Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

sábado, novembro 01, 2003



O texto que se segue encontra-se publicado na revista LER numero 60 da Fundacao Ci­rculo de Leitores.

RUI KNOPFLI

Em 1982, a INCM publicou Memoria Consentida. Vinte Anos de Poesia 1959/1979, de Rui Knopfli [1932-1997]. O volume faz parte da colecçaoo "Biblioteca de Autores Portugueses". Em 1984, outra obra do autor, O Corpo de Atena - que recebeu o premio do PEN Clube -, saiu na mesma colecçao. Agora, morto o poeta, e sem motivo plausi­vel, a Obra Poetica aparece inserida na colecçao "Escritores dos Paises de Li­­ngua Portuguesa".
Dirao os cínicos que se trata de despromoção objectiva. A mim causa-me perplexidade, porque nao encontro explição para o facto. Mesmo que o poeta tenha deixado claro: "pátria é só a li­ngua em que me digo." (p. 380).
A verdade é que à proverbial dificuldade em aceder às edições da INCM, praticamente confinadas à  rede de livrarias próprias, factor de dissuasão para o grande público, acresce o menor interesse por uma colecção em larga medida direccionada para o exí­guo mercado dos estudos africanos. É claro que a reunião da obra completa de Rui Knopfli é sempre de saudar, e neste caso duplamente de saudar, graças ao magní­fico estudo introdutório de Lui­s de Sousa Rebelo, que refez o prefácio de Memória Consentida. Como Rebelo já entao notara, subsiste, por parte de "alguns críticos de carteira, ou com tribuna própria e respeitada na imprensa periódica [...] uma vaga e subliminal resistência na adesão cabal a uma obra que se não sabe como situar dentro dos discursos poéticos vigentes na lingua portuguesa". (p. 8).
É naturalmente dos anos 1960 e 1970 que Rebelo fala, mas o diagnóstico vale para as décadas seguintes. Knopfli passou sempre ao largo do cânone do Chiado. E o facto de ser um dos poetas sujeitos a close reading na antologia Século de Ouro - Antologia Crí­tica da Poesia Portuguesa do Século XX (2002) perturba espÃíritos pouco ecuménicos. O cliché de que Knopfli seria um escritor moçambicano tem servido de Álibi para todo o tipo de omissão. Mesmo nos casos isentos de má-fé, o disparate tão rotundo. a nenhum inglès culto ocorreria argumentar que Thackeray, Kipling ou Orwell são escritores indianos! Tal como Camus e Derrida não são escitores argelinos. E Marguerite-Duras não é uma escritora indochinesa. É verdade que Rui Knopfli nasceu em Moçambique, mais exactamente em Inhambane, no dia 10 de Agosto de 1932. E era uma criança quando a famí­lia se transferiu para Lourenço Marques , e um adolescente de 17 anos quando começou a escrever no Itinerá¡rio, um mensário de oposição ao regime colonial.
Depois, a pretexto de estudos, passou parte dos anos 1950 na África do Sul:

"O meu Paris é Johannesburg,
um Paris certamente menos luz,
mais barato e provinciano.
Mas Johannesburg lembra-me o Paris
que não conheço: o mesmo movimento
endemoninhado, as luvas brancas
do polícia sinaleiro, o brilho das montras,
a cor da moda, os mesmos amorosos
que se beijam sem pudor nos bancos
das áleas ensolaradas, o Sena
que não há e a Torre Eiffel
que também não[...]
À noite janto no Montparnasse
de Hilbrow, que é o Quartier Latin
do sítio e olho essas mulheres
excêntricas e belí­ssimas
de pullover e slacks helanca[...]
Olho também esses efebos de pálpebras
cendradas, com os ademanes e o ar triste
de quem vive na perplexidade dos sexos.
Depois do turkish coffee meto-me
até ao Cul de Sac e fico-me
a ouvir o sax maravilhado
de Kippie Moeketsi. O jazz, sim,
É genuíno e tem um bite
todo local [...]
Aqui ninguém sabe quem sou,
aqui a minha importância é zero.
Em Paris também."
(pp 201-202).

Quando estes versos foram escritos, e mesmo quando foram publicados, o dogma da experimentação semântica afastava os poetas portugueses da crónica do quotidiano. Pode por isso dizer-se, sem risco de controvérsia, que Knopfli antecipou o "regresso ao real" que só na segunda metade dos anos 1970 faria a ruptura com o diktat de Poesia 61. Isso foi notório logo em 1969, ano da publicação de Mangas Verdes com Sal - que teria uma 2ª ediçãoo alargada em 1972 - e também no livro derradeiro, O Monhé das Cobras (1997). Na primeira fase da obra, aquela que vai de O Paí­s dos Outros (1959) a Máquina de Areia (1964), sobreleva a angústia do estrangeiro. Tivesse sido outra consciência crítica dos coevos, e o premonitório tí­tulo do livro de estreia agitaria o sossego da Colónia:

"Num céu de chumbo e baionetas
caladas [...]
se anuncia a cólera
do tempo [...).
Por enquanto mais nada, senão
o torvo tinir dos talheres
no banquete da morte impossí­vel."
(p. 37)

António Ramos Rosa deu por isso e, na Seara Nova, falou de agresividade corrosiva, sarcasmo e rudeza viril. O tom profético trouxe à poesia portuguesa o leitmotiv da questão colonial:

"Da granada deflagrada no meio
de nós, do fosso aberto, da vala,
intransponí­vel, não nos cabe
a culpa, embora a tua mão,
armada pelo meu silêncio,
lhe tenha retirado a espoleta (p. 271).
Nos livros da diáspora a que o coagiram "os ventos da História e a vontade própria" (p. 413), em especial O Escriba Acocorado (1978), notável "memorial privado de uma história colectiva" (p. 18), Knopfli deixa um recado à posteridade: "Servidor incorruptí­vel da verdade e da memória,
escrevo sentado e obscuro palavras terrí­veis
de ignomínia e acusação [...)
venho de longe, no verbo latino, no axioma
grego, fui escravo no Egipto, homens

morreram a meu lado e vendo-lhes os olhos
agónicos e súplices, voltei horrorizado o rosto [...)
A História que há-de ler-se é por mim escrita.
Anonimato igual nos cobrirá. A estas palavras não." (pp. 377-378).

Acabara o tempo dos heróis. O mito homérico não:

"Outro ano, outro Abril sem amenidades.
Pai, a tua lembrança e a lenta dinâmica
corruptora do tempo [...]
Em breve choraremos Heitor, Pai,

Sobre ele se abaterá a ira
implacável de Aquiles, o instante
percutido até à  eternidade. No gineceu
Hécuba, absorta e envelhecida, lê
horas a fio, de Hermann Broch
a James Hadley Chase [...]
As armas
refulgindo dentro do fogo, o olhar
esventrado da Hécuba e nos teus
olhos atónitos, Pai, no descolorido
das tuas pupilas inertes, uma agonia
impartilhável [...]
e em mim não dormirá o esquecimento.
Restos de endométrio, pista sanguinolenta
que obscura e descomunal vagina
tivesse vazado pelo solo de escalracho,
eis o derradeiro rasto do herói." (pp. 383-385)
Do mesmo passo, Knopfli foi reflectindo sobre a aventura da linguagem:

" Na exactidão vocabular se articula o discurso.
Tenho só este exí­guo e perplexo pecúlio
de palavras à beira do silêncio [...]
Nenhum inferno é maior que o da voz traí­da
e nenhum bem vale o da sua integridade." (pp. 430-431).

Na sequência do affaire Macintosh (que tornou público no jornal de que era director, contrariando normas censórias do alto-comissário português), Knopfli foi obrigado a deixar Moçambique em 24 horas. Estamos em 1975:

"É o fatí­dico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que no.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais elegíveis [...]

Não quero lembrar-me do nada [...] sobrevirei
apenas no precário registo das palavras." (p. 516)

O exí­lio em Londres, 22 solitários anos (1975-1997) entre Knightsbridge e Belgrave Square, afastam-no definitivamente da pátria literária. Predecessores óbvios, Gerard Manley Hopkins e Eliot, tanto quanto Drumond e João Cabral de Melo Neto, não o são menos que Sá de Miranda e Camões:

"Aqui deixo os mortos que me pertencem e os vivos
com que me reparto. Céo do Nilo, sobreviverei bebendo
na corrida, entre o ranger metálico das culatras
e o bafo cálido da pólvora [...]
O cabo
enfreia a costa que do austro vinha correndo.
Em temporais, vento e névoa, para sempre
mergulhará o continente [...]
Pai, entre os torpes,
fumegantes destroços do Império, teu filho esconde
o rosto e esgueira-se furtivo pelas malhas da diáspora." (pp. 392-393).

De regresso a Portugal no Verão de 1997, breví­ssimo entreacto antes do "fogo purificador" (p. 525),
Knopfli revisita os lugares da infância - "Je suis d'une enfance comme d'un pays...", lembra Saint-Exupéry - que foi sua: o mítico monhé das cobras, com suas "pernas magras e finas
de esquálido aracnídeo" (p.487), quintais repletos de mistério, como o de
"Hugh Lemay
agente transitário (e secreto) de Sua Magestade) (p. 495), ou o
"percutir
seco das bolas de ténis" (p. 498) no Jardim Vasco da Gama.

Aguda consciência do fim:

"Vão repondo a tragédia, ano após ano
e eu, obstinadamente, a perseguir
o papel que persisto ali me competia
para além de espectador passivo.

Rosencrantz? Guildenstern? A nem tanto
ambicionaria [...]
Estava-me reservada a derradeira,irrecusável
apoteose: serei Yorick, o jogral amigo." (p. 526).

Knopfli morreu em Lisboa , no dia 25 de Dezembro de 1997. Mas regressou ao Alentejo onde tudo terá começado:

"Páro diante do jazigo de família, Vila Viçosa [...]
Afinal tudo
principiou aqui. O apelido seria, puramente como outros, alentejano,
não fora a incursão oportunista
do estrangeiro, que perturbaria o resto,
confundindo o futuro e as interpretações [...] pertencemos todos a esta África lusitana

que pelas outras se expandiria. Por estas
andámos perdidos, ignorando então
que a passagem obrigava ao regresso. Não
fora isso e seria apenas o poeta local, sobrenome
Rosa, aguardando o lugar que lhe caberia." (p. 527)

O testemunho (testamento?) é indesmenti­vel.
A fechar, uma pergunta: porquê Obra Poética por Rui Knopfli - como vem na capa, na lombada e no frontispício -, em vez de Obra Poética de Rui Knopfi? A preposição é manifestamente inadequada.


Eduardo Pitta in LER - Outono 2003

(Nota: por razões que desconheço, o texto modificou-se periodicamente; a pouco e pouco o fui emendando; poderá existir alguma inexactidão numa ou noutra palavra. Melhor será ler o original e ler a LER)
------------------------------------------------------------------



Comments:
<$BlogCommentBody$>
<$BlogCommentDeleteIcon$>

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

on-line