Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

domingo, novembro 30, 2003

ÍCARO


para o Zé Craveirinha

Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida


Sebastião Alba

sábado, novembro 29, 2003



Economia - A FRONTEIRA DA CULTURA

Texto apresentado por Mia Couto na AMECON.

De novo com o poeta Sebastião Alba, no Silêncio. Um belo encontro.

Encontrei agora, por intermédio do Almocreve das Petas,, uma referência ao poeta Sebastião Alba, na Janela Indiscreta.

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Ontem fui à Feira do Livro de Coimbra que decorre na Casa da Cultura e no espaço de meia hora consegui escolher quatro livros. Gostaria de lá ter ficado muito mais tempo, mas não foi possível. Milhares de livros exigem umas horas de busca. Valeu a pena a ida só pelo "O ritmo do Presságio" de Sebastião Alba. Encontrei-o junto de outros autores de literatura africana. Havia dois exemplares. Trouxe um deles. Deixo hoje mais poemas desse livro. E quadros de Van-Gogh.

Ciprestes - Van gogh

UM LEÃO LADEIA


Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro
Séculos e séculos esbatem
o relevo das garras
nas esferas de pedra
Quem o olha imoboliza-se
vendo-o com uma esfíngica
expressão de antiguidade
Nos globos oculares que a areia corroeu
há mesmo um gladiador espelhado
E nem a juba se acama, dócil
à ideia de que a tua mão a acaricia
Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro.


Auto-retrato    Van Gogh

CIDADE BAIXA

Nas manhãs em que o mar se recusa
mesmo do último andar do edifício
e o aroma do café
sai de chávenas conjugais nas outras flats
confidencio-me:
Passa à escolha doutro dia
este é com uma sombra
de pé, na cidade
e a cidade é o mundo.
Peço então ajuda
aos amigos mais desencontrados:
Socorro, Eugénio! Socorro, Fernando!
Carlos (Drummond), socorro!
E o meu grito é um cicio fixo
no pesadelo em que nada transcorre.
Mas os seus rostos
rodeiam-me a cabeceira
e eu aprendo neles devagarinho
o sorriso que deixa
a vida irrecuperável.

Van Gogh - Eglise

ESPLANADA


Como o copo que se eleva lentamente
glacial, numa tarde de remorso,
os teus beijos duma grande difusão clara,
e o fumo dum cigarro à procura
dum ponto no mar.


Da contra-capa: " Chamo-me DINIS ALBANO CARNEIRO GONÇALVES, nasci em Braga, a 11 de Março de 1940.
Cheguei a Moçambique há 30 anos.
Alba era uma canção provençal. Culminava com a despedida dos dois amantes, ao amanhecer. Um dos primeiros poemas que escrevi tinha o título «Eu, a canção». Escrevo com terrível dificuldade: rescrevo, colo, interpolo, publico um poema como quem o espelha. Armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que o indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se."



quinta-feira, novembro 27, 2003



CIRCULAMOS EMBOLSADOS


Circulamos embolsados
em automóveis de luxo

Nas portas surdas
os fechos
são linhas a níquel a traçar o limite
dos peões ocasionais

O espaldar desune
anula o solavanco
reduz a área exposta

Esguichos lavam
pára-brisas que a gargalhada abaula
Clareiam as estradas

Só o retrovisor
Lembra o caminho andado
a um olho reflectindo
de quem guia

Trémulo o chassis
pressagia
as roturas
os sulcos dos freios
a divulgação do desastre

Mas real e criada
no bolso de Picasso
uma pomba de bico florido
suja por inocência os tejadilhos.


Sebastião Alba
O Ritmo do Presságio


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Eu naveguei pelo interior de um longo rio humano
de tempos diversos onde também há sangue vegetal,
buscando o que acabei por encontrar - a imensa
angústia que se reparte.

Sobre isso escrevo.

Mas cuidado: a música da palavra é um casulo de
seda. Só dobando-o com olhos atentos se chega à
verdade - a solidão ansiosa e disponível.

No entanto, que cada um faça a sua leitura.


Glória de Sant'Anna


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O GÉNERO

Cada vez mais me envaidece
a honra imerecida de pertencer
à maioria em que me
confinam.

Patético cidadão chateado
recopio a rigor
o género Zé Craveirinha.

José Craveirinha
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terça-feira, novembro 25, 2003



Escrevências desinventosas


Estava já eu predisposto a escrever mais uma crónica quando recebo a ordem: não se pode inventar palavra. Não sou homem de argumento e, por isso, me deixei. Siga-se o código e calendário das palavras, a gramatical e dicionárica língua. Mas ainda, a ordem era perguntosa: "já não há respeito pela língua-materna?"
Não é que eu tivesse intenção de inventar palavras. Até porque acho que palavra descobre-se, não se inventa. Mas a ordem me deixou desesfeliz. Primeiro: porquê meter a mãe no assunto? Por acaso sou filho de língua, eu? Se nasci, mesmo inicialmente, foi de duplo serviço genético, obra inteira. Segundo: sou um homem obeditoso aos mandos. Resumo-me: sou um obeditado.Quando escrevo olho a frase como se ela estivesse de balalaica, respeitosa. É uma escrita disciplinada: levanta-se para tomar palavra, no início das orações. Maiusculiza-se deferente. E, em cada pausa, se ajoelha nas vírgulas. Nunca ponho três pontos que é para não pecar de insinuência. Escrita assim, penteada e engomada, nem sexo tem. Agora acusar-me de inventeiro, isso é que não. Porque sei muito bem o perigo da imagináutica. Ás duas por triz basta uma simples letra para alterar tudo. Um pequeno «d» muda o esperto em desperto. Um simples «f» vira o útil em fútil. E outros tantíssimos, infindáveis exemplos.
Afinal de contas, quem imagina é porque não se conforma com o real estado da realidade. E nós devemos estar para a realidade como o tijolo está para a parede: a linha certa, a aresta medida. Entijole-se o homem com tendência a imaginescências.
Voltando à língua fria: não será que o português não está já feito, completo, made in e tudo? Porquê esta mania de usar os caminhos, levantando poeira sem a devida direcção? Estrada civilizada é a que tem polícia, sirenes serenando os trânsitos. Caso senão, intransitam-se as vias, cada um conduzindo mais por desejo que por obediência.
Estraga-se a decência, o puro sangue do idioma. E porquê? Por causa dessas contribuições dispérsicas que chegam à língua sem atestado nem guia de marcha. Devia exigir-se, à entrada da língua um boletim de inspecção. E montavam-se postos de controlo, vigilanciosos.
Se forem criados tais posto eu mesmo me voluntario. Uma espécie de milícia da língua, com braçadeira, a mandar parar falantes e escreventes. A revistar-lhes o vocabulário, a inspeccionar-lhes o saco da gramática.
- Vem de onde essa palavra?
E mesmo antes da resposta, eu, arrogancioso:
- Não pode passar. Deixa ficar tudo aqui no posto.
Os queixosos, nas cartas dos leitores, reclamando. E eu, abusando dos abusos, rindo-me deles. Mas não me divertindo de alma inteira, não. Porque a vida é uma grande fábrica de imagineiros e há muita estrada para poucos postos vigilentos.
Mas, em escrevendo «deter gente» eu me lembro de «detergente». Sim, escrevo sério. Um produto que lavasse a língua de sujidades e impurezas. Pegava-se no idioma, lavava-se bem, desinfectava-se. Depois, para não apodrecer, guardava-se no gelo, frigorificado.
Porque isto de falar ou escrever tem de ser dentro das margens. Como um rio manso e leve, tão educado que não acorde poeiras do fundo. Um rio que passe com essa eterna transparência que, verdade autografada, só a morte possui. Seja então a pureza pela morte trazida e por ela conservada.



Mia Couto
Cronicando





segunda-feira, novembro 24, 2003




À SOMBRA DE HOMERO


É mortal este agosto - o seu ardor
sobe os degraus todos da noite,
não me deixa dormir.
Abro o livro sempre à mão na súplica
de Príamo - mas quando
o impetuoso Aquiles ordena ao velho
rei que não lhe atormente mais
o coração, paro de ler.
A manhã tardava. Como dormir
à sombra atormentada
de um velho no limir da morte?,
ou com as lágrimas de Aquiles,
na alma, pelo amigo
a quem dera há pouco sepultura?
Como dormir às portas da velhice
com esse peso sobre o coração?


Eugénio de Andrade

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POEMA PERDIDO


Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.


Sophia de Mello Breyner Andresen



E SÓ ENTÃO


E só então saí das minhas trevas:
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-me e morriam.

Dia perfeito inteiro e luminoso.
Dia presente como a morte - luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.


Sophia de Mello Breyner Andresen


domingo, novembro 23, 2003


No lugar de Nguézi há uma palmeira sagrada, dizem que nascida antes do mundo. Do colmo pende um único fruto, de aparência estranha e que nunca pode ser olhado. Porque, segundo a lenda, os olhos que ali apontem se enchem de estrelas mais que as que poeiram a própria noite.
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Mia Couto
Contos do Nascer da Terra

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sábado, novembro 22, 2003

- Padre: me dê a dissolvição.
O padre Ludmilo nem corrigiu. Se fosse a corrigir, disse ele mais tarde, teria que corrigir não a frase mas o homem. Pois, o visitante embriaguava a completa mistura da língua, aos tropeços nas rezas: "patrão nosso que estais no Céu, o pão vosso de cada dia, Deus seja lavado".
Era um delituoso, se via pelo aspecto. Se dispunha na sagrada casa de Deus cheio de sem-maneiras, desatacador. Enquanto amolecia conversa, o padre espreitava o confessionista. E reparou a catana presa na botifarra do jovem bandido.
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Mia Couto
Contos do Nascer da Terra

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O MONHÉ DAS COBRAS


Manhã gloriosa, imobilizada na distância,
no extremo da caixa de areia branca
onde, agachado, anónimo e ascético,
envolto em alvos panos e silêncio,
está. O pudvém cobre-lhe o escroto

e sobraça-lhe as pernas magras e finas
de esquálido aracnídeo. No topo o turbante
e a barba anciã oscilam na brisa matinal.
Principia, então, a enfeitiçar o dia,
com exactos gestos rituais. Ergue-se,

por fim, plangente e implorativo,
o sinuoso som, para revelar, em
lentos arabescos, os assombros guardados
no sábio cesto de vime. Obedientes,
as cobras-capelo encenam, à maneira,

seu acto, a coberto da enganosa pintura.
Húmidas, dardejam ao sol, rápidas,
coruscantes e fatais línguas bífidas.
Nós, meninos, paralisados de medo
e espanto. A esteira irá perder-se

no longe da areia, gasto tapete voador
voando imóvel no céu profundo
da imaginação. Privilegiado observador
desta vigília acesa debruando já,
de mansinho, as margens do sono.

Rui Knopfli
O Monhé das Cobras

BIRRAS


Quando,
uma das minhas camisas se extraviava
somente Maria tinha absoluta certeza
de ter sido a reincidente
minha inata amnésia
que me fazia perder as coisas que resolvia dar.

Com sua
enigmática expressão repreensiva
lá ia Maria buscar mais roupas minhas
e também outras suas
para enfatizar meu defeito
junto do novo dono da camisa.

Com a minha Maria
mais ou menos era deste modo
que nossas duas maneiras de ser
destoavam, ainda bem

José Craveirinha
Maria

OLHOS ENXUTOS


Olhos enxutos
na dor de luto
é suplício exclusivo
de quem mais sofre
quanto menos chora.

José Craveirinha
Maria



O DEFEITO DE MARIA


Com seu tímido meio sorriso
e o leve encolher de um ombro
a Maria não se escusava de dizer:
- Com tantas apaixonadas bonitas
não sei o que o Zé viu em mim.

José Craveirinha
Maria

quarta-feira, novembro 19, 2003



O que o homem tem do pássaro é inveja.
Saudade é o que o peixe sente da nuvem.
(Mia Couto)


CANÇÃO INGLESA



Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e prò fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube.
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia,
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
colado como um escarro a uma das rodas do mundo.



Álvaro de Campos
1/12/1928

NOCTURNO DE DIA


...Não: o que tenho é sono.
O quê? Tanto cansaço por causa das responsabilidades,
Tanta amargura por causa de talvez se não ser célebre,
Tanto desenvolvimento de opiniões sobre a imortalidade...
O que tenho é sono, meu velho, sono...
Deixem-me ao menos ter sono; quem sabe que mais terei?


Álvaro de Campos
16/6/1928

terça-feira, novembro 18, 2003



Poema para Galileo



Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei...Eu sei...
As Margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!


Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.


Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo de praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.


Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las - ,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo
caindo
caindo
caindo sempre,
e sempre.
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.


António Gedeão
Linhas de Força


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sábado, novembro 15, 2003



EM TODOS OS JARDINS


Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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1 . SENHOR DOUTOR, LHE COMEÇO


Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências.


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Mia Couto
Vozes Anoitecidas


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sexta-feira, novembro 14, 2003



O APANHADOR DE OSSOS


No céu um número infinito de pontos brilhantes. A noite vai adiantada. Os sapos coaxam sem parar, os grilos berram estridentemente sabendo que nunca os vamos encontrar, os mosquitos zunem perto demais, a lua cheia é tão luminosa que inunda completamente tudo de luz e de tal modo, que cá fora, não são precisos os candeeiros da rua e da casa para nos vermos uns aos outros. O calor nem de noite desaparece. Dentro de quatro paredes é como se estivéssemos numa estufa húmida e quente, por isso ficamos sempre no jardim até muito tarde, retardando o mais possível o inferno do forno que é a casa.
A conversa é de ocasião, das coisas do dia, do passado, do futuro, de banalidades, e no espaço de segundos, quase sem saber como, ouve-se que aconteceu, aconteceu qualquer coisa, algo que não deve ser contado mas de que já se levantou o véu, e de que não se pode dizer mais nada. Naquele tempo era assim. Naquele tempo era proibido falar de guerra.
Insiste-se, mas o que foi, o que aconteceu, que coisa tão terrível foi essa? E a resposta vem velada, suficientemente clara para se ficar a saber que morreu muita gente, muita gente, lá longe, tão longe, que nem se viu nem ouviu nada, por causa da lonjura. É proibido comentar o assunto em público, como é interdito ouvir a rádio do outro lado, situada num país estrangeiro ou no próprio, quem sabe? Fala-se de aviões de guerra, de helicópteros, de bombas, de morte. Quem conta, é como se contasse um conto, um velho e inevitável conto, um conto em que não se acredita, mas que a ser verdade, nos será cobrado mais tarde ou mais cedo, a nós todos, gente de um mesmo lugar, de um mesmo país. Pergunta-se, mas foi preciso fazer tal coisa? Responde alguém que é a única maneira de as fazer, as coisas, deste modo violento. Imediato protesto dos outros. Impossível ser essa a única solução. Muitos anos mais tarde, esta mesma pergunta seria feita, depois de uma mudança radical da situação política daquele país e a propósito de muitas e repetidas transgressões dos direitos humanos, e a resposta veio exactamente a mesma: que era assim que devia ser feito. Dizíamos que nunca nos tínhamos imaginado a viver em terra de justiça popular, pena de morte e vinganças pessoais. É o velho hábito da necessidade da força para responder a um qualquer desafio, para alcançar objectivos. O velho hábito de fazer, porque sim. O velho hábito de obedecer, porque se é obrigado. O velho hábito de usar e silenciar inocentes. O velho hábito de deixar fazer. O velho hábito de deixar as coisas acontecerem ao longe e aos outros. O velho, estranho e macabro hábito da guerra.
No ano de mil novecentos e noventa e oito, no mês onze, encaixada num vidro de televisão, mal suspeitando disso e de que lá fora o céu está também tão bonito como vinte e seis anos antes, uma mulher, vestida na sua tradicional capulana*, de lenço amarrado um pouco acima da testa, quem sabe se para adorno, se para guardar as moedas e notas, ou o cigarro apagado, quem sabe para que serve um lenço assim posto se não é de certeza para segurar madeixas, fala de cara séria, sem sorrir, sem rir. Os traços do seu rosto são bem expressivos. A inevitabilidade das vidas que se cruzam de perto com a História, marcou-lhe na face a máscara dura da raiva, ou da fatalidade. Não ri, conta como foi. Conta que eram cinco, brancos e pretos. Eram cinco e diz que estava com medo, dos tiros, das granadas, dos bombardeamentos, dos gritos que ouvia vindos da aldeia, da guerra ali tão perto, mas sobretudo, estava com medo dos cinco homens perto de si, porque não riam, e diz, que quem não ri mata. Não é? Pergunta. Quem não ri mata. E repete várias vezes a mesma certeza, não rindo também.
Vinte e seis anos depois, fala-se do assunto para todos ouvirem. Em público, para milhões de pessoas. Já se pode falar às claras do que foi designado pelo nome certo: massacre.
Dos que testemunharam e relataram o que aconteceu naquele ano de mil novecentos e setenta e dois, ninguém riu. Não riu a mulher que teve medo dos cinco homens. Não riu a mulher que levava a criança às costas e não se deu conta que tinha um cadáver em cima de si. Não riu o homem que contou que queria salvar a irmã e que não o fez, porque ela não tinha olhos, nem boca e assim sendo não fazia sentido pegar-lhe ao colo e levá-la para um qualquer lugar abrigado. De que lhe servia viver sem olhos e sem boca? Não riu o velho que viu os aviões e os helicópteros a despejarem bombas e homens e viu as casas incendiadas. Não riu o homem novo que escapou, porque era criança e na sua fuga as balas não o encontraram. A este, ficaram-lhe os olhos raiados de vermelho, da cor do fogo e do sangue e a expressão fechada, de quem não ri quando fala do que aconteceu. Restou-lhe a sina de ser apanhador dos ossos que ficaram espalhados por todo o lado e que nunca mais acabam. Vinte e seis anos depois. Aparecem nos matos em redor, nascem do chão. A sua missão é descobri-los e juntá-los na pilha que se foi formando no monumento que anos mais tarde se mandou edificar. Monumento evocativo do massacre. Hoje, finalmente em tempo de paz, que parecia ser impossível de alcançar, juntam-se os restos dos que sucumbiram em mil novecentos e setenta e dois.
Este relato tem época e lugar mas é também sem tempo e sem pátria. É de há muito e de agora. Hoje mesmo volta a acontecer, em Timor, na Jugoslávia, em Angola, em Cachemira, no Sudão, no Iraque.
Também agora, nos sentamos nos jardins cheios de cores desta primavera de prodígios, nos maravilhamos com a beleza deste cantinho à beira mar plantado, a que o poeta deu o nome de rosto da Europa. Agora, como em mil novecentos e setenta e dois, debaixo do mesmo céu, debaixo da mesma paz, ainda se ouvem os ecos da guerra. As perguntas e as perplexidades voltam a ser as mesmas. Até que um dia, quem sabe, seremos nós os outros, aqueles que estão longe, os que são hoje as vítimas. E ficaremos atónitos ao descobrir que o centro do mundo não é o chão que pisamos todos os dias, nem o lugar em que vivemos, que chegou a nossa vez, que fazemos também parte do universo e que um dia haverá um qualquer apanhador dos nossos ossos, de olhos raiados de vermelho, que nunca poderá rir, um apanhador dos nossos ossos já cobertos pela terra, pelo mato, pela guerra, e que com as tempestades virão à superfície.
Por agora, é certo, vai acontecer que Timor, depois de findarem os tempos de sofrimentos passados, presentes e futuros, vai ter a sua liberdade e à sombra dela, e em português, conversaremos debaixo da acácia rubra de Ruy Cinatti, nosso poeta, que assim começava a mensagem « Em Díli, num café, tantos de tal...// Venho aqui dizer/ antes que seja tarde. /Disto sabem tudo/ os metropolitas./ Ocultam-no - também cá se sabe.// Timor pertence aos Timorenses......» em “carta para quaisquer snrs. deputados”. Tão longe se fala e pensa em português, tão longe terá de ir o apanhador de ossos!
Eh! lá, apanhador de ossos! Voaram pelos céus os lançadores de fogo, explodiram entre a gente simples os mil estrondos, e os incontáveis projécteis não escolheram alvos, antes se desviaram por puro engano e encontraram quem menos esperava por eles, nas montanhas, nas estradas, nas casas. Já os treinados para a guerra, de armas na mão, onde desde há séculos vão buscar a força da repressão, armas apontadas para os que fugiam, dizimaram quem tentava escapar da barbárie, concentrando-os em campos, perseguindo-os até ao fim dos caminhos, expulsando-os das suas casas.
Eh! lá, homem de olhos raiados de sangue, apanhador de ossos, virá a época da grande colheita. Da recolha daqueles que ficaram nas montanhas, à beira dos caminhos, debaixo da neve, sob os escombros das casas destruídas.
Este foi o tempo de queimar a terra e as gentes, de desfazer aldeias, cidades, campos, pontes, estradas. O tempo foi e é de espantos. Foi o tempo da guerra na velha Europa. Agora, não em África, como em mil novecentos e setenta e dois.
Depois deste tempo, daqui a quanto tempo? poderás, afincadamente, apanhar os brancos ossos destes quotidianos massacres e com eles edificar um monumento aos mortos desta guerra que uns chamam de cruzada e outros de desnecessária e cruel.

1998, Novembro


* capulana - pano de algodão com motivos coloridos, que em África se utiliza diariamente em volta do corpo, com arreigado peso tradicional.

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A POESIA NÃO VAI


A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.

Eugénio de Andrade



ÀS VEZES


Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.


Sophia de Mello Breyner Andersen





POEMA




Esta última lágrima
era de oiro

Aqui estou
como uma pétala solta

O vento me levará
ao último azul

E serei horizonte


Glória de Sant'Anna

«A massambala cresce a olhos nus»



Vieram muitos
À procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
À promessa de pasto
de capim gordo
das tranquilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Paula Tavares
O Lago da Lua

Excerto de um texto de Nuno Ramos de Almeida, revista LER nº 60, página 67

....A velocidade de expansão desta nova forma de "inteligência" faz prever um mundo diferente quando todos estivermos ligados à rede e cada um tiver o seu blog. Será que formaremos uma inteligência colectiva ou estaremos sozinhos no ecrã?
Enquanto esperamos, "bloguemos".
Mas, já agora, o que é isso?

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quinta-feira, novembro 13, 2003


VELASQUEZ


Dissimula-te, ao longe, a grandeza
dos grandes. Sobre o teu vulcão
dormente agitam-se paisagens próximas.
Em cada Goya há um demónio
que espreita e do Greco baixa
a pálida luz da transcendência.
O teu azul é o das montanhas
perdidas na opacidade do horizonte:
existe antes de o sabermos.
Só de perto te apercebemos: é de baixo
que os gigantes te miram.

Rui Knopfli

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terça-feira, novembro 11, 2003




A DESCOBERTA DA ROSA



Dez anos de poesia, fora a gaveta
e descubro que, a não ser ocasionalmente
e em ar de troça, jamais me debrucei
deveras sobre o tema da rosa. De resto
eram para mim, creio, marginais as flores.
Vícios de formação e juventude,
uma tão intensa preocupação do humano
que olvidei a discreta angústia da rosa.
Outros, não o ignoro, nela tiveram seu princípio
para a deixarem depois esquecida entre as páginas
de um qualquer velho livro, tão cheios eles,
de ternura e simpatia fraternas, coisas
que já eludem este coração envilecido.
Salvo o devido respeito por tudo quanto é útil
e estimável na terra, faltam-me o tempo
e o ânimo para as empreitadas mais ingentes.
E o pouco que me sobra tenciono aplicá-lo
em tarefas humildes como o cultivo
destes versos, algum súbito amor inadíavel
e a lenta e minuciosa descoberta da rosa.


Rui Knopfli


TRANSMUTAÇÃO DE UM POEMA DE ARQUÍLOCO DE PAROS

Seus dedos leves adejavam
sobre as rosas
como se brincassem.

Sobre a nuca e o pescoço alto
agitava-lhe a brisa
os cabelos escuros.

E neles bricava
a luz maravilhada.

Rui Knopfli


ROSA DO MUNDO



Rosa. Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.

Primeiro orvalho sobre o rosto.
Que foi pétala
a pétala lenço de soluços.

Obscena rosa. Repartida.
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.

Quase nada.




Eugénio de Andrade

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segunda-feira, novembro 10, 2003


VÊM DA INFÂNCIA


Vêm da infância, essas mulheres,
Caladas , discretas, sem pressa
de existir. Esplêndidas mulheres essas,
penteadas com a risca ao meio,
as orelhas descobertas pelo cabelo
de sombra clara.
No seu coração o mundo
não era tão pequeno e o que faziam
não lhes parecia humilhação.
Sabiam envelhecer com a vagarosa
luz das crianças
e dos animais da casa.
A par da rosa.


Eugénio de Andrade
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domingo, novembro 09, 2003

NÃO VALE A PENA PISAR


O capim não foi plantado
nem tratado,
e cresceu. É força
tudo força
que vem da força da terra.
Mas o capim está a arder
e a força que vem da terra
com a pujança da queimada
parece desaparecer.
Mas não! Basta a primeira chuvada
para o capim reviver.

Manuel Rui
Angola





PENSAMENTOS À SOLTA - PROFESSOR AGOSTINHO DA SILVA



A poesia se divide em ciência, religião e arte.


Quando julgo alguém apenas o defino em relação a mim, em sua semelhança ou sua diferença.


Portugal perdeu o Brasil, como colónia, desde o embarque do Príncipe e o estabelecer-se sua corte no Rio: foi esse o impulso que veio a dar o estabelecimento liberal. A consciência da perda dos territórios entre Angola e Moçambique deu a República. A derrota nas colónias provocou o 25 de Abril, revolução que apenas começou e que só quando for plenamente apoiada pelo Brasil e pela África encarreirará o País à segunda época dos Descobrimentos, a da fraternidade humana. Só o conjunto de todos os Povos de Línguas Ibéricas levará à terceira, essa metafísica e mística - a do Espírito Santo.

Sou um homem modesto: não procuro para as seguir, as opiniões dos grandes homens: bastam-me as minhas.
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sábado, novembro 08, 2003

AS AMORAS



O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade


Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

Eugénio de Andrade

sexta-feira, novembro 07, 2003


NÃO SEI SE É UMA MEDALHA


Alguma vez
um cigarro aceso sentirá o delicioso
sabor de te fumar de repente
o ombro direito?

Pois
sobre isso eu juro
que tudo é pura mentira.

Juro
que nunca um cigarro LM
apagou a sua idiossincrásica boca de lume
no calor escuro da minha omoplata.

E também juro
que nunca plagiei um cinzeiro moçambicano
sentado a cheirar o bafo da própria cinza
com o subchefe de brigada Acácio
um deus fantasmagórico envolto
na especial nuvem de tabaco
mistura de Virgínia com pele.

E também confesso
que se esta invenção tivesse acontecido
muito provavelmente seria em mil novecentos
e sessenta e seis à tarde numa certa Vila Algarve
enquanto pela duodécima vez
eu abanava a cabeça
e dizia - Não sei!

Por acaso
a mancha desta mentira está.
Não sei se é uma medalha.
Mas não sai mais.

José Craveirinha (1967)

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ESPERA


Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pásaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade

ESPERA-ME


Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso

Sophia de Mello Breyner Andersen

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quinta-feira, novembro 06, 2003



AS CASAS


Há sempre um deus fantástico nas casas
Em que eu vivo, e em volta dos meus passos
Eu sinto os grandes anjos cujas asas
Contêm todo o vento dos espaços.


Sophia de Mello Breyner Andersen

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quarta-feira, novembro 05, 2003




Florbela Espanca e Rui Knopfli, dois poetas que se encontraram em Vila Viçosa, ao morrer. A primeira nascida a 08 de Dezembro de 1894, em Vila Viçosa e o segundo a 10 de Agosto de 1932 em Inhambane, Moçambique.




ÁRVORES DO ALENTEJO



Horas mortas...Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido...e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores, Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!


Florbela Espanca

O CURANDEIRO

Lança os ossos e antevê futuro e curas.
Não, não é o mover da pedras na tlhuva.
A tin'tlhuva é um xadraz ancestral
praticado por competidores, mais
ou menos adestrados, no número

exacto dos buracos abertos no chão.
A sua tarefa é outra, porém: não
joga um jogo, joga com o futuro
que, aos poucos, julga entrever
nos dados lançados e seus crípticos

desígnios. A sua leitura, quase nunca
clara, é intrigante por vezes, feita
de hesitações e perplexidades sempre:
o futuro é um jogo de acasos,
nele uns se salvam, outros se perdem.

Rui Knopfli

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HISTÓRIA DE AMOR DA PRINCESA OZORO E DO HÚNGARO LADISLAU MAGYAR

Primeiro momento

Meu pai chamou e disse:
mulher, chegou a hora, eis o senhor da tua vida
aquele que te fará árvore

Apressa-te Ozoro,
parte as pulseiras e acende o fogo.
Acende o fogo principal, o fogo do fogo, aquele que arde noite e sal.

Prepara as panelas e a esteira
e o frasco dos perfumes mais secretos
Este homem pagou mais bois, tecidos e enxadas do que aqueles que eu pedi

este homem atravessou o mar
não ouvi falar do clã a que pertence
ohomem atravessou o mar e é da cor do espírito

O Lago da Lua
Paula Tavares

(poetisa angolana actualmente a residir em Portugal )

sábado, novembro 01, 2003



O texto que se segue encontra-se publicado na revista LER numero 60 da Fundacao Ci­rculo de Leitores.

RUI KNOPFLI

Em 1982, a INCM publicou Memoria Consentida. Vinte Anos de Poesia 1959/1979, de Rui Knopfli [1932-1997]. O volume faz parte da colecçaoo "Biblioteca de Autores Portugueses". Em 1984, outra obra do autor, O Corpo de Atena - que recebeu o premio do PEN Clube -, saiu na mesma colecçao. Agora, morto o poeta, e sem motivo plausi­vel, a Obra Poetica aparece inserida na colecçao "Escritores dos Paises de Li­­ngua Portuguesa".
Dirao os cínicos que se trata de despromoção objectiva. A mim causa-me perplexidade, porque nao encontro explição para o facto. Mesmo que o poeta tenha deixado claro: "pátria é só a li­ngua em que me digo." (p. 380).
A verdade é que à proverbial dificuldade em aceder às edições da INCM, praticamente confinadas à  rede de livrarias próprias, factor de dissuasão para o grande público, acresce o menor interesse por uma colecção em larga medida direccionada para o exí­guo mercado dos estudos africanos. É claro que a reunião da obra completa de Rui Knopfli é sempre de saudar, e neste caso duplamente de saudar, graças ao magní­fico estudo introdutório de Lui­s de Sousa Rebelo, que refez o prefácio de Memória Consentida. Como Rebelo já entao notara, subsiste, por parte de "alguns críticos de carteira, ou com tribuna própria e respeitada na imprensa periódica [...] uma vaga e subliminal resistência na adesão cabal a uma obra que se não sabe como situar dentro dos discursos poéticos vigentes na lingua portuguesa". (p. 8).
É naturalmente dos anos 1960 e 1970 que Rebelo fala, mas o diagnóstico vale para as décadas seguintes. Knopfli passou sempre ao largo do cânone do Chiado. E o facto de ser um dos poetas sujeitos a close reading na antologia Século de Ouro - Antologia Crí­tica da Poesia Portuguesa do Século XX (2002) perturba espÃíritos pouco ecuménicos. O cliché de que Knopfli seria um escritor moçambicano tem servido de Álibi para todo o tipo de omissão. Mesmo nos casos isentos de má-fé, o disparate tão rotundo. a nenhum inglès culto ocorreria argumentar que Thackeray, Kipling ou Orwell são escritores indianos! Tal como Camus e Derrida não são escitores argelinos. E Marguerite-Duras não é uma escritora indochinesa. É verdade que Rui Knopfli nasceu em Moçambique, mais exactamente em Inhambane, no dia 10 de Agosto de 1932. E era uma criança quando a famí­lia se transferiu para Lourenço Marques , e um adolescente de 17 anos quando começou a escrever no Itinerá¡rio, um mensário de oposição ao regime colonial.
Depois, a pretexto de estudos, passou parte dos anos 1950 na África do Sul:

"O meu Paris é Johannesburg,
um Paris certamente menos luz,
mais barato e provinciano.
Mas Johannesburg lembra-me o Paris
que não conheço: o mesmo movimento
endemoninhado, as luvas brancas
do polícia sinaleiro, o brilho das montras,
a cor da moda, os mesmos amorosos
que se beijam sem pudor nos bancos
das áleas ensolaradas, o Sena
que não há e a Torre Eiffel
que também não[...]
À noite janto no Montparnasse
de Hilbrow, que é o Quartier Latin
do sítio e olho essas mulheres
excêntricas e belí­ssimas
de pullover e slacks helanca[...]
Olho também esses efebos de pálpebras
cendradas, com os ademanes e o ar triste
de quem vive na perplexidade dos sexos.
Depois do turkish coffee meto-me
até ao Cul de Sac e fico-me
a ouvir o sax maravilhado
de Kippie Moeketsi. O jazz, sim,
É genuíno e tem um bite
todo local [...]
Aqui ninguém sabe quem sou,
aqui a minha importância é zero.
Em Paris também."
(pp 201-202).

Quando estes versos foram escritos, e mesmo quando foram publicados, o dogma da experimentação semântica afastava os poetas portugueses da crónica do quotidiano. Pode por isso dizer-se, sem risco de controvérsia, que Knopfli antecipou o "regresso ao real" que só na segunda metade dos anos 1970 faria a ruptura com o diktat de Poesia 61. Isso foi notório logo em 1969, ano da publicação de Mangas Verdes com Sal - que teria uma 2ª ediçãoo alargada em 1972 - e também no livro derradeiro, O Monhé das Cobras (1997). Na primeira fase da obra, aquela que vai de O Paí­s dos Outros (1959) a Máquina de Areia (1964), sobreleva a angústia do estrangeiro. Tivesse sido outra consciência crítica dos coevos, e o premonitório tí­tulo do livro de estreia agitaria o sossego da Colónia:

"Num céu de chumbo e baionetas
caladas [...]
se anuncia a cólera
do tempo [...).
Por enquanto mais nada, senão
o torvo tinir dos talheres
no banquete da morte impossí­vel."
(p. 37)

António Ramos Rosa deu por isso e, na Seara Nova, falou de agresividade corrosiva, sarcasmo e rudeza viril. O tom profético trouxe à poesia portuguesa o leitmotiv da questão colonial:

"Da granada deflagrada no meio
de nós, do fosso aberto, da vala,
intransponí­vel, não nos cabe
a culpa, embora a tua mão,
armada pelo meu silêncio,
lhe tenha retirado a espoleta (p. 271).
Nos livros da diáspora a que o coagiram "os ventos da História e a vontade própria" (p. 413), em especial O Escriba Acocorado (1978), notável "memorial privado de uma história colectiva" (p. 18), Knopfli deixa um recado à posteridade: "Servidor incorruptí­vel da verdade e da memória,
escrevo sentado e obscuro palavras terrí­veis
de ignomínia e acusação [...)
venho de longe, no verbo latino, no axioma
grego, fui escravo no Egipto, homens

morreram a meu lado e vendo-lhes os olhos
agónicos e súplices, voltei horrorizado o rosto [...)
A História que há-de ler-se é por mim escrita.
Anonimato igual nos cobrirá. A estas palavras não." (pp. 377-378).

Acabara o tempo dos heróis. O mito homérico não:

"Outro ano, outro Abril sem amenidades.
Pai, a tua lembrança e a lenta dinâmica
corruptora do tempo [...]
Em breve choraremos Heitor, Pai,

Sobre ele se abaterá a ira
implacável de Aquiles, o instante
percutido até à  eternidade. No gineceu
Hécuba, absorta e envelhecida, lê
horas a fio, de Hermann Broch
a James Hadley Chase [...]
As armas
refulgindo dentro do fogo, o olhar
esventrado da Hécuba e nos teus
olhos atónitos, Pai, no descolorido
das tuas pupilas inertes, uma agonia
impartilhável [...]
e em mim não dormirá o esquecimento.
Restos de endométrio, pista sanguinolenta
que obscura e descomunal vagina
tivesse vazado pelo solo de escalracho,
eis o derradeiro rasto do herói." (pp. 383-385)
Do mesmo passo, Knopfli foi reflectindo sobre a aventura da linguagem:

" Na exactidão vocabular se articula o discurso.
Tenho só este exí­guo e perplexo pecúlio
de palavras à beira do silêncio [...]
Nenhum inferno é maior que o da voz traí­da
e nenhum bem vale o da sua integridade." (pp. 430-431).

Na sequência do affaire Macintosh (que tornou público no jornal de que era director, contrariando normas censórias do alto-comissário português), Knopfli foi obrigado a deixar Moçambique em 24 horas. Estamos em 1975:

"É o fatí­dico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que no.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais elegíveis [...]

Não quero lembrar-me do nada [...] sobrevirei
apenas no precário registo das palavras." (p. 516)

O exí­lio em Londres, 22 solitários anos (1975-1997) entre Knightsbridge e Belgrave Square, afastam-no definitivamente da pátria literária. Predecessores óbvios, Gerard Manley Hopkins e Eliot, tanto quanto Drumond e João Cabral de Melo Neto, não o são menos que Sá de Miranda e Camões:

"Aqui deixo os mortos que me pertencem e os vivos
com que me reparto. Céo do Nilo, sobreviverei bebendo
na corrida, entre o ranger metálico das culatras
e o bafo cálido da pólvora [...]
O cabo
enfreia a costa que do austro vinha correndo.
Em temporais, vento e névoa, para sempre
mergulhará o continente [...]
Pai, entre os torpes,
fumegantes destroços do Império, teu filho esconde
o rosto e esgueira-se furtivo pelas malhas da diáspora." (pp. 392-393).

De regresso a Portugal no Verão de 1997, breví­ssimo entreacto antes do "fogo purificador" (p. 525),
Knopfli revisita os lugares da infância - "Je suis d'une enfance comme d'un pays...", lembra Saint-Exupéry - que foi sua: o mítico monhé das cobras, com suas "pernas magras e finas
de esquálido aracnídeo" (p.487), quintais repletos de mistério, como o de
"Hugh Lemay
agente transitário (e secreto) de Sua Magestade) (p. 495), ou o
"percutir
seco das bolas de ténis" (p. 498) no Jardim Vasco da Gama.

Aguda consciência do fim:

"Vão repondo a tragédia, ano após ano
e eu, obstinadamente, a perseguir
o papel que persisto ali me competia
para além de espectador passivo.

Rosencrantz? Guildenstern? A nem tanto
ambicionaria [...]
Estava-me reservada a derradeira,irrecusável
apoteose: serei Yorick, o jogral amigo." (p. 526).

Knopfli morreu em Lisboa , no dia 25 de Dezembro de 1997. Mas regressou ao Alentejo onde tudo terá começado:

"Páro diante do jazigo de família, Vila Viçosa [...]
Afinal tudo
principiou aqui. O apelido seria, puramente como outros, alentejano,
não fora a incursão oportunista
do estrangeiro, que perturbaria o resto,
confundindo o futuro e as interpretações [...] pertencemos todos a esta África lusitana

que pelas outras se expandiria. Por estas
andámos perdidos, ignorando então
que a passagem obrigava ao regresso. Não
fora isso e seria apenas o poeta local, sobrenome
Rosa, aguardando o lugar que lhe caberia." (p. 527)

O testemunho (testamento?) é indesmenti­vel.
A fechar, uma pergunta: porquê Obra Poética por Rui Knopfli - como vem na capa, na lombada e no frontispício -, em vez de Obra Poética de Rui Knopfi? A preposição é manifestamente inadequada.


Eduardo Pitta in LER - Outono 2003

(Nota: por razões que desconheço, o texto modificou-se periodicamente; a pouco e pouco o fui emendando; poderá existir alguma inexactidão numa ou noutra palavra. Melhor será ler o original e ler a LER)
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