Fazendo Caminho I <$BlogRSDUrl$>

sexta-feira, outubro 31, 2003


A pêra


Como de cera
E por acaso
Fria no vaso
A entardecer

A pêra é um pomo
Em holocausto
À vida, como
Um seio exausto

Entre bananas
Supervenientes
E maçãs lhanas

Rubras, contentes
A pobre pêra:
Quem manda ser a?


Vinicius de Moraes





A paixão da carne


Envolto em toalhas
Frias, pego ao colo
O corpo escaldante.
Tem apenas dois anos
E embora não fale
Sorri com doçura.
É Pedro, meu filho
Sêmen feito carne
Minha criatura
Minha poesia.
É Pedro, meu filho
Sobre cujo sono
Como sobre o abismo
Em noites de insônia
Um pai se debruça.
Olho no termômetro:
Quarenta e oito décimos
E através do pano
A febre do corpo
Bafeja-me o rosto
Penetra-me os ossos
Desce-me às entranhas
Úmida e voraz
Angina pultácea
Estreptocócica?
Quem sabe... quem sabe...
Aperto meu filho
Com força entre os braços
Enquanto crisálidas
Em mim se desfazem
Óvulos se rompem
Crostas se bipartem
E de cada poro
Da minha epiderme
Lutam lepidópteros
Por se libertar.
Ah, que eu já sentisse
Os êxtases máximos
Da carne nos rasgos
Da paixão espúria!
Ah, que eu já bradasse
Nas horas de exalta-
Ção os mais lancinantes
Gritos de loucura!
Ah, que eu já queimasse
Da febre mais quente
Que jamais queimasse
A humana criatura!
Mas nunca como antes
Nunca! nunca! nunca!
Nem paixão tão alta
Nem febre tão pura.

Vinicius de Moraes



A galinha-d'Angola

Coitada
Da galinha –
D’angola
Não anda
Regulando
Da bola
Não pára
De comer
A matraca
E vive
A reclamar
Que está fraca:

– "Tou fraca! Tou fraca!"

Vinicius de Moraes




A foca


Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz.

Quer ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.

Quer ver a foca
Fazer uma briga?
É espetar ela
Bem na barriga!

Vinicius de Moraes



A felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusãoo do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza nãoo tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
Vão como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

Vinicius de Moraes


Carta que não foi mandada

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais


Vinicius de Moraes

A anunciação


Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?
Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...


Vinicius de Moraes
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quinta-feira, outubro 30, 2003



EURYDICE EM ROMA

Por entre clamor e vozes oiço atenta
A voz da flauta na penumbra fina

E ao longe sob a copa dos pinheiros
Com leves pés que nem as ervas dobram
Intensa absorta - sem se virar pra trás-
E já separada - Eurydice caminha


Sophia de Mello Breyner Andersen
Musa





ONDAS


Onde - ondas - mais belos cavalos
Do que estas ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longas crinas sacudidas
Ou impetuoso arfar no mar intenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia


Sophia de Mello Breyner Andersen
Musa


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mãe, cada palavra que me ensinaste repete mil vezes o teu nome.

José Luís Peixoto
A Casa, a Escuridão

CONSOLO

se envelhecesses a meu lado, cedo perceberias
que nunca fui digno do teu rosto ou da tua ternura.
é isto que penso quando me lembro que partiste.


José Luís Peixoto
A Casa, a Escuridão

ENCANTAMENTO

há uma palavra mágica que se diz. essa palavra
é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.

essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
não se disse uma palavra. brilho, ...........,montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.

há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra,
pode começar o amor.


José Luís Peixoto
A Casa, a Escuridão


quarta-feira, outubro 29, 2003

mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.


José Luís Peixoto
A Casa, a Escuridão

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UMA JARRA EM CONTRALUZ


...........«-Nunca cá está?, pois não?
calo-me. Finjo que não oiço e calo-me. De resto não vão estranhar: pouco falo. Entro numa dessas casas velhas onde as tábuas do soalho estalam e aninho-me a um canto a assistir às manchas de sol nas paredes, no tecto. À jarra, em contraluz, com o galhozito de acácia. Ao perfil da rapariga no reposteiro da varanda. Talvez ela venha até mim
(há-de vir até mim)
me chame
- António
(há-de chamar-me
-António)
e a gente os dois a descer do terraço para o jardim da casa
(um terraço de azulejo com uns vasos de pedra)
e a corrermos lado a lado no jardim, ultrapassando buxos, canteiros, um lagozito, a estufa, uma estatueta qualquer, ultrapassando o portão, outros portões, outros muros, outros terraços ainda, a gente os dois, de mão dada, na direcção do mar.

António Lobo Antunes

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António Lobo Antunes foi hoje galardoado com o prémio internacional União Latina de literatura



A ditadura, a guerra colonial, a revolução dos cravos. A descolonização. Exemplos de "experiências dolorosas" e "mesmo melancólicas", nas palavras de Vicenzo Alonso, que conduzem a retratos por vezes mordazes de um Portugal profundo.

Isso mesmo valeu a Lobo Antunes o Prémio União Latina, dotado de uma verba de 12 mil euros.

"Na sua obra, Lobo Antunes faz o retrato de um país que pouco a pouco revela a sua face através de experiências dolorosas e mesmo melancólicas", declarou o presidente do júri.

António Lobo Antunes é uma das figuras mais proeminentes da literatura portuguesa da actualidade e uma das que tem maior projecção internacional.

Com uma escrita "arquitectónica", o escritor-psiquiatra espelha, nos seus livros, uma visão de Portugal através de monólogos e, nalguns casos, de recordações próprias, despojos de memórias que foi acumulando.

Entre as suas obras, contam-se "Memória de Elefante" (1979), "Os Cus de Judas" (1979), "Fado Alexandrino" (1983), "As Naus" (1990), "A Ordem Natural das Coisas" (1992), "Manual dos Inquisidores (1996), ou "Esplendor de Portugal" (1997).

O seu último romance, "Boa-Tarde às Coisas Aqui em Baixo", com a etiqueta da D. Quixote, será apresentado no próximo dia 18 de Novembro.

A União Latina foi fundada em 1954 e reúne 35 países que partilham o mesmo património linguístico, histórico ou cultural latino. O prémio foi criado em 1989 e destina-se a homenagear um escritor de língua latina, sem qualquer distinção de país ou continente. A sua obra deverá merecer ser difundida e traduzida nos países latinos.

O ano passado, o galardão foi para o escritor belga Henry Bauchau. Em 1991, homenageou José Cardoso Pires e, em 1997, Agustina Bessa-Luís.

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terça-feira, outubro 28, 2003

A Rainha Sofia de Espanha entrega esta terça-feira, em Madrid, no Palácio Real, o Prémio de Poesia com o seu nome a Sophia de Mello Breyner Andresen.


O Prémio de Poesia Rainha Sofia, da responsabilidade do Património Nacional de Espanha e da Universidade de Salamanca, distingue a poetisa portuguesa "pelo seu valor literário, que constitui um contributo válido para a humanidade".

A poetisa, que não se deslocará a Madrid, é representada pelo seu filho Miguel Sousa Tavares e pelo seu editor, Zeferino Coelho.

Ao longo da sua carreira literária, iniciada em 1944, Sophia, de 83 anos, arrecadou já inúmeros prémios.

"Mar" foi a sua mais recente obra, publicada em 2001 pela Editorial Caminho, que entre 1990 e 1991 compilou toda a sua poesia até aquela data em três volumes - "Obra Poética" I, II e III.


CASA BRANCA

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .... .... .... .... ...

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

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"Sinfonia em Branco", da brasileira Adriana Lisboa, é a obra distinguida este ano com o prémio José Saramago.

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PALAVRAS DE ANTONIO TABUCCHI
retiradas de uma interessante entrevista concedida a Sílvia Souto Cunha (Visão nº 555)

«Todos gostamos de acreditar em histórias felizes, mas acabamos por contar histórias tristes. É o paradoxo do artista. Aliás, penso que uma das funções da arte é parar com esse olhar sobre o que pode acalmar. É melhor ver aquilo que não nos sossega. No nosso mundo, há "tranquilizadores" por profissão - são os políticos, os teólogos, todos os que manobram a sociedade. Os artistas têm que «apanhar» os alarmes, dizer que não é bem assim, pôr no papel que quatro mil quilómetros de estrada em Portugal têm enormes buracos. É o papel da arte, é o livro do desassossego em suma».

.....

«Gostaria de fazer mais. mas como? O quê? Portanto, continuo a contar contos. Se contar uma estória em que, simbolicamente, existe uma prepotência, essa é a minha maneira de passar uma mensagem. Embora acredite que a literatura não tem que ter mensagem, tem que ser livre. Como dizia Oscar Wilde, todos vivemos no lodo mas, de vez em quando, gostaríamos de olhar as estrelas. Mas, por vezes, parece que não há tempo nem para dizer "ah, esta noite quero ver como está o céu do Alentejo", que é um dos céus mais belos do mundo. E temos o direito de olhar as estrelas. Gosto muito dos astrónomos - são criaturas magníficas porque passam a vida a olhar para o alto.
Mas o olhar dos escritores é à altura do homem....»


Antonio Tabucchi



segunda-feira, outubro 27, 2003

MANGAS VERDES COM SAL


Sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.

Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido, na maré baixa,
no minuto da suprema humilhação.

Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo, à boca ardida,
à crista do tempo, ao medo da vida.


Rui Knopfli
Mangas Verdes com Sal



domingo, outubro 26, 2003

JACARANDÁS DE SAUDADE


Tempo
de seus passos vindo
pelo tapete de roxas flores
dos jacarandás enfileirados na rua.

Hoje
é eterno o ontem
da silhueta de Maria
caminhando no asfalto da memória
em nebuloso pé ante pé do tempo.

...

Todo o tempo
colar de missangas ao pescoço
sempre o tempo todo
suruma minha suruma da saudade.

Suruma daquela saudade
das flores dos jacarandás
nos passos de Maria.

José Craveirinha
Maria





O Pescador Velho


Pescador vindo do largo
com o teu calçado de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face

a tua face marcada
pelo sol de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar

-nesta água não tem peixe-

pescador dá-me um só peixe
nem garoupa nem xaréu
só um peixinho de prata

-nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
pró lado de Zanzibar.



Glória de Sant'Anna




«Desculpa: mais peregrino que o rio não conheço. As ondas vão, vão nessa ida sem fim. Há quanto tempo a água tem esse serviço? Sozinho sobre a velha canoa, Ernesto Tima media a sua vida. Aos doze anos começara a escola de tirar peixe da água. Sempre no comboio da corrente, a sua sombra havia mostrado, durante trinta anos, a lei do homem sobre o rio. E tudo era para quê? A seca esgotara a terra, as sementes não cumpriam promessa. Quando regressava da pescaria, não tinha defesa para os olhos da mulher e dos filhos que se espetavam nele. Pareciam olhos de cachorro, custava admitir, mas a verdade é que a fome iguala os homens aos animais.»


...........

Mia Couto
Os Pássaros de Deus (Vozes Anoitecidas)

«Eu creio firmemente que é pela poesia que tudo vai começar.»

António Jacinto, em carta a Mário Pinto de Andrade, escrita em Luanda, em 1 de Fevereiro de 1952

sábado, outubro 25, 2003





É POR TI

É por ti que se enfeita e se consome,
Desgrenhada e florida, a Primavera
É por ti que a noite chama e espera

És tu quem anuncia o poente nas estradas.
E o vento torcendo as árvores desfolhadas
Canta e grita que tu vais chegar.

Sophia de Mello Breyner Andresen



IMPRECAÇÃO


...Mas põe nas mãos de África o pão que te sobeja
e da fome de Moçambique dar-te-ei os restos da tua gula
e verás como também te enche o nada que te restituo
dos meus banquetes de sobras.

Que para mim
todo o pão que me dás é tudo
o que tu rejeitas, Europa!

José Craveirinha
Xigubo




O que mais dói na miséria
é a ignorância que ela tem
de si mesma. Confrontados
com a ausência de tudo, os homens
abstêm-se do sonho, desarmando-se
do desejo de serem outros.

Mia Couto


segunda-feira, outubro 20, 2003

Mulher de gelo


A notícia veio no jornal, na última página, dando conta que um homem incendiara a casa onde a mulher se encontrava e tinha sido detido, como cumpria, tendo alguém comentado que assim deviam fazer todos os maridos ofendidos, para que não houvesse mais poucas vergonhas. Não contaram os jornais, o seguimento do acto, nem o que aconteceu ao assassino, muito menos o que se passou com a vítima, porque desafiando todas as leis e entendimentos, aconteceu que no local do sucedido, um bloco de gelo ficou a faiscar ao sol e a reflectir a luz da lua assemelhando-se, no entanto, à forma de uma mulher, envolta em panos largos, como se tivesse frio e se resguardasse. De pé, a cabeça inclinada para baixo, as mãos fechadas no peito pareciam segurar o tecido para que não escorregasse pelos brilhos gelados. Os pés descalços e juntos e a cabeça coberta com um lenço apertado na nuca.
Assim ficou, dias e noites seguidas, para grande admiração das gentes e dos visitantes que vinham para ver tal maravilha.
Ninguém entendia como Rosarinho tinha passado do estado de pessoa vivente ao estado de gelo, após ter sido queimada em pira de fogo, feita com sua própria casa, de barro e palha construída.
Os vizinhos mais próximos sabiam das dificuldades da vida de Rosarinho e seu marido. Ouvia-se muita coisa, tristes choros, súplicas, ameaças. Mas como é habitual, ninguém se afoitava a interferir. Preferiam ignorar.
Afirmam que nesse dia de desgraça, quando a lua já brilhava no céu e era a única luz que iluminava a noite, dizem, que se ouvia a voz de um homem falando de fora para dentro, em linguagem despropositada e ofensiva, bem como causadora de medo. Assim dizia, entre outras coisas «vem cá fora, quero inchar-te essa cara bem inchada».
Durante muito tempo foi este o tom da conversa. Lenga lenga sem fim, com algum álcool de permeio.
Os sons da noite continuavam tranquilamente como se nada estivesse prestes a acontecer. Rosarinho, de porta trancada, encolhida na sua frágil casa, devia esperar o fim das ameaças, com esperança que o cansaço vencesse e no outro dia a manhã trouxesse ares diferentes e renovados, salvando-se ela e seu marido, como de outras vezes acontecera, porque de traição ele a acusava, não contando que ela também trazia ofensas guardadas, mas nunca na sua cabeça tinha passado a ideia de ajuste de contas. Que se ofendia, ele sabia. Nos seus silêncios ele adivinhava o que não era dito nem precisava de ser contado e mais se remoía em despeitos.
Mais uma vez o seu homem se embriagara, mais uma vez a aterrorizava, mais uma vez a ameaçava. De todas as vezes, o outro dia trazia o esquecimento. Mas naquela noite de muitas estrelas e boa lua, o medo andava por ali tão presente como um corpo de pessoa viva, rondando a casa, batendo na porta, atirando pedras, gritando, fazendo voar tudo o que lhe aparecesse à frente e pudesse ser arremessado. Mas nada o satisfazia. Trazia uma fome de monstro. E Rosarinho encolhia-se cada vez mais, já a luz se consumira dentro de casa e a escuridão mais razão dava ao medo. A negrura da noite em casa fechada fazia com que lhe faltasse o ar, sufocava, ou seria o fumo que ocupava cada canto do espaço em que se encasulara?
Rosarinho ainda teve tempo de ver as chamas iluminarem o espaço do seu medo, ainda teve tempo de pensar que se fosse uma pedra de gelo, o fogo se afastaria a tempo de a virem buscar, quem sabe se o próprio marido, ali tão perto não correria a socorrê-la, levando-a, pesada como um bloco de rocha gelada, mas mesmo assim levando-a, e depois, a pouco e pouco, ela se derreteria, primeiro a água escorreria em gotas pelos cabelos, depois pelo pescoço, depois pelo peito, depois pela cintura, fazendo um lago a seus pés, sendo a última coisa a derreter, o seu coração.
Se isso acontecesse, fosse quem fosse a primeira pessoa que a arrebatasse daquele fogo que já tudo consumia, fosse quem fosse a primeira pessoa que lhe estendesse a mão, a segurasse nos braços e a trouxesse para fora, para debaixo das estrelas, para longe da fogueira feita da sua casa, fosse quem fosse que a tocasse como se nada no mundo existisse a não ser ela, ela Rosarinho, essa primeira pessoa, teria o privilégio de a ver transformar-se do estado de gelo mortificado, ao estado de ser vivente, de mãos quentes, coração a bater no peito e sorriso nos lábios e nos olhos.
Mas não aconteceu e Rosarinho deixou que o fogo rodopiasse à sua volta, abatesse tudo o que era a sua casa e ficou de pé, bloco de gelo faiscante no meio das cinzas fumegantes, que a pouco e pouco arrefeceram, para grande admiração de toda a gente que ali vai agora, que não se atreve a tocar-lhe com um só dedo, porque o fenómeno é enorme e o mistério também, até ao dia, quem sabe, em que seu próprio marido, aparecendo, se aproxime e lhe peça que esqueça a noite em que regou a casa com petróleo e lhe chegou fogo e lhe explique, porque fez tamanho mal, a si e a ela, e se transforme tanto, como ela o fez, que passou do estado de vivente ao estado de gelo puro, brilhando debaixo da lua e faiscando ao sol.






CROCODILOS



Petrificados três crocodilos.
Ordenaram-lhes: sejam deuses!

Estão no Egipto.
Mortos, olhamo-nos.
Ali estão
para serem vistos por nós.

Quanta sabedoria naquela petrificação!








DA ÁRVORE


Lembro-me dela, muito, muito,
tão vulgar, tão frondosa,
sempre ali,
nunca me deixou,
nunca imaginei não a ver lá,
nunca pensei naquilo sem ela,
aquele tronco rugoso a que sempre me encostei,
aquela copa que me dava alívio
do calor, do sol sem pena,
aquela copa que guardava segredos,
de cheiros, de flores escondidas
de ninhos de pássaros.

Seriam só teus os doces cheiros de flores desconhecidas?
Que bem ficavas mesmo em frente à casa!
Nunca te dei valor...

Sempre te imaginei com um alfaiate e a sua máquina de costura.
Debaixo da tua copa, nasceriam calções, blusas,
camisas...
E a máquina faria truc, truc, truc,
todo o dia.

Diz-me: ainda gostas de mim?

sábado, outubro 18, 2003

MÃE


Minha Mãe:
Trago a resina das velhas árvores
da floresta nas minhas veias.
E a sina de nascença
no meio das baladas à volta da fogueira
tu sabes como é sempre uma dor nova
sabes ou não sabes, minha Mãe?


Sabes ou não sabes
o mistério de olhos inflamados de macho
que um dia encontraste no teu caminho
de tombasana de pés descalços?


Sabes ou não sabes, Mãe
a resina das velhas árvores plantadas pelos espíritos
as blasfémias dos mortos salgando as raízes virgens
e as grandes luas de ansiedade esticando
as peles dos tambores enraivecidos
e dando às folhas das palmeiras
o brilho incandescente das catanas nuas?


E no sabor do encantamento, Mãe
dos nossos desenfeitiçados feitiços ancestrais
o exorcismo ingénuo das tuas missangas
o maravilhoso mecheu das tuas canções
e o segredo do teu corpo possuído
mas de materno sangue inviolável
donde a minha sina nasceu.


No
espaço da tua sepultura de negra
sabes ou não sabes a verdade
agora sabes ou não sabes
minha Mãe?



José Craveirinha
KARINGANA UA KARINKANA


AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE


Pai:
as maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época da colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade filial não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do meu antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster Keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
ante os meus sócios Bucha e Estica no “écran” todo branco
e para sempre no zinco um tap-tap de cacimba no chão
a minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: - “Zé
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém.”

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Aljezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha Mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai,
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.


Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o “Trinta-diabos” de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de “bicicleta” à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos galagalas
embasbacado com as proezas dos leões do Circo Page!
nódoas de caju na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no xitututo Harley Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen O’Sulivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de tarzan Weissemuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o “Cascabulho” para ti
o Santinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
os teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu Pai, vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na irís do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.
E revejo os teus longos desejos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardito, Douglas Faibanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira-e-zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha Mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
o Tarzan agente inglês disfarçado em África
e a Shirley temple de sofismas nas covinhas da face
e eu também é que mudámos.
e alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de sécuas ávidas sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronze
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das húmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza afro-algarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!


José Craveirinha
KARINGANA UA KARINGANA






NAINETINA LAURENTINA CESARINIANA I


Na noite
Todos os cujos
Gatos marujos
Da raça eleita
São pardos
E vão à deita
Co’as sensitivas
Evasluídas.

Diria o Lorca:
-Voga en el aire una risa de nardos...
Diria o ministro da Forca:
-Enforquem esses bastardos!


Grabato Dias

Laurentinas, 1971







UM POEMA DE SEBASTIÃO ALBA


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


Sebastião Alba
Uma Pedra ao Lado da Evidência



Sebastião Alba, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasceu em Braga em 1940, em 1949 partiu para Moçambique onde viveu até 1983. Nesse ano e seguintes viveu em Braga . Faleceu em 2000.

sexta-feira, outubro 17, 2003

LUNDU DO ESCRITOR DIFÍCIL

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.

Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!

Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!...
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh "xavié"
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!

Virtude de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês "singe"
Mas não sabe o que é guariba?
Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.


Mário de Andrade

quinta-feira, outubro 16, 2003





FUMINHO



Uma ténue lembrança de verde,
emaranhado de copas onduladas
de mistérios densos por entre a mata,
Uma ténue lembrança de céu azul
de capim seco,
de cheiro a mato,
Uma ténue lembrança,
um fino e longo fio,
um fuminho de fogueira
que se esvai sem eu querer,
minha paisagem perdida no tempo,
minha para sempre,
aqui te pinto de mil aguarelas,
verdes, amarelas, douradas, vermelhas.
Abraça-me nos teus odores.




quarta-feira, outubro 15, 2003




MARINHA


A negra curvada dentro do mar
colhe conchas (e mágoas).

Seu filho no dorso virado ao céu
adormece (e que sabe?)

Ela mergulha os pés
no tecido das algas;

ele sustido se embala
por sobre a mansa água.

Os dois cumprem o instante
que lhes cabe,

dentro do sol morno
da manhã exacta.

O resto à sul volta
nada vale.


Glória de Sant'Anna
Poemas do Tempo Agreste - 1964

REGIÃO


Os pinheiros têm o verde pelo ar
e a caruma desce-me nos pés
até ao passo seguinte.

O vento enrodilha os gorgeios
de um pássaro nos ramos,
e faz tremer o sol
até ao outro lado erguido das montanhas...

Eu estou contigo na solidão:
e tudo aqui é grande porque estás aqui.


Glória de Sant'Anna
Distância-1951





"SE DA CULTURA ALEMÃ SURGIU UMA BESTA DO MAL, QUEM ESTARÁ A SALVO"

Carlos Fuentes

GLÓRIA DE SANT'ANNA
O SILÊNCIO ÍNTIMO DAS COISAS


Por Eugénio Lisboa


No Moçambique que precedeu a independência, a qual teve lugar em 25 de Junho de 1975, muita coisa aconteceu, como não é sabido de toda a gente. Na realidade, não é sabido de quase ninguém, excepto de uns poucos (e não todos) que lá viveram.
Muito se tem escrito, sobretudo no pelouro em que impera o "discurso político", acerca do que foi ou não foi o chamado período colonial português. Seja dito de passagem que mais se tem falado do que acertado. É com lindos sentimentos que se faz má literatura, disse-o um dia Gide, irritando Claudel, e é também com angélicas intenções que se trai, frequentemente, os mandatos da história. Não deixa sobretudo de ser curiosa a fácil boa consciência de quem, no chamado Portugal continental, bem mais se aproveitou (e prosperou) com a exploração colonial do que tantos que pelo ultramar tristemente se alienaram, pobre e honradamente viveram e, para o fim, alucinadamente se desintegraram. De gente séria, pobre e perplexa (e não só da outra), está a história de Moçambique também cheia, como não é do conhecimento confortável de algumas consciências bastante poluídas, que depois facilmente se reconciliaram consigo próprias, por vias mais ou menos expeditas. Não pretendo fazer a defesa (impossível) de todo o período colonial português que não deve, também, por outro lado, ser analisado, hoje, à luz das coordenadas político-estratégicas que convinham (e é normal que conviessem) aos movimentos de autonomia e libertação. Lembro simplesmente que a história objectiva não há-de poder fazer-se, um dia, a preto e branco, usando de critérios simplistas que serviram quando e a quem deviam servir, num período de mobilização e luta, o que é compreensível, mas de todo já não servirão, nesses mesmos termos, quando chegar a idade da razão e da análise. Quero eu dizer, por outras palavras e sem receio delas, que a história colonial de Moçambique não há-de poder ser a versão que dela ofereceram a compreensível militância da Frelimo (no tempo disso) e a dos historiadores dela e com ela mais ou menos comprometidos. Misto de erros, desacertos e crimes e, a partir de certa data, ferido de inviabilidade moral e material, mas também misto de alguns acertos e não poucas medidas e investimentos de que hoje se aproveitam - e é bom que o façam - os que ali governam (algumas das estruturas económicas que ali ficaram não eram tão más como as pintava uma mitologia ideologicamente simplista), o colonialismo português precisa, como tudo, de um estudo atento, objectivo, frio, implacável quando necessário, mas não de "slogans" acusatórios e primários, os quais não constituiram nunca, que se saiba, equipamento sério de investigação histórica.


Eugénio Lisboa
Prefácio a AMARANTO de Glória de Sant'Anna


domingo, outubro 12, 2003

PALAVRAS DE QUE NÃO GOSTEI....

"Luanda regurgita hoje com mais de 3 milhões de habitantes, mas entrou na normalidade dual (5ª Avenida/Harlem) de qualquer metrópole por esse mundo fora - entre 1988 e 1992 parecera-me um descomunal bairro de lata, mesmo no betão que fizera o orgulho dos nossos patos-bravos."

ANA GOMES - Membro do Secretariado Nacional do Partido Socialista
Incluído no artigo de opinião "Angola em mudança", revista Visão nº 550.


quarta-feira, outubro 08, 2003



O CAVALO DO MOUZINHO


Ironicamente, o herói colonial defendeu
e ajudou a fixar as fronteiras do país
que havia de converter-se em pátria alheia.
Décadas volvidas, caía uma chuva miudinha,
segundo consta, apearam-lhe a estátua

do alto plinto. Caía uma chuva miudinha,
mas o Sr. alberto Massavanhane garante,
solene e com ar grave, talvez com um nó
na garganta, que não, não era só chuva
e que, mesmo de bronze, até o cavalo chorava.


Rui Knopfli

terça-feira, outubro 07, 2003

O LADRÃO DE VERSOS


Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.


Rui Knopfli

domingo, outubro 05, 2003

APRENDIZES DE FEITICEIRO

Apenas aprendizes, carecemos talvez
o clínico rigor teutónico.
Não o entusiasmo, porém.
Ignoramos a técnica aperfeiçoada
dos quebra-luzes, o refinamento
de certos processos mais requintados.
Mal iniciámos este artesanato
e já abundam os souvenirs
embora um pouco toscos e mal curtidos.

Dachau, Belsen, Auschwitz
operavam sobre polidas esferas
a uma escala certamente industrial
que nos confere este ar de amadores
canhestros e um pouco provincianos
com que misturamos jogos reeducativos,
filarmónicas de aldeia e récitas,
a coisas que deviam ser objecto
exclusivo das ciências aplicadas.

Haja paciência: lá chegaremos.

Rui Knopfli

quinta-feira, outubro 02, 2003

SEM NADA DE MEU

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.

Rui Knopfli

quarta-feira, outubro 01, 2003

PRAÇA SETE DE MARÇO

No centro da praça, meu pai acena
do fundo do tempo: o coração
da cidade ao voltar da esquina.
Por sobre os metais cintilantes da banda,
o Ali de cofió rendado e cabaia branca
leva a bandeja nos gestos graves.
Há um bule de loiça e uma chávena
a fumegar na tarde, o odor quente
e loiro das torradas, o travo amargo
da compota; senhores que passeiam
de palhinha e palm beach, baneanes
magros de reverência solícita, um surdo
marulhar de pedras giradas no mah jong.
O horizonte abre para o mar, lisa
matriz do sol. Móveis, as sombras
gizam no empredrado caprichos longos
como o passar da luz entre a folhagem.
E meu pai tão longe que já o não vejo,
talvez de ter passado, como a luz,
sobre esse tempo e esse lugar, ora mudados
em eco fruste da memória. No centro
da praça volto-me para acenar a meu filho.

Rui Knopfli

A AGONIA DA PALAVRA

"Prossiga, Houston.
Apollo 8.
Queima completa.
Nossa órbita:
169,1 por 60,5
169,1 por 60,5"

Cap. James A. Lovell Jr.
- para a Terra em 25/12/1968




Rui Knopfli




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