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segunda-feira, outubro 20, 2003

Mulher de gelo


A notícia veio no jornal, na última página, dando conta que um homem incendiara a casa onde a mulher se encontrava e tinha sido detido, como cumpria, tendo alguém comentado que assim deviam fazer todos os maridos ofendidos, para que não houvesse mais poucas vergonhas. Não contaram os jornais, o seguimento do acto, nem o que aconteceu ao assassino, muito menos o que se passou com a vítima, porque desafiando todas as leis e entendimentos, aconteceu que no local do sucedido, um bloco de gelo ficou a faiscar ao sol e a reflectir a luz da lua assemelhando-se, no entanto, à forma de uma mulher, envolta em panos largos, como se tivesse frio e se resguardasse. De pé, a cabeça inclinada para baixo, as mãos fechadas no peito pareciam segurar o tecido para que não escorregasse pelos brilhos gelados. Os pés descalços e juntos e a cabeça coberta com um lenço apertado na nuca.
Assim ficou, dias e noites seguidas, para grande admiração das gentes e dos visitantes que vinham para ver tal maravilha.
Ninguém entendia como Rosarinho tinha passado do estado de pessoa vivente ao estado de gelo, após ter sido queimada em pira de fogo, feita com sua própria casa, de barro e palha construída.
Os vizinhos mais próximos sabiam das dificuldades da vida de Rosarinho e seu marido. Ouvia-se muita coisa, tristes choros, súplicas, ameaças. Mas como é habitual, ninguém se afoitava a interferir. Preferiam ignorar.
Afirmam que nesse dia de desgraça, quando a lua já brilhava no céu e era a única luz que iluminava a noite, dizem, que se ouvia a voz de um homem falando de fora para dentro, em linguagem despropositada e ofensiva, bem como causadora de medo. Assim dizia, entre outras coisas «vem cá fora, quero inchar-te essa cara bem inchada».
Durante muito tempo foi este o tom da conversa. Lenga lenga sem fim, com algum álcool de permeio.
Os sons da noite continuavam tranquilamente como se nada estivesse prestes a acontecer. Rosarinho, de porta trancada, encolhida na sua frágil casa, devia esperar o fim das ameaças, com esperança que o cansaço vencesse e no outro dia a manhã trouxesse ares diferentes e renovados, salvando-se ela e seu marido, como de outras vezes acontecera, porque de traição ele a acusava, não contando que ela também trazia ofensas guardadas, mas nunca na sua cabeça tinha passado a ideia de ajuste de contas. Que se ofendia, ele sabia. Nos seus silêncios ele adivinhava o que não era dito nem precisava de ser contado e mais se remoía em despeitos.
Mais uma vez o seu homem se embriagara, mais uma vez a aterrorizava, mais uma vez a ameaçava. De todas as vezes, o outro dia trazia o esquecimento. Mas naquela noite de muitas estrelas e boa lua, o medo andava por ali tão presente como um corpo de pessoa viva, rondando a casa, batendo na porta, atirando pedras, gritando, fazendo voar tudo o que lhe aparecesse à frente e pudesse ser arremessado. Mas nada o satisfazia. Trazia uma fome de monstro. E Rosarinho encolhia-se cada vez mais, já a luz se consumira dentro de casa e a escuridão mais razão dava ao medo. A negrura da noite em casa fechada fazia com que lhe faltasse o ar, sufocava, ou seria o fumo que ocupava cada canto do espaço em que se encasulara?
Rosarinho ainda teve tempo de ver as chamas iluminarem o espaço do seu medo, ainda teve tempo de pensar que se fosse uma pedra de gelo, o fogo se afastaria a tempo de a virem buscar, quem sabe se o próprio marido, ali tão perto não correria a socorrê-la, levando-a, pesada como um bloco de rocha gelada, mas mesmo assim levando-a, e depois, a pouco e pouco, ela se derreteria, primeiro a água escorreria em gotas pelos cabelos, depois pelo pescoço, depois pelo peito, depois pela cintura, fazendo um lago a seus pés, sendo a última coisa a derreter, o seu coração.
Se isso acontecesse, fosse quem fosse a primeira pessoa que a arrebatasse daquele fogo que já tudo consumia, fosse quem fosse a primeira pessoa que lhe estendesse a mão, a segurasse nos braços e a trouxesse para fora, para debaixo das estrelas, para longe da fogueira feita da sua casa, fosse quem fosse que a tocasse como se nada no mundo existisse a não ser ela, ela Rosarinho, essa primeira pessoa, teria o privilégio de a ver transformar-se do estado de gelo mortificado, ao estado de ser vivente, de mãos quentes, coração a bater no peito e sorriso nos lábios e nos olhos.
Mas não aconteceu e Rosarinho deixou que o fogo rodopiasse à sua volta, abatesse tudo o que era a sua casa e ficou de pé, bloco de gelo faiscante no meio das cinzas fumegantes, que a pouco e pouco arrefeceram, para grande admiração de toda a gente que ali vai agora, que não se atreve a tocar-lhe com um só dedo, porque o fenómeno é enorme e o mistério também, até ao dia, quem sabe, em que seu próprio marido, aparecendo, se aproxime e lhe peça que esqueça a noite em que regou a casa com petróleo e lhe chegou fogo e lhe explique, porque fez tamanho mal, a si e a ela, e se transforme tanto, como ela o fez, que passou do estado de vivente ao estado de gelo puro, brilhando debaixo da lua e faiscando ao sol.



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