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sexta-feira, novembro 14, 2003



O APANHADOR DE OSSOS


No céu um número infinito de pontos brilhantes. A noite vai adiantada. Os sapos coaxam sem parar, os grilos berram estridentemente sabendo que nunca os vamos encontrar, os mosquitos zunem perto demais, a lua cheia é tão luminosa que inunda completamente tudo de luz e de tal modo, que cá fora, não são precisos os candeeiros da rua e da casa para nos vermos uns aos outros. O calor nem de noite desaparece. Dentro de quatro paredes é como se estivéssemos numa estufa húmida e quente, por isso ficamos sempre no jardim até muito tarde, retardando o mais possível o inferno do forno que é a casa.
A conversa é de ocasião, das coisas do dia, do passado, do futuro, de banalidades, e no espaço de segundos, quase sem saber como, ouve-se que aconteceu, aconteceu qualquer coisa, algo que não deve ser contado mas de que já se levantou o véu, e de que não se pode dizer mais nada. Naquele tempo era assim. Naquele tempo era proibido falar de guerra.
Insiste-se, mas o que foi, o que aconteceu, que coisa tão terrível foi essa? E a resposta vem velada, suficientemente clara para se ficar a saber que morreu muita gente, muita gente, lá longe, tão longe, que nem se viu nem ouviu nada, por causa da lonjura. É proibido comentar o assunto em público, como é interdito ouvir a rádio do outro lado, situada num país estrangeiro ou no próprio, quem sabe? Fala-se de aviões de guerra, de helicópteros, de bombas, de morte. Quem conta, é como se contasse um conto, um velho e inevitável conto, um conto em que não se acredita, mas que a ser verdade, nos será cobrado mais tarde ou mais cedo, a nós todos, gente de um mesmo lugar, de um mesmo país. Pergunta-se, mas foi preciso fazer tal coisa? Responde alguém que é a única maneira de as fazer, as coisas, deste modo violento. Imediato protesto dos outros. Impossível ser essa a única solução. Muitos anos mais tarde, esta mesma pergunta seria feita, depois de uma mudança radical da situação política daquele país e a propósito de muitas e repetidas transgressões dos direitos humanos, e a resposta veio exactamente a mesma: que era assim que devia ser feito. Dizíamos que nunca nos tínhamos imaginado a viver em terra de justiça popular, pena de morte e vinganças pessoais. É o velho hábito da necessidade da força para responder a um qualquer desafio, para alcançar objectivos. O velho hábito de fazer, porque sim. O velho hábito de obedecer, porque se é obrigado. O velho hábito de usar e silenciar inocentes. O velho hábito de deixar fazer. O velho hábito de deixar as coisas acontecerem ao longe e aos outros. O velho, estranho e macabro hábito da guerra.
No ano de mil novecentos e noventa e oito, no mês onze, encaixada num vidro de televisão, mal suspeitando disso e de que lá fora o céu está também tão bonito como vinte e seis anos antes, uma mulher, vestida na sua tradicional capulana*, de lenço amarrado um pouco acima da testa, quem sabe se para adorno, se para guardar as moedas e notas, ou o cigarro apagado, quem sabe para que serve um lenço assim posto se não é de certeza para segurar madeixas, fala de cara séria, sem sorrir, sem rir. Os traços do seu rosto são bem expressivos. A inevitabilidade das vidas que se cruzam de perto com a História, marcou-lhe na face a máscara dura da raiva, ou da fatalidade. Não ri, conta como foi. Conta que eram cinco, brancos e pretos. Eram cinco e diz que estava com medo, dos tiros, das granadas, dos bombardeamentos, dos gritos que ouvia vindos da aldeia, da guerra ali tão perto, mas sobretudo, estava com medo dos cinco homens perto de si, porque não riam, e diz, que quem não ri mata. Não é? Pergunta. Quem não ri mata. E repete várias vezes a mesma certeza, não rindo também.
Vinte e seis anos depois, fala-se do assunto para todos ouvirem. Em público, para milhões de pessoas. Já se pode falar às claras do que foi designado pelo nome certo: massacre.
Dos que testemunharam e relataram o que aconteceu naquele ano de mil novecentos e setenta e dois, ninguém riu. Não riu a mulher que teve medo dos cinco homens. Não riu a mulher que levava a criança às costas e não se deu conta que tinha um cadáver em cima de si. Não riu o homem que contou que queria salvar a irmã e que não o fez, porque ela não tinha olhos, nem boca e assim sendo não fazia sentido pegar-lhe ao colo e levá-la para um qualquer lugar abrigado. De que lhe servia viver sem olhos e sem boca? Não riu o velho que viu os aviões e os helicópteros a despejarem bombas e homens e viu as casas incendiadas. Não riu o homem novo que escapou, porque era criança e na sua fuga as balas não o encontraram. A este, ficaram-lhe os olhos raiados de vermelho, da cor do fogo e do sangue e a expressão fechada, de quem não ri quando fala do que aconteceu. Restou-lhe a sina de ser apanhador dos ossos que ficaram espalhados por todo o lado e que nunca mais acabam. Vinte e seis anos depois. Aparecem nos matos em redor, nascem do chão. A sua missão é descobri-los e juntá-los na pilha que se foi formando no monumento que anos mais tarde se mandou edificar. Monumento evocativo do massacre. Hoje, finalmente em tempo de paz, que parecia ser impossível de alcançar, juntam-se os restos dos que sucumbiram em mil novecentos e setenta e dois.
Este relato tem época e lugar mas é também sem tempo e sem pátria. É de há muito e de agora. Hoje mesmo volta a acontecer, em Timor, na Jugoslávia, em Angola, em Cachemira, no Sudão, no Iraque.
Também agora, nos sentamos nos jardins cheios de cores desta primavera de prodígios, nos maravilhamos com a beleza deste cantinho à beira mar plantado, a que o poeta deu o nome de rosto da Europa. Agora, como em mil novecentos e setenta e dois, debaixo do mesmo céu, debaixo da mesma paz, ainda se ouvem os ecos da guerra. As perguntas e as perplexidades voltam a ser as mesmas. Até que um dia, quem sabe, seremos nós os outros, aqueles que estão longe, os que são hoje as vítimas. E ficaremos atónitos ao descobrir que o centro do mundo não é o chão que pisamos todos os dias, nem o lugar em que vivemos, que chegou a nossa vez, que fazemos também parte do universo e que um dia haverá um qualquer apanhador dos nossos ossos, de olhos raiados de vermelho, que nunca poderá rir, um apanhador dos nossos ossos já cobertos pela terra, pelo mato, pela guerra, e que com as tempestades virão à superfície.
Por agora, é certo, vai acontecer que Timor, depois de findarem os tempos de sofrimentos passados, presentes e futuros, vai ter a sua liberdade e à sombra dela, e em português, conversaremos debaixo da acácia rubra de Ruy Cinatti, nosso poeta, que assim começava a mensagem « Em Díli, num café, tantos de tal...// Venho aqui dizer/ antes que seja tarde. /Disto sabem tudo/ os metropolitas./ Ocultam-no - também cá se sabe.// Timor pertence aos Timorenses......» em “carta para quaisquer snrs. deputados”. Tão longe se fala e pensa em português, tão longe terá de ir o apanhador de ossos!
Eh! lá, apanhador de ossos! Voaram pelos céus os lançadores de fogo, explodiram entre a gente simples os mil estrondos, e os incontáveis projécteis não escolheram alvos, antes se desviaram por puro engano e encontraram quem menos esperava por eles, nas montanhas, nas estradas, nas casas. Já os treinados para a guerra, de armas na mão, onde desde há séculos vão buscar a força da repressão, armas apontadas para os que fugiam, dizimaram quem tentava escapar da barbárie, concentrando-os em campos, perseguindo-os até ao fim dos caminhos, expulsando-os das suas casas.
Eh! lá, homem de olhos raiados de sangue, apanhador de ossos, virá a época da grande colheita. Da recolha daqueles que ficaram nas montanhas, à beira dos caminhos, debaixo da neve, sob os escombros das casas destruídas.
Este foi o tempo de queimar a terra e as gentes, de desfazer aldeias, cidades, campos, pontes, estradas. O tempo foi e é de espantos. Foi o tempo da guerra na velha Europa. Agora, não em África, como em mil novecentos e setenta e dois.
Depois deste tempo, daqui a quanto tempo? poderás, afincadamente, apanhar os brancos ossos destes quotidianos massacres e com eles edificar um monumento aos mortos desta guerra que uns chamam de cruzada e outros de desnecessária e cruel.

1998, Novembro


* capulana - pano de algodão com motivos coloridos, que em África se utiliza diariamente em volta do corpo, com arreigado peso tradicional.

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