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quarta-feira, outubro 15, 2003

GLÓRIA DE SANT'ANNA
O SILÊNCIO ÍNTIMO DAS COISAS


Por Eugénio Lisboa


No Moçambique que precedeu a independência, a qual teve lugar em 25 de Junho de 1975, muita coisa aconteceu, como não é sabido de toda a gente. Na realidade, não é sabido de quase ninguém, excepto de uns poucos (e não todos) que lá viveram.
Muito se tem escrito, sobretudo no pelouro em que impera o "discurso político", acerca do que foi ou não foi o chamado período colonial português. Seja dito de passagem que mais se tem falado do que acertado. É com lindos sentimentos que se faz má literatura, disse-o um dia Gide, irritando Claudel, e é também com angélicas intenções que se trai, frequentemente, os mandatos da história. Não deixa sobretudo de ser curiosa a fácil boa consciência de quem, no chamado Portugal continental, bem mais se aproveitou (e prosperou) com a exploração colonial do que tantos que pelo ultramar tristemente se alienaram, pobre e honradamente viveram e, para o fim, alucinadamente se desintegraram. De gente séria, pobre e perplexa (e não só da outra), está a história de Moçambique também cheia, como não é do conhecimento confortável de algumas consciências bastante poluídas, que depois facilmente se reconciliaram consigo próprias, por vias mais ou menos expeditas. Não pretendo fazer a defesa (impossível) de todo o período colonial português que não deve, também, por outro lado, ser analisado, hoje, à luz das coordenadas político-estratégicas que convinham (e é normal que conviessem) aos movimentos de autonomia e libertação. Lembro simplesmente que a história objectiva não há-de poder fazer-se, um dia, a preto e branco, usando de critérios simplistas que serviram quando e a quem deviam servir, num período de mobilização e luta, o que é compreensível, mas de todo já não servirão, nesses mesmos termos, quando chegar a idade da razão e da análise. Quero eu dizer, por outras palavras e sem receio delas, que a história colonial de Moçambique não há-de poder ser a versão que dela ofereceram a compreensível militância da Frelimo (no tempo disso) e a dos historiadores dela e com ela mais ou menos comprometidos. Misto de erros, desacertos e crimes e, a partir de certa data, ferido de inviabilidade moral e material, mas também misto de alguns acertos e não poucas medidas e investimentos de que hoje se aproveitam - e é bom que o façam - os que ali governam (algumas das estruturas económicas que ali ficaram não eram tão más como as pintava uma mitologia ideologicamente simplista), o colonialismo português precisa, como tudo, de um estudo atento, objectivo, frio, implacável quando necessário, mas não de "slogans" acusatórios e primários, os quais não constituiram nunca, que se saiba, equipamento sério de investigação histórica.


Eugénio Lisboa
Prefácio a AMARANTO de Glória de Sant'Anna


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