Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

quarta-feira, outubro 29, 2003




UMA JARRA EM CONTRALUZ


...........«-Nunca cá está?, pois não?
calo-me. Finjo que não oiço e calo-me. De resto não vão estranhar: pouco falo. Entro numa dessas casas velhas onde as tábuas do soalho estalam e aninho-me a um canto a assistir às manchas de sol nas paredes, no tecto. À jarra, em contraluz, com o galhozito de acácia. Ao perfil da rapariga no reposteiro da varanda. Talvez ela venha até mim
(há-de vir até mim)
me chame
- António
(há-de chamar-me
-António)
e a gente os dois a descer do terraço para o jardim da casa
(um terraço de azulejo com uns vasos de pedra)
e a corrermos lado a lado no jardim, ultrapassando buxos, canteiros, um lagozito, a estufa, uma estatueta qualquer, ultrapassando o portão, outros portões, outros muros, outros terraços ainda, a gente os dois, de mão dada, na direcção do mar.

António Lobo Antunes

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