogh

CIDADE BAIXA

Nas manhãs em que o mar se recusa
mesmo do último andar do edifício
e o aroma do café
sai de chávenas conjugais nas outras flats
confidencio-me:
Passa à escolha doutro dia
este é com uma sombra
de pé, na cidade
e a cidade é o mundo.
Peço então ajuda
aos amigos mais desencontrados:
Socorro, Eugénio! Socorro, Fernando!
Carlos (Drummond), socorro!
E o meu grito é um cicio fixo
no pesadelo em que nada transcorre.
Mas os seus rostos
rodeiam-me a cabeceira
e eu aprendo neles devagarinho
o sorriso que deixa
a vida irrecuperável.

Van Gogh - Eglise

ESPLANADA


Como o copo que se eleva lentamente
glacial, numa tarde de remorso,
os teus beijos duma grande difusão clara,
e o fumo dum cigarro à procura
dum ponto no mar.


Da contra-capa: " Chamo-me DINIS ALBANO CARNEIRO GONÇALVES, nasci em Braga, a 11 de Março de 1940.
Cheguei a Moçambique há 30 anos.
Alba era uma canção provençal. Culminava com a despedida dos dois amantes, ao amanhecer. Um dos primeiros poemas que escrevi tinha o título «Eu, a canção». Escrevo com terrível dificuldade: rescrevo, colo, interpolo, publico um poema como quem o espelha. Armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que o indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se."



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