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terça-feira, novembro 11, 2003




A DESCOBERTA DA ROSA



Dez anos de poesia, fora a gaveta
e descubro que, a não ser ocasionalmente
e em ar de troça, jamais me debrucei
deveras sobre o tema da rosa. De resto
eram para mim, creio, marginais as flores.
Vícios de formação e juventude,
uma tão intensa preocupação do humano
que olvidei a discreta angústia da rosa.
Outros, não o ignoro, nela tiveram seu princípio
para a deixarem depois esquecida entre as páginas
de um qualquer velho livro, tão cheios eles,
de ternura e simpatia fraternas, coisas
que já eludem este coração envilecido.
Salvo o devido respeito por tudo quanto é útil
e estimável na terra, faltam-me o tempo
e o ânimo para as empreitadas mais ingentes.
E o pouco que me sobra tenciono aplicá-lo
em tarefas humildes como o cultivo
destes versos, algum súbito amor inadíavel
e a lenta e minuciosa descoberta da rosa.


Rui Knopfli


TRANSMUTAÇÃO DE UM POEMA DE ARQUÍLOCO DE PAROS

Seus dedos leves adejavam
sobre as rosas
como se brincassem.

Sobre a nuca e o pescoço alto
agitava-lhe a brisa
os cabelos escuros.

E neles bricava
a luz maravilhada.

Rui Knopfli


ROSA DO MUNDO



Rosa. Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.

Primeiro orvalho sobre o rosto.
Que foi pétala
a pétala lenço de soluços.

Obscena rosa. Repartida.
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.

Quase nada.




Eugénio de Andrade

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